Capítulo 26. De volta a Los Angeles

793 Words
O celular de Sarah tocou no início da noite, quando ela finalmente tinha conseguido sentar e respirar um pouco. O nome do agente piscava na tela. Ela atendeu já com um pressentimento estranho no peito. — Alô? — Você está sentada? — ele perguntou, direto. — Estou… agora estou preocupada. Ele riu, mas havia tensão na risada. — O sucesso passou de “ótimo” para “fora da curva”. Sarah fechou os olhos. — Quanto é “fora da curva”? — Sessões esgotadas em horas. — Pausa. — E a editora quer uma sessão de autógrafos. Ela abriu os olhos de repente. — O quê? — Sessão de autógrafos. Presencial. Público. Leitores. Fila. Fotos. Tudo. Sarah se levantou e começou a andar pela sala. — Eu nunca fiz isso. — Eu sei — ele respondeu. — Você sempre evitou. Mas esse livro… — ele suspirou. — Esse livro pede encontro. Ela parou em frente à janela. — Eu escrevi algo muito íntimo. Não é como os outros. — Justamente por isso as pessoas querem te ver — ele disse, sério. — Não como celebridade. Como alguém que falou o que elas nunca conseguiram dizer. Sarah sentiu o estômago revirar. — E se eu travar? E se eu chorar? E se alguém me perguntar coisas que eu não quero responder? — A gente define limites — ele respondeu, calmo. — Você não deve nada além do livro. Autógrafo não é confissão pública. Ela respirou fundo. — Onde? — Primeira sessão em duas semanas. — Pausa curta. — Na sua cidade natal. O coração dela deu um salto inesperado. — Lá? — a voz saiu mais baixa do que pretendia. — Sim. Foi onde o livro mais vendeu proporcionalmente. — Ele hesitou. — E… onde a história começou. Sarah fechou os olhos. A cidade. A escola. As memórias. E Noah. Ela passou a mão pelos cabelos, sentindo o peso da decisão. — Eu preciso pensar. — Claro — ele respondeu. — Mas pensa rápido. As pessoas já estão perguntando quando vão poder te encontrar. A ligação terminou. Sarah ficou parada no meio da sala, o silêncio se espalhando de novo. Sessão de autógrafos. Ela, sentada diante de leitores que talvez vissem nela suas próprias cicatrizes. Era assustador. Mas, em algum lugar profundo, uma parte dela sabia: Talvez fosse hora de encarar o passado de frente. E, gostasse ou não, o livro tinha aberto essa porta. Sarah decidiu naquela mesma noite. Não foi uma decisão heroica, nem cheia de certeza. Foi silenciosa, quase resignada como quem entende que algumas coisas não podem mais ser adiadas. Ela mandou uma mensagem curta ao agente: Eu vou. A resposta veio quase imediata: Eu sabia. Dois dias depois, ela estava fazendo a mala. O voo foi tranquilo, mas o aperto no peito a acompanhou do início ao fim. Quando o avião pousou, a sensação era estranha: familiar e distante ao mesmo tempo, como revisitar um lugar que existe mais na memória do que no presente. A família a esperava no portão de desembarque. A mãe foi a primeira a abraçá-la, apertado, orgulhoso demais para ser contido. — Eu não acredito — disse, segurando o rosto de Sarah entre as mãos. — Minha filha… todo mundo está falando desse livro. O pai sorriu daquele jeito discreto, mas os olhos brilhavam. — Acabou em duas livrarias ontem — comentou, como se estivesse falando do tempo, mas a voz denunciava emoção. A irmã, Esther, apareceu logo atrás, rindo. — Você não tem noção do que virou aqui — disse. — Tem gente perguntando se a história é real. Gente chorando. Gente brigando por exemplar. Sarah riu, nervosa. — Ótimo… exatamente o que eu queria — brincou, mas o coração batia rápido. Na casa da família, tudo parecia menor do que ela lembrava. O sofá, a cozinha, o corredor. Ainda assim, o cheiro era o mesmo. O som também. Havia conforto ali. Sentaram-se à mesa para jantar, e o assunto não era outro. — Você sempre escreveu bem — disse a mãe, servindo a comida. — Mas esse livro… é diferente. — É — Sarah concordou, mexendo no prato. — É o mais difícil que eu já escrevi. — Dá pra sentir — Esther disse, com cuidado. — Não é só uma história. Parece… um pedaço seu. Sarah assentiu, em silêncio. Ela subiu para o antigo quarto mais tarde, fechando a porta devagar. Tudo estava quase igual: a estante, a escrivaninha, a janela de onde dava para ver a rua. Sentou-se na cama e respirou fundo. Ela tinha voltado. Não só para uma sessão de autógrafos. Mas para o lugar onde tudo começou. E, mesmo cercada de amor e orgulho, Sarah sabia: Algumas memórias ainda a esperavam ali fora.
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