Capítulo 44. Grávida

886 Words
Noah estava largado no sofá, controle na mão, o som do videogame alto demais para o tamanho do apartamento. Era uma tentativa honesta e inútil de não pensar em nada. Fernanda chegou falando antes mesmo de largar a bolsa. — Amor, você não imagina o dia que eu tive! Ela se aproximou, sentou ao lado dele, beijou sua boca. Noah pausou o jogo, sorriu automático. — Imagino sim. Pelo tom, foi caótico. — Foi produtivo — corrigiu, animada. — E eu pensei em uma coisa o dia inteiro. Ele sentiu o estômago apertar antes mesmo de ela continuar. Fernanda virou o corpo para ele, os olhos brilhando daquele jeito que sempre antecedia decisões grandes. — A gente já tá junto há um tempo, Noah. Eu sinto que… tá na hora de dar o próximo passo. Ele respirou fundo, apoiou os cotovelos nos joelhos. — Que passo? — perguntou, mesmo sabendo a resposta. — Morar juntos — ela disse, direta. — Pensar em casamento. Em algo mais concreto. Sabe? Construir de verdade. Silêncio. Noah olhou para a televisão desligada, o reflexo dele devolvendo um rosto sério demais para alguém que sempre foi leve. Ele amava Fernanda disso não duvidava. Mas o amor deles era organizado, previsível, quase administrativo. E, ultimamente, ele vinha fugindo exatamente disso. — Você ficou estranho — Fernanda comentou. — Eu falei alguma coisa errada? — Não — ele respondeu rápido demais. — É só… muita coisa ao mesmo tempo. — Sempre tem muita coisa, Noah. Ela segurou a mão dele. — Eu não tô te pressionando. Só quero saber se você se vê comigo daqui a alguns anos. A pergunta ficou suspensa no ar, pesada. Noah fechou os olhos por um segundo. Viu flashes que não tinham nada a ver com Fernanda: uma mesa de sinuca, um vestido verde, sardas à mostra, um cheiro de menta misturado com silêncio. Culpa veio logo atrás. — Eu me vejo — ele disse, finalmente. Não era mentira. Só não era inteira. Fernanda sorriu, aliviada, e se aproximou para beijá-lo. — Então a gente pode começar a pensar, né? — Pode — ele respondeu, abraçando-a. Mas enquanto ela falava animada sobre apartamentos, datas possíveis, listas imaginárias, Noah sentiu algo estranho: não medo do compromisso… mas medo da ausência de vertigem. Ele percebeu, com uma clareza incômoda, que sempre confundiu intensidade com caos e agora não sabia distinguir o que realmente faltava. Quando Fernanda se levantou para tomar banho, Noah voltou a ligar o videogame. Jogou por mais dez minutos, sem prestar atenção em nada. Depois desligou. Ficou ali, em silêncio, encarando o teto. Talvez crescer fosse isso: escolher a calmaria mesmo quando uma parte de você ainda lembra do fogo. Ou talvez e essa ideia o assustou mais fosse admitir que algumas perguntas só aparecem quando a vida pede respostas definitivas. E Noah não tinha certeza se estava pronto para responder. Alguns dias depois, Sarah estava sentada no chão da sala, cercada por folhas rabiscadas, canecas de café frio e um laptop aberto em branco havia tempo demais. O cursor piscava, insistente, quase provocador. Ela encarava a tela como se fosse culpada por não sentir nada. O celular vibrou ao lado dela. Esther. Sarah atendeu sem pensar. — Oi Esther. Do outro lado, o silêncio durou um segundo a mais do que o normal. Quando Esther falou, a voz saiu trêmula e sorrindo ao mesmo tempo. — Sarah… você tá sentada? — Tô. — Ela franziu a testa. — O que foi? Você tá bem? — Tô. Muito. Eu só… — Esther respirou fundo. — Eu tô grávida. O mundo pareceu parar por um instante. — O quê?! — Sarah se levantou de um pulo. — Esther, isso é sério?! — É. Muito sério. — Um riso escapou, junto com um choro contido. — Eu fiz três testes. Três! José tá em choque até agora. Sarah levou a mão à boca, os olhos marejados sem aviso. — Meu Deus… Esther… — A voz saiu embargada. — Isso é… isso é lindo. — Eu fiquei com medo de contar — Esther confessou. — Medo de tudo, na verdade. Mas quando eu ouvi o coraçãozinho… eu soube. Sarah se encostou na parede, sentindo algo quente se espalhar no peito. Alegria pura, genuína. Uma vida começando. — Eu tô tão feliz por você — disse, sincera. — Tão, tão feliz. — Eu precisava te contar primeiro. Você sempre soube das coisas antes de todo mundo. Houve uma pausa confortável entre elas. — E você? — Esther perguntou, mais suave. — Como você tá, de verdade? Sarah fechou os olhos por um instante. — Eu tô… confusa. Criativamente falando. — Forçou um riso. — A vida tá boa, mas minha cabeça não acompanha. — Às vezes a vida pede pra gente sentir antes de escrever — Esther disse, com aquela calma que vinha amadurecendo nela. — Não pra inventar. A frase ficou ecoando. Depois que desligaram, Sarah permaneceu ali, imóvel. Pensou em começos. Em corpos que carregam outros corpos. Em amores que criam raízes, que se transformam em futuro. Ela tocou o próprio peito, tentando localizar o que faltava. Não era amor. Era combustão. E pela primeira vez, Sarah se perguntou se era possível escrever sobre um fogo que já tinha passado… ou se certas histórias só existem enquanto ainda queimam
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