Sarah tomou a decisão numa tarde silenciosa, dessas em que a casa parece grande demais.
Depois de desligar com Esther, ela passou dias tentando fingir que estava tudo bem. Saiu para eventos, sorriu para fotos, respondeu entrevistas com a naturalidade treinada. Mas por dentro, algo seguia travado como se o corpo estivesse em um lugar e a alma em outro, atrasada.
Foi então que ligou para a irmã.
— Vem — a irmã disse do outro lado, sem hesitar. — Você tá precisando respirar fora da própria cabeça.
A ideia cresceu rápido demais para ser ignorada.
Naquela noite, Sarah comentou com Luca enquanto jantavam. Nada solene, nada dramático. Apenas um fato.
— Eu tô pensando em ir pra Los Angeles por uns dias. Visitar minha irmã.
Luca ergueu o olhar do prato, atento.
— Quando?
— Semana que vem, talvez. — Ela deu de ombros. — Só pra espairecer.
Ele pensou por um instante, apoiando os cotovelos na mesa.
— Eu queria muito ir com você… mas não vou conseguir. — Fez uma careta sincera. — O projeto tá na fase final, eu não posso sumir agora.
Sarah assentiu de imediato. Não houve frustração, nem cobrança.
— Eu imaginei — disse. — Tá tudo bem.
E estava. Aquilo era o que mais a incomodava.
Luca estendeu a mão por cima da mesa e apertou a dela.
— A gente se fala todo dia, tá? Aproveita. Fica com sua família.
Ela sorriu, grata. Um sorriso real, mas calmo. Sem vertigem.
Mais tarde, sozinha no quarto, Sarah abriu o notebook para comprar a passagem. Los Angeles apareceu na tela como um nome antigo, familiar demais.
Antes de confirmar, ela hesitou.
Pensou em aeroportos, reencontros improváveis, cheiros que a memória guarda sem pedir permissão. Pensou no que estava tentando fugir e no que talvez estivesse indo buscar sem admitir.
Clicou em confirmar.
O bilhete eletrônico chegou segundos depois.
Sarah fechou o notebook e se deitou, encarando o teto.
Não estava indo atrás de nada.
Era só uma visita.
Mas o coração, traidor, bateu um pouco mais rápido
como se soubesse que algumas cidades nunca são apenas cidades.
Noah estava sentado no sofá, o controle largado na mesa de centro, a TV ligada sem som. Fernanda andava pela sala, inquieta demais para quem dizia estar “só conversando”.
— Você sempre muda de assunto — ela disse, parando na frente dele. — Sempre.
Noah suspirou, passando a mão pelo rosto.
— Eu não mudo de assunto, eu só… não tô no mesmo ritmo que você.
Ela riu sem humor.
— Ritmo? Noah, a gente tá junto há anos. Eu quero morar com você. Quero planejar alguma coisa. — A voz dela falhou só um pouco. — E você foge. Toda vez.
Ele ficou em silêncio. E o silêncio, dessa vez, respondeu por ele.
Fernanda cruzou os braços, os olhos brilhando de frustração.
— Então fala. — Ela respirou fundo. — Você quer isso comigo ou não?
Noah abriu a boca, fechou de novo. O pensamento veio claro demais, quase c***l de tão honesto:
Eu gosto de você, mas não consigo ir além.
— Eu não tô pronto pra uma vida a dois — disse, enfim. A voz baixa, firme. — Não desse jeito.
Ela piscou algumas vezes, assimilando.
— Não comigo — corrigiu.
Ele não negou.
— Não é justo com você — continuou. — Nem comigo. Eu tô aqui, mas com a cabeça em outro lugar há muito tempo.
Fernanda deu um passo para trás, como se aquela frase tivesse peso físico.
— Você sabe que eu te amei, né?
— Eu sei — respondeu ele, sem hesitar. — E é por isso que eu não vou fingir.
O silêncio que se seguiu foi longo, denso. Não houve gritos, nem portas batidas. Só o som distante da rua entrando pela janela aberta.
Fernanda pegou a bolsa, respirou fundo mais uma vez.
— Então é isso — disse, já mais calma. — Eu mereço alguém que queira ficar. Inteiro.
— Você merece — Noah concordou.
Ela saiu sem olhar para trás.
Quando a porta se fechou, Noah ficou ali, parado, por um tempo indefinido. Depois se levantou, foi até a cozinha, abriu a gaveta e pegou a cartela de chiclete de menta. Colocou um na boca sem pensar.
Encostou na bancada, sentindo o frescor invadir.
Não estava triste. Também não estava aliviado.
Só sentia uma estranha sensação de espaço
como se tivesse tirado algo que não cabia mais,
e agora o vazio começasse a perguntar
o que, afinal, sempre esteve ocupando esse lugar.