Capítulo 17. Sardas

1105 Words
Sarah ficou sentada por um tempo longo demais, o notebook aberto, o arquivo ainda sem título piscando na tela como um desafio. O elogio do agente ainda ecoava, mas não trazia conforto. Trazia responsabilidade. — Então é isso… — murmurou. — Você quer verdade? Vai ter. Ela se levantou, pegou o diário de novo e desta vez não abriu ao acaso. Sentou-se à mesa como quem se prepara para uma cirurgia sem anestesia. Do começo. Até o fim. As primeiras páginas ela leu com uma nostalgia distante, quase indulgente. A menina encantada, observadora, sensível. Doía pouco ali. Mas conforme avançava, a dor ganhava forma. Cada vez que o apelido aparecia, o corpo reagia. Enferrujadinha. Estava em quase todas as páginas depois de certo ponto. Às vezes entre aspas, às vezes jogado no meio do texto como se fosse pequeno demais para merecer destaque. *Ele falou de novo hoje, umas três vezes.Todo mundo riu.Eu também.* Sarah fechou os olhos, sentindo um aperto antigo se reativar no peito. Ela lembrava da sensação exata: o sorriso automático, o riso curto, o esforço para parecer forte enquanto algo encolhia por dentro. Virou mais uma página. *Ele disse que é brincadeira.* *Que eu sei que ele gosta de mim.* A garganta dela fechou. Virou outra. *Quando ele me chama assim quando estamos sozinhos, não dói tanto.* Ali, Sarah precisou parar. A mão tremia levemente ao segurar o diário. Não era raiva de Noah era a constatação c***l de como ela tinha aprendido a relativizar o próprio desconforto para manter um afeto. — Você merecia mais… — sussurrou para a garota do passado. Ela respirou fundo e continuou. Leu o dia em que decidiu não responder mais. Leu o dia em que ele tentou puxar assunto e ela fingiu não ouvir. Leu o último registro, curto, seco, quase adulto demais: *Hoje eu percebi que gostar de alguém não pode me fazer menor* Sarah fechou o diário com força e ficou olhando para a parede, os olhos ardendo, mas sem chorar. O choro ficaria para depois. Agora havia algo mais urgente. Ela abriu o notebook. Voltou para o arquivo. Procurou o trecho onde Ben zombava de Aruna pela primeira vez. O texto estava contido demais. Seguro demais. Sarah respirou fundo e digitou. Sem suavizar. Sem trocar a palavra. Sem proteger o leitor. *Enferrujadinha* Escreveu uma vez. Depois outra. Depois mais uma. Cada repetição doía mas também limpava. Ela não colocou o apelido como detalhe. Colocou como marca. Como ferida recorrente. Como algo pequeno demais para ser escândalo, grande demais para ser esquecido. Quando terminou o capítulo, Sarah encostou as costas na cadeira, sentindo o corpo cansado e estranhamente mais leve. O diário estava fechado ao lado do computador. Não como inimigo. Como fonte. Ela entendeu ali, com uma clareza amarga e libertadora, que escrever aquilo não era vingança. Nem exposição. Era resgate. Resgate da menina que aprendeu cedo demais a rir para não chorar. Resgate da mulher que finalmente parava de suavizar a própria história para ser digerível. Sarah salvou o arquivo. E, pela primeira vez, não teve medo de que Noah ou qualquer outro se reconhecesse ali. Porque aquela história, antes de ser sobre ele… era, finalmente, sobre ela. Sarah voltou a escrever sabendo que aquela página ia doer antes mesmo da primeira linha. O cursor piscava, paciente. Ela respirou fundo… e deixou ir. No livro, Aruna já estava acostumada ao apelido. Enferrujadinha vinha como ruído de fundo incômodo, mas normalizado. Ben dizia rindo, dizia baixo quando estavam sozinhos, dizia alto quando queria plateia. E Aruna aprendia a rir junto. Aprendia a não reagir. Aprendia a achar que aquilo não definia nada. Até a festa. Sarah descreveu a cena devagar, quase com cuidado excessivo. A quadra decorada com luzes improvisadas. Música alta demais. Gente demais. Aruna usando um vestido verde escuro, não chamativo, mas diferente do que costumava usar. O tipo de roupa que não pedia permissão. Aruna estava no canto, segurando um copo plástico, observando tudo como sempre fazia. E então um menino se aproximava. No livro, ele não era especial. Não era bonito demais. Não era carismático demais. Era apenas gentil. Fazia uma pergunta simples. Sorria sem ironia. Sarah sentiu os dedos tremerem ao escrever essa parte. Ben via de longe. Ela escreveu o ciúme dele não como sentimento nobre, mas como impulso feio, m*l administrado. O riso que sai rápido demais. A necessidade de retomar controle. E então a frase. Alta. Clara. Para todos ouvirem. “Cuidado, hein? Vai que essas sardas horrorosas aí são contagiosas.” Sarah parou de digitar. O ar pareceu faltar por um segundo. No livro, o silêncio vinha antes da risada geral. A pausa curta. O segundo em que Aruna entendia que aquilo não era brincadeira privada era exposição. Sarah voltou a escrever com os olhos já marejados. Descreveu o rosto de Aruna queimando. O copo tremendo na mão. O sorriso automático aparecendo antes que o corpo pudesse impedir. Escreveu o menino se afastando, sem saber o que fazer. Escreveu Ben rindo alto demais, satisfeito demais. Escreveu a palavra sardas ecoando como algo que Aruna nunca tinha ouvido como defeito… até aquele dia. Foi ali que Sarah parou de novo. As lágrimas caíram silenciosas sobre o teclado. Ela levou a mão à boca, o choro vindo sem aviso não explosivo, mas profundo, pesado, antigo. O tipo de choro que vem quando a memória não é mais só lembrança, mas sensação. — Eu lembro… — sussurrou, com a voz quebrada. — Eu lembro de tudo. As mãos tremiam enquanto ela limpava o rosto às pressas, irritada consigo mesma por ainda doer daquele jeito. Mas não parou. Escreveu Aruna indo ao banheiro. Escreveu a porta fechando. Escreveu o espelho devolvendo um rosto que ela não reconhecia sardas, olhos marejados, vergonha que não era dela. E escreveu a frase que nunca disse em voz alta naquela noite, mas que Sarah adulta agora colocava no papel, firme, definitiva: Ela percebeu ali que não doía o apelido. Doía quem dizia. Quando terminou a página, Sarah encostou a testa no notebook fechado, chorando de verdade agora. Não por Ben. Não pela festa. Mas pela menina que achou que precisava aguentar aquilo para ser escolhida. O choro veio como limpeza. Como luto tardio. Minutos depois, respirando mais calma, Sarah abriu o arquivo de novo e releu a página. Doía. Mas estava certa. Ela não estava se expondo demais. Não estava exagerando. Não estava sendo injusta. Estava contando a história do momento exato em que o amor deixou de ser confuso… e passou a ser ferida. E, mesmo chorando, Sarah soube: aquela era a página mais importante que já tinha escrito
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