Capítulo 13. Lembranças do passado

1055 Words
Sarah virou a página com mais cuidado do que antes, como se o papel pudesse se desfazer sob os dedos. A letra mudava ali. Ainda era arredondada, mas menos leve. Mais apertada. Como se a mão tivesse tremido um pouco ao escrever. Ela reconheceu antes mesmo de ler o título improvisado no topo da página: *Hoje aconteceu.* O coração deu um solavanco inesperado um reflexo antigo, quase ridículo. Sarah leu. *Eu não sei se isso foi um beijo ou se foi só o começo de uma coisa que eu vou pensar para sempre.* Ela fechou os olhos por um segundo, respirando fundo, depois continuou. O texto descrevia o fim de uma tarde comum. Um corredor quase vazio. Um trabalho em grupo que já tinha terminado. A conversa boba que foi ficando baixa demais. O jeito como Noah se aproximou como quem não planeja, mas sabe exatamente o que está fazendo. *Ele riu de alguma coisa que eu disse e ficou me olhando por tempo demais com aqueles olhos azuis brilhantes* Sarah adulta sentiu um arrepio breve não de nostalgia, mas de memória corporal. O corpo lembrava antes da razão. *Eu achei que ele ia dizer algo, mas não disse. Só chegou mais perto.* A escrita ficava mais rápida ali, menos organizada. *Foi rápido. Desajeitado. Eu bati o dente no dele e pedi desculpa. Ele riu de novo, acho que dá minha cara* Ela sorriu sem querer, uma curva mínima nos lábios. — Pelo menos isso não mudou… — murmurou. O beijo, descrito com uma mistura de encanto e incredulidade, não era cinematográfico. Era tímido, hesitante, cheio de pausas. Um beijo de quem não sabia exatamente o que fazer, mas queria fazer mesmo assim. *A boca dele tinha gosto de menta. Eu pensei nisso depois e fiquei com vergonha de ter pensado nisso.* Sarah engoliu em seco. *Quando acabou, ele encostou a testa na minha e disse “calma, enferrujada, suas sardas não me assustam como deveriam”.Rindo. Como se fosse brincadeira.* O sorriso dela desapareceu. Ali estava. A palavra. Ela sentiu o estômago revirar levemente não com dor aguda, mas com a estranheza de reler algo que um dia doeu mais do que deveria. *Eu ri também. Acho que ele não percebeu que eu fiquei triste. Talvez eu tenha entendido errado.* Sarah fechou o diário por um instante, pressionando os dedos contra a capa. Ela lembrava do beijo. Lembrava do gosto de menta. Lembrava da risada. Mas nunca tinha relido a forma como aquilo se alojou nela depois. Abriu de novo. *Eu fiquei repetindo o beijo na cabeça para não pensar na palavra. Talvez seja só o jeito dele. Talvez eu esteja exagerando.* O peito apertou não por Noah, mas pela menina que aprendeu ali, em silêncio, a justificar pequenas dores para preservar algo bonito. Sarah adulta passou a mão pelo rosto devagar. — Você não exagerou — disse baixinho, como se pudesse atravessar o tempo. O primeiro beijo não tinha sido um erro. Mas tinha sido o começo de uma lição que ela nunca quis transformar em história: a de que até os momentos mais doces podem carregar uma rachadura pequena, quase invisível capaz de mudar a forma como alguém ama para sempre. Ela virou a página seguinte sabendo, com uma clareza dolorosa, que dali em diante o diário deixaria de ser encantamento… E passaria a ser defesa. Sarah respirou fundo antes de continuar. As páginas seguintes pareciam mais densas, como se o papel tivesse absorvido o peso do que foi escrito ali. A caligrafia mudava de novo menos sonhadora, mais cuidadosa, quase defensiva. Ela leu devagar. *Na frente deles, ele finge que eu não existo.Ou pior: faz piada* Sarah adulta fechou os olhos por um instante, depois forçou-se a continuar. O diário não era confuso. Era lúcido demais para alguém tão nova. Havia relatos curtos, objetivos. O jeito como Noah a chamava de “nerd feinha” ou " Enferrujada " rindo alto no meio do grupo. Como empurrava o ombro dela de leve, como se fosse brincadeira. Como os outros riam e como ela ria junto, porque era isso ou parecer sensível demais. *Quando ele me vê sozinha no corredor ele é diferente.* Essa frase se repetia. Muitas vezes. *Ele segura minha mão no corredor vazio.* *Ele passa o nariz no meu e fica sério.* *Ele diz que eu sou bonita quando ninguém está ouvindo.* Sarah sentiu o estômago apertar. A menina que ela foi não descrevia isso como contradição descrevia como privilégio. *Talvez ele só tenha medo do que os outros vão dizer.* A racionalização vinha logo depois, sempre organizada, sempre pronta. As páginas avançavam, e os beijos mudavam. Não eram mais desajeitados. *Hoje ele me beijou sem rir.* *Me encostou na parede.* *Foi mais lento.* Sarah engoliu em seco, surpresa com a honestidade crua da escrita. *Eu esqueço tudo quando ele me beija assim.* Os relatos ficavam mais frequentes. Mais intensos. Mais corporais. Havia desejo ali, claro, mas também entrega. *Eu odeio quando ele me ignora na frente dos outros.* *Mas quando ele me beija, parece que vale a pena.* Sarah adulta sentiu um arrepio desconfortável. Ela reconhecia o padrão agora. Não com vergonha com clareza. *Ele disse que gosta de mim.* *Mas pediu para ninguém saber.* A frase seguinte estava sublinhada duas vezes. *Ele disse que é só por enquanto.* Sarah fechou o diário lentamente, apoiando-o no colo. O apartamento continuava bagunçado ao redor, mas aquilo já não importava. O caos estava ali, aberto, exposto em páginas antigas. Ela não sentiu raiva de Noah. Sentiu algo mais difícil de encarar: empatia pela própria ingenuidade e um respeito tardio pela garota que tentou amar sem perder a dignidade, mesmo aprendendo a escondê-la pouco a pouco. Sarah passou o polegar pela capa do diário, pensativa. Aquelas páginas não eram sobre um garoto confuso. Eram sobre uma garota inteligente aprendendo, cedo demais, a aceitar migalhas emocionais em troca de momentos de afeto intenso. E, pela primeira vez, ela percebeu algo que nunca tinha escrito nem em diários, nem em romances: Talvez o trauma não tenha sido o desprezo público. Talvez tenha sido o carinho privado que a ensinou a duvidar do próprio valor. O diário ainda tinha mais capítulos. E Sarah sabia que, se tivesse coragem de continuar lendo… teria coragem, finalmente, de escrever o livro que vinha evitando há anos
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