Dois, mas só um é o certo

1152 Words
Laura se sentia como uma peça central em um jogo onde as regras pareciam mudar a cada instante. A cidade, com suas luzes brilhantes e ritmo frenético, era o pano de fundo perfeito para o dilema que tomava forma dentro dela. Aos 27 anos, sua vida parecia ter encontrado uma estabilidade profissional e pessoal, mas, ao mesmo tempo, um turbilhão emocional começava a se desenrolar. Gabriel era a definição de segurança e conforto. Ele a conhecia como ninguém, sabia suas manias, seus medos e seus sonhos. Durante anos, foi seu confidente e companheiro nas batalhas diárias, e ela valorizava cada momento ao lado dele. Ele representava tudo o que era certo, estável e previsível. Mas então havia Joaquim. Ele não fazia parte de nenhum plano que Laura havia traçado para si mesma. Ele era o inesperado — uma força que vinha com a intensidade de uma tempestade. O olhar penetrante, as palavras escolhidas com cuidado, a aura de mistério que parecia cercá-lo. Cada interação com ele deixava Laura com a sensação de estar à beira de algo que não conseguia nomear. Nas semanas que se seguiram, Laura se viu dividida. No trabalho, Joaquim se tornava cada vez mais presente em seus pensamentos. Durante as reuniões, ela sentia o coração disparar ao ouvir sua voz. Era uma reação visceral, incontrolável, como se uma parte dela que havia estado adormecida finalmente despertasse. Ao mesmo tempo, as noites ao lado de Gabriel continuavam sendo um lembrete da vida que ela conhecia e amava — uma vida de risadas, cumplicidade e estabilidade. Certa noite, Laura decidiu que precisava de um momento para si mesma. Após o jantar com Gabriel, onde as conversas e risadas pareceram mais mecânicas do que de costume, ela caminhou sem rumo pela cidade. As ruas, iluminadas pelos neons e repletas de histórias desconhecidas, pareciam refletir seu estado interno. Era como se cada esquina escondesse uma resposta que ela ainda não estava pronta para encontrar. Quando finalmente chegou em casa, encontrou uma mensagem de Joaquim em seu celular: **"Laura, esqueci de mencionar uma ideia para a campanha. Podemos conversar amanhã?"** A simplicidade da mensagem carregava algo mais — uma proximidade velada que Laura começava a reconhecer. Sem perceber, ela sorriu. A presença de Joaquim em sua vida era como um ímã, atraindo-a para algo que ela sabia ser arriscado, mas irresistível. Nos dias seguintes, Laura se pegou observando Gabriel mais atentamente, como se procurasse algo que nunca tinha notado antes. Ao mesmo tempo, os momentos com Joaquim tornavam-se mais intensos. Ele começava a revelar pequenas partes de si mesmo, e Laura descobria uma profundidade que a atraía cada vez mais. As linhas entre o certo e o errado, entre a amizade e algo mais, começaram a se borrar. No fundo, Laura sabia que estava em um ponto de inflexão. O dilema não era apenas sobre Gabriel ou Joaquim; era sobre quem ela era e quem queria ser. Ela poderia permanecer no porto seguro que era Gabriel ou se lançar na tempestade que Joaquim representava. Qualquer que fosse sua escolha, ela sabia que sua vida nunca seria a mesma. Naquela noite, Laura m*l conseguiu dormir. A mensagem de Joaquim parecia ecoar em sua mente como uma melodia persistente. Não era apenas a ideia da campanha que a fazia pensar, mas o tom da mensagem, a familiaridade sutil que parecia convidá-la a ultrapassar barreiras invisíveis. Pela manhã, ela se arrumou com mais cuidado do que o habitual, como se inconscientemente estivesse se preparando para um encontro. O dia na agência começou como qualquer outro: a rotina frenética de e-mails, telefonemas e reuniões. Mas Laura sabia que aquele dia teria algo diferente. Quando finalmente encontrou Joaquim na sala de reuniões, ele estava revisando alguns esboços. O silêncio entre eles parecia denso, carregado de tudo o que não era dito. “Bom dia,” disse ele, levantando o olhar com um meio sorriso que parecia enigmático demais para um simples cumprimento. “Bom dia,” respondeu Laura, tentando soar casual. Eles discutiram a ideia da campanha por alguns minutos. Joaquim tinha um jeito de falar que era ao mesmo tempo direto e envolvente, como se cada palavra fosse escolhida com precisão cirúrgica. Laura se viu fascinada novamente, não apenas pela proposta em si, mas pela paixão que ele colocava em cada detalhe. Quando terminaram, ele a observou por um instante mais longo do que o habitual. “Você está bem?” perguntou, inclinando ligeiramente a cabeça, como se pudesse ver além da máscara profissional que ela usava. “Sim, por que não estaria?” respondeu ela, desviando o olhar rapidamente. “Não sei. Você parece… distraída,” disse Joaquim, com um tom que era ao mesmo tempo curioso e gentil. Laura sentiu o rosto esquentar. Ele estava certo. Ela estava distraída, mas o motivo era ele, e admitir isso estava fora de questão. “Só um pouco cansada, acho,” disse, sorrindo de leve. “Entendo. Talvez precise de uma pausa,” sugeriu ele, dando de ombros como se a ideia fosse banal. Mais tarde, quando Laura estava no lounge da agência, Gabriel apareceu com seu típico sorriso fácil. Ele segurava duas xícaras de café e uma barra de chocolate. “Resgate para a nossa gerente favorita,” disse, entregando os itens a ela. “Você sabe como me mimar,” brincou Laura, rindo. Eles conversaram sobre tudo e nada ao mesmo tempo, como sempre faziam. Gabriel era um conforto palpável, um alívio para a tensão que Joaquim parecia trazer. Mas, mesmo ali, enquanto Gabriel falava, sua mente vagava para a conversa com Joaquim mais cedo. Ao fim do expediente, Gabriel sugeriu que fossem tomar um drink em um bar próximo. Laura hesitou, mas acabou concordando. Precisava de uma distração, algo que a ajudasse a organizar os pensamentos. No bar, a atmosfera era animada, cheia de vozes e risadas. Gabriel parecia estar no seu melhor, contando histórias que arrancavam gargalhadas não apenas de Laura, mas também das pessoas nas mesas próximas. Ela sabia que deveria estar completamente presente, mas algo dentro dela parecia desconectado. Enquanto Gabriel se afastava por um momento para atender uma ligação, Laura sentiu o celular vibrar. Uma mensagem de Joaquim apareceu na tela: **“Ainda pensando na campanha? Ou talvez em algo mais?”** O coração de Laura disparou. Aquilo era mais do que apenas uma mensagem sobre trabalho. Havia algo nas palavras dele — uma insinuação, um convite velado para um território desconhecido. Quando Gabriel voltou à mesa, ele notou a expressão distante de Laura. “Tudo bem?” perguntou, com uma preocupação genuína. “Sim, só pensando em algumas coisas do trabalho,” mentiu ela, guardando o celular no bolso. Mas ela sabia que aquilo era mais do que trabalho. Era um sinal de que estava, de fato, em um terreno perigoso, e que cada escolha que fizesse dali em diante teria consequências que ela talvez não pudesse controlar.
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