Capítulo 45. Termino

761 Words
Sarah tomou a decisão numa tarde silenciosa, dessas em que a casa parece grande demais. Depois de desligar com Esther, ela passou dias tentando fingir que estava tudo bem. Saiu para eventos, sorriu para fotos, respondeu entrevistas com a naturalidade treinada. Mas por dentro, algo seguia travado como se o corpo estivesse em um lugar e a alma em outro, atrasada. Foi então que ligou para a irmã. — Vem — a irmã disse do outro lado, sem hesitar. — Você tá precisando respirar fora da própria cabeça. A ideia cresceu rápido demais para ser ignorada. Naquela noite, Sarah comentou com Luca enquanto jantavam. Nada solene, nada dramático. Apenas um fato. — Eu tô pensando em ir pra Los Angeles por uns dias. Visitar minha irmã. Luca ergueu o olhar do prato, atento. — Quando? — Semana que vem, talvez. — Ela deu de ombros. — Só pra espairecer. Ele pensou por um instante, apoiando os cotovelos na mesa. — Eu queria muito ir com você… mas não vou conseguir. — Fez uma careta sincera. — O projeto tá na fase final, eu não posso sumir agora. Sarah assentiu de imediato. Não houve frustração, nem cobrança. — Eu imaginei — disse. — Tá tudo bem. E estava. Aquilo era o que mais a incomodava. Luca estendeu a mão por cima da mesa e apertou a dela. — A gente se fala todo dia, tá? Aproveita. Fica com sua família. Ela sorriu, grata. Um sorriso real, mas calmo. Sem vertigem. Mais tarde, sozinha no quarto, Sarah abriu o notebook para comprar a passagem. Los Angeles apareceu na tela como um nome antigo, familiar demais. Antes de confirmar, ela hesitou. Pensou em aeroportos, reencontros improváveis, cheiros que a memória guarda sem pedir permissão. Pensou no que estava tentando fugir e no que talvez estivesse indo buscar sem admitir. Clicou em confirmar. O bilhete eletrônico chegou segundos depois. Sarah fechou o notebook e se deitou, encarando o teto. Não estava indo atrás de nada. Era só uma visita. Mas o coração, traidor, bateu um pouco mais rápido como se soubesse que algumas cidades nunca são apenas cidades. Noah estava sentado no sofá, o controle largado na mesa de centro, a TV ligada sem som. Fernanda andava pela sala, inquieta demais para quem dizia estar “só conversando”. — Você sempre muda de assunto — ela disse, parando na frente dele. — Sempre. Noah suspirou, passando a mão pelo rosto. — Eu não mudo de assunto, eu só… não tô no mesmo ritmo que você. Ela riu sem humor. — Ritmo? Noah, a gente tá junto há anos. Eu quero morar com você. Quero planejar alguma coisa. — A voz dela falhou só um pouco. — E você foge. Toda vez. Ele ficou em silêncio. E o silêncio, dessa vez, respondeu por ele. Fernanda cruzou os braços, os olhos brilhando de frustração. — Então fala. — Ela respirou fundo. — Você quer isso comigo ou não? Noah abriu a boca, fechou de novo. O pensamento veio claro demais, quase c***l de tão honesto: Eu gosto de você, mas não consigo ir além. — Eu não tô pronto pra uma vida a dois — disse, enfim. A voz baixa, firme. — Não desse jeito. Ela piscou algumas vezes, assimilando. — Não comigo — corrigiu. Ele não negou. — Não é justo com você — continuou. — Nem comigo. Eu tô aqui, mas com a cabeça em outro lugar há muito tempo. Fernanda deu um passo para trás, como se aquela frase tivesse peso físico. — Você sabe que eu te amei, né? — Eu sei — respondeu ele, sem hesitar. — E é por isso que eu não vou fingir. O silêncio que se seguiu foi longo, denso. Não houve gritos, nem portas batidas. Só o som distante da rua entrando pela janela aberta. Fernanda pegou a bolsa, respirou fundo mais uma vez. — Então é isso — disse, já mais calma. — Eu mereço alguém que queira ficar. Inteiro. — Você merece — Noah concordou. Ela saiu sem olhar para trás. Quando a porta se fechou, Noah ficou ali, parado, por um tempo indefinido. Depois se levantou, foi até a cozinha, abriu a gaveta e pegou a cartela de chiclete de menta. Colocou um na boca sem pensar. Encostou na bancada, sentindo o frescor invadir. Não estava triste. Também não estava aliviado. Só sentia uma estranha sensação de espaço como se tivesse tirado algo que não cabia mais, e agora o vazio começasse a perguntar o que, afinal, sempre esteve ocupando esse lugar.
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