A premiação aconteceu em um teatro antigo, elegante, daqueles que guardam histórias nas paredes.
Sarah não esperava ganhar nada naquela noite. Foi mais por presença, por contrato, por educação. Vestia um vestido preto simples, cabelo solto, sardas iluminadas pela maquiagem mínima. Estava confortável e isso fazia toda a diferença.
Foi durante o coquetel, depois dos aplausos e dos discursos longos, que ele apareceu.
Não chegou invadindo espaço. Não interrompeu conversa. Apenas se aproximou quando percebeu que ela estava sozinha, observando um quadro na parede como quem busca um respiro.
— Você olha para as coisas como se estivesse escrevendo sobre elas — disse ele, com um sorriso tranquilo.
Sarah virou-se, curiosa.
Ele era alto, mas não imponente. Tinha um ar calmo, maduro, olhar atento. Barba bem cuidada, roupas elegantes sem esforço. Havia algo nele que não pedia aprovação.
— Vício antigo — ela respondeu, divertida. — É difícil desligar.
— Imagino — ele disse. — Sou Luca.
Estendeu a mão, firme, sem pressa.
— Sarah.
— Eu sei — ele sorriu. — Mas gosto de ouvir da própria pessoa
Ela riu baixo.
Conversaram sem pressa. Sobre arte, viagens, livros que não tinham nada a ver com romances. Luca era arquiteto, trabalhava entre Milão e Lisboa, gostava de silêncio e de observar pessoas sem pressa de interpretá-las.
O que mais chamou a atenção de Sarah foi isso: ele não tentou impressionar. Não fez cantadas óbvias. Não a colocou em um pedestal.
Ele a escutou.
— Seu livro — ele comentou, em algum momento — não parece pedir aplauso. Parece pedir compreensão.
Sarah sentiu algo aquecer no peito.
— Foi escrito para isso.
Houve um silêncio confortável entre eles. Não vazio. Cheio de possibilidade.
Antes de se despedirem, Luca pegou um cartão simples do bolso.
— Se algum dia quiser conversar sem microfones, sem câmeras… — disse, oferecendo. — Eu gostaria.
Sarah aceitou.
Quando ele se afastou, ela ficou ali por alguns segundos, sentindo algo diferente das outras vezes.
Não era urgência.
Não era carência.
Era interesse calmo.
Sarah percebeu que estava pronta para gostar de alguém…
sem precisar se diminuir para isso.
Os dias passaram devagar demais para Noah.
Ele colocou o livro em uma gaveta alta do armário, atrás de caixas antigas e documentos que nunca mais abrira. Um lugar onde Fernanda não mexia, onde ninguém mexia. Ali, fora da vista, como se isso bastasse para tirá-lo da cabeça.
Não bastava.
Ele acordava cedo, ia para a academia, dava aulas, corrigia posturas, repetia as mesmas falas automáticas. Sorria no momento certo. Brincava quando esperavam que brincasse. Por fora, tudo igual.
Por dentro, o livro continuava aberto.
Noah evitava qualquer menção. Quando alguém comentava sobre Beijo com sabor de menta, ele mudava de assunto, ria sem graça, fingia desconhecimento.
— Ainda não li — dizia. — Não é muito meu tipo.
Mentia com facilidade… e com culpa nenhuma.
À noite, Fernanda falava de tudo, dos planos, de um jantar especial. Noah concordava com a cabeça, mas estava longe. Pensava na gaveta. Pensava nas palavras que não terminou de ler.
Às vezes, no silêncio do apartamento, ele abria o armário só para confirmar que o livro ainda estava lá. Não o pegava. Não abria. Apenas precisava saber que não tinha desaparecido.
Como se jogá-lo fora fosse definitivo demais.
Como se aquele livro fosse a última prova de que algo real tinha existido algo que ele não percebeu quando aconteceu.
Ele mastigava o chiclete de menta quase por reflexo, só se dando conta disso quando o sabor tomava a boca inteira e a memória vinha junto. O riso dela. O jeito como ela dizia seu nome. O cuidado absurdo com que ela o descreveu, anos depois.
Ninguém nunca tinha visto Noah daquele jeito.
E talvez isso fosse o que mais doía.
À noite, deitado ao lado de Fernanda, ele encarava o teto. Pensava em como nunca deu nome às coisas certas. Em como seguiu em frente sem olhar para trás até que o passado resolveu escrever um livro inteiro só para ser lido.
Ele fechava os olhos, respirava fundo e repetia para si mesmo:
“Já passou.”
Mas o livro continuava ali. Guardado. Intocado.
Esperando