Sarah acordou de mau humor.
Não aquele mau humor elegante e silencioso que ela dominava bem era um incômodo visceral, quase infantil. Abriu os olhos e ficou alguns segundos encarando o teto, tentando se convencer de que aquilo tinha sido só um sonho.
Não funcionou.
— Ridículo — murmurou, passando a mão pelo rosto.
Já fazia anos. Anos sem pensar em Noah daquela forma, sem lembrar do cheiro, do tom de voz, da sensação de ter dezesseis anos e não saber se proteger. Ela tinha construído uma vida inteira em cima dessa ausência. E bastaram dois dias de reencontro para o passado se infiltrar como se tivesse permissão.
Levantou-se da cama com movimentos bruscos, foi até a cozinha e colocou água para ferver com força desnecessária. O café borbulhou demais, quase transbordou.
— Ótimo — resmungou.
Enquanto tomava café, o sonho insistia em se repetir em flashes indesejados: o beijo, a risada, a sala de aula inteira olhando. A humilhação. A decisão silenciosa de não falar mais com ele.
Ela apertou a xícara com força.
— Eu não tenho dezesseis anos — disse em voz alta, como se precisasse se lembrar.
Era adulta. Publica. Respeitada. Vivia em outro país. Escrevia histórias sobre mulheres que não se diminuíam.
E ainda assim…
Ver Noah ali, no casamento, pedir desculpas, abraçá-la na despedida tudo isso tinha revirado algo que ela acreditava arquivado, resolvido, superado.
Sarah abriu o notebook com irritação.
Não para escrever o livro.
Para provar a si mesma que estava no controle.
Mas o arquivo que abriu não foi Votos de Gelo e Fogo.
Foi um documento em branco.
E, sem perceber, digitou a primeira frase quase em automático:
Ela achou que tinha enterrado aquele amor junto com a adolescência. Mas algumas memórias não morrem apenas esperam.
Sarah parou.
Ficou olhando para a frase, o coração batendo rápido demais para alguém que se dizia indiferente.
— Não — sussurrou, fechando o documento sem salvar.
Ela se levantou, caminhou pelo apartamento, abriu a janela com força. O ar frio da manhã bateu no rosto, trazendo lucidez.
Era só um sonho.
Um reflexo tardio.
Nada mais.
Mas, no fundo, Sarah sabia:
não era coincidência que, depois de anos sem lembranças, o passado tivesse voltado justamente agora quando ela precisava escrever sobre risco, vulnerabilidade e fogo.
Ela respirou fundo, mais calma, porém alerta.
Talvez não fosse sobre Noah.
Talvez fosse sobre a garota de dezesseis anos que ela nunca permitiu que virasse personagem.
E isso… isso a irritava mais do que qualquer investidor..
Sarah ficou alguns segundos parada no meio do quarto, o maxilar tenso, como se estivesse discutindo consigo mesma em silêncio.
— Ótimo — murmurou. — Vamos fazer isso direito.
Pegou o diário onde o tinha deixado, sentindo um incômodo quase físico ao tocar na capa azul. Não era nostalgia. Era irritação. Irritação por ainda doer, por ainda existir, por ainda ter matéria-prima demais para algo que ela jurava superado.
Sentou-se à escrivaninha, abriu o notebook.
Abriu um arquivo novo.
Sem título.
Sem sinopse.
Sem contrato pairando sobre a cabeça.
Colocou o diário ao lado do teclado, aberto em uma página qualquer, e começou a ler trechos aleatórios. Não em ordem. Não com cuidado. Como quem procura faísca.
E então escreveu.
Não pensou em estilo.
Não pensou em mercado.
Não pensou no agente.
As palavras vieram rápidas, quase agressivas.
A personagem ganhou nome sem cerimônia: Aruna
Observadora demais. Inteligente demais. Sentindo tudo em silêncio.
O outro veio logo depois: Benjamin ( Ben)
Carismático. Irresponsável. c***l sem perceber.
Sarah descreveu as características deles e depois as memórias.
Escreveu o beijo no corredor.
A menta.
A risada.
A palavra dita como brincadeira.
Escreveu a sala de aula.
As risadas.
O constrangimento público.
O carinho privado que confundia tudo.
E escreveu, principalmente, a decisão.
A menina que para de falar.
Que para de esperar.
Que começa a se proteger.
Sarah digitava com força, quase sem piscar. Os dedos acompanhavam o ritmo de algo antigo, guardado, finalmente liberado. O texto não era elegante era vivo.
Ela não releu.
Não editou.
Não apagou.
Quando percebeu, o sol já tinha mudado de posição no céu. O café estava frio ao lado do notebook, intocado.
Ela parou de escrever só quando os dedos começaram a doer.
Olhou para a tela.
Dez páginas.
Sarah piscou, surpresa. Rolou o texto, o coração acelerado.
— O quê… — sussurrou.
Não lembrava de ter escrito metade daquilo. As cenas estavam ali, coesas, intensas, sem o controle excessivo que sempre teve. Havia vulnerabilidade. Havia fogo. E, pela primeira vez em muito tempo, não havia medo.
Ela apoiou as costas na cadeira, soltando o ar devagar.
O livro ainda não tinha nome.
Talvez nem fosse Votos de Gelo e Fogo.
Talvez fosse outra coisa.
Mas aquelas páginas… aquelas páginas eram verdadeiras.
Sarah fechou o diário com cuidado e pousou a mão sobre o teclado, sentindo algo raro e perigoso: entusiasmo.
Irritada consigo mesma, sim.
Exposta, com certeza.
Mas, acima de tudo, escrevendo de novo não como quem se protege do passado, mas como quem finalmente decide usá-lo.
E, no silêncio do apartamento, uma certeza começou a se formar, clara demais para ser ignorada:
Talvez a história que ela sempre evitou fosse, justamente, a única capaz de quebrar o gelo sem apagar o fogo.