Capítulo 7. Brinde

870 Words
O dia do casamento amanheceu claro, quase solene demais para a quantidade de sentimentos m*l resolvidos circulando naquela chácara. Sarah passou a manhã em silêncio concentrado. Banho demorado, maquiagem discreta, cabelo preso de um jeito que parecia casual mas não era. Quando vestiu o vestido de madrinha, parou por um instante diante do espelho. Lavanda. O tecido caía com elegância, marcando a cintura, fluindo até abaixo dos joelhos. Era suave na cor, mas firme na presença. O tipo de vestido que não pedia atenção recebia. A pele clara lotada de sardas combinava com o tom delicado do vestido, e o cabelo ruivo escuro, preso de lado, tornava impossível confundi-la com qualquer outra pessoa naquele lugar. Sarah se observou com um olhar crítico, profissional, quase distante. A menina do colégio não teria coragem de usar aquilo. A mulher que ela se tornara não precisava de coragem só de escolha. Do outro lado do jardim, Noah a viu antes mesmo de entender o que estava acontecendo consigo. O riso morreu pela metade. O comentário pronto não veio. Ela caminhava em direção ao altar improvisado com passos seguros, postura ereta, olhar focado. Não havia nervosismo aparente. Só presença. — Caramba… — ele murmurou, sem humor. Ela não era só bonita. Era inalcançável de um jeito novo. Durante a cerimônia, Noah m*l ouviu metade das palavras. Cada vez que o olhar dele escapava, encontrava Sarah, mãos entrelaçadas à frente do corpo, expressão serena, os olhos atentos à irmã. Quando Esther disse “sim”, Sarah sorriu. Um sorriso verdadeiro, cheio de emoção contida. Noah sentiu um aperto estranho no peito ao perceber que aquele sorriso não tinha nada a ver com ele. Depois vieram os aplausos, os abraços, a movimentação até o salão da recepção. Pouco antes do momento dos discursos, Sarah se aproximou dele com um envelope discreto na mão. — Sua parte — disse, estendendo-o. Noah pegou, franzindo a testa. — Você escreveu tudo? — Estruturei — corrigiu. — Cada um fala com a própria voz. — Generosidade da sua parte. — Prática — respondeu, sem sorrir. Ele abriu o papel, leu rapidamente. Engoliu em seco. — Isso tá… bom, de verdade. — Eu sei. Sou escritora, Noah. Ela virou-se para seguir até o palco improvisado, mas ele a chamou: — Sarah. Ela parou, olhando para ele de lado. — Vê se não improvisa. — Não pretendo — disse ela. — Só cumpre sua parte. E subiu primeiro. O burburinho cessou quando ela pegou o microfone. Sarah respirou fundo, olhando para Esther e José sentados à frente, de mãos dadas. — Boa noite — começou, com a voz firme. — Para quem não me conhece, eu sou a Sarah, irmã da noiva… e alguém que acredita muito em escolhas conscientes. Algumas risadas suaves surgiram. — Esther sempre foi alguém que escolheu com o coração, mas nunca sem a cabeça. E José… — ela olhou para ele — você foi inteligente o bastante para entender isso desde o início. A voz dela não tremia. Cada palavra parecia pensada, mas não fria. — O amor deles não é feito de promessas grandiosas, mas de constância. De presença. De respeito. E isso, no fim das contas, é o que sustenta qualquer relação que queira durar. Ela fez uma pausa breve, controlada. — Que vocês escolham um ao outro todos os dias. Mesmo quando for difícil. Especialmente quando for fácil desistir. Ela então virou-se, estendendo o microfone para Noah. — Sua vez. Ele pigarreou, arrancando alguns risos antes mesmo de começar. — Bom… depois disso fica difícil não parecer superficial — disse, arrancando gargalhadas. — Eu sou o Noah, primo do noivo e alguém que definitivamente não tem o talento da Sarah com palavras. Ela manteve o olhar neutro, mas atenta. — Mas eu aprendi observando esses dois que amor não é sobre perfeição. É sobre aparecer. Mesmo nos dias em que você não é a melhor versão de si mesmo. O olhar dele passou rápido por Sarah. Ela não reagiu. — José apareceu. Esther apareceu. E eles continuam aparecendo um para o outro. Isso é raro. E é bonito pra caramba. Ele respirou fundo, mais sério agora. — Que vocês construam uma vida em que ninguém precise diminuir quem é para caber no outro. Sarah sentiu o impacto da frase. Não olhou para ele. Mas ouviu. Noah estendeu o microfone de volta. Os dedos deles se tocaram por um segundo rápido, inevitável. — Juntos — ela disse, retomando a palavra. — Juntos — ele repetiu. — Desejamos que o amor de vocês nunca seja posse — continuou Sarah. — Nem espetáculo — completou Noah. — Mas escolha — ela finalizou. — Diária — ele acrescentou. Eles ergueram os copos. — Ao amor que fica — disse Sarah. — E ao que sabe a hora certa de chegar — Noah completou. Aplausos encheram o salão. Quando se afastaram do palco, lado a lado, Sarah manteve a postura intacta. Noah, em silêncio. Ele finalmente entendeu, ali, com clareza desconfortável: Ela não escreveu aquele discurso só para Esther e José. Ela escreveu para não ser, nunca mais, o amor que não não foi escolhido. E Noah suspeitou que talvez… o arrependimento tivesse chegado exatamente no horário errado
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