Capítulo 5. Almoço antes do grande dia

818 Words
O dia amanheceu movimentado demais para qualquer reflexão profunda. Um dia antes do casamento, a chácara parecia um organismo vivo: vozes se cruzando, malas sendo arrastadas, risadas altas demais para aquela hora da manhã. Sarah ajudou Esther desde cedo, circulando entre parentes, resolvendo pequenos caos com a mesma eficiência metódica de sempre. Quando o almoço finalmente foi servido, ela já estava mentalmente cansada, desejando apenas uma cadeira e alguns minutos de silêncio. A mesa grande foi sendo ocupada aos poucos. Conversas paralelas, pratos passando de mão em mão, talheres tilintando. Sarah sentou-se na primeira cadeira vazia que encontrou, ajeitando o guardanapo no colo. Só então percebeu. Noah estava à sua direita. O corpo dela enrijeceu por um segundo imperceptível para qualquer um que não a conhecesse por dentro. Ele levantou os olhos ao mesmo tempo, surpreso, e abriu um sorriso lento. — Olha só — murmurou. — O destino tem senso de humor. — É só logística — ela respondeu, seca. — Cadeiras não escolhem lados. — Que pena ruiva. Ela ignorou. A conversa na mesa era alta, caótica. Primos, tios, histórias repetidas. Sarah se manteve discreta, respondendo quando era chamada, focando na comida. Até que uma voz feminina, firme e curiosa, atravessou o barulho. — Espera… você é a Sarah Duncling Sarah levantou o olhar. A mulher sentada do outro lado da mesa tinha traços gentis e um sorriso atento. Cabelo castanho preso com cuidado, postura elegante. Noah endireitou-se na cadeira. — Mãe. — Sou eu mesma — Sarah respondeu, educada. — Meu Deus — a mãe de Noah levou a mão ao peito, sorrindo ainda mais. — Claro que é você. A menina das redações. Sarah piscou, surpresa. — A senhora lembra de mim ? — Lembro sim — disse ela. — O Noah chegava em casa reclamando que tinha que “copiar a resposta da Sarah porque ela sempre sabia tudo”. — Mãe — Noah protestou. — Exposição desnecessária. Algumas risadas surgiram à mesa. Sarah sorriu de leve, um sorriso educado, controlado. — Ele era exagerado — disse. — Eu só estudava. — Estudava muito bem — a mulher insistiu. — E agora? Esther comentou que você virou escritora. Sarah assentiu. — Sim. Amo todos os tipos de histórias, mas sou adepta do romance. — Publicados? — a curiosidade foi imediata. — Três até agora. Um quarto em andamento. — Que coisa linda! — a mãe de Noah se virou para os outros. — Sabiam disso? Uma escritora na família! — Não exatamente na família — Sarah corrigiu, com suavidade. Noah ficou em silêncio, observando. Ela falava com calma, sem pressa, escolhendo as palavras com a mesma precisão com que organizava tudo à sua volta. Não havia mais traço da garota que baixava os olhos quando era elogiada. A postura era segura. O tom, firme. — E como é essa vida? — a mãe dele perguntou. — Sempre imagino escritores como pessoas meio… atormentadas. Sarah riu baixo. — Às vezes — admitiu. — Mas, no geral, é um trabalho solitário. Exige disciplina. Planejamento. Não dá pra depender de inspiração. Noah inclinou-se um pouco para trás, cruzando os braços, estudando-a. Disciplina. Planejamento. Ela sempre teve isso. Mas agora havia algo a mais. Uma espécie de armadura invisível. — E sobre o que você escreve? — alguém perguntou do outro lado da mesa. — Sobre relações humanas — Sarah respondeu. — Escolhas. Consequências. Crescimento. Noah arqueou levemente a sobrancelha. Crescimento. Ela tinha crescido mesmo. A menina tímida da sala, sempre com um livro no colo e respostas prontas, jamais teria sustentado tantos olhares ao mesmo tempo sem se encolher. Aquela Sarah não se escondia. Não se explicava demais. Não pedia validação. Ela simplesmente era. — Deve ser difícil escrever sobre amor — comentou a mãe de Noah. — Não é fácil, hoje em dia. Sarah hesitou por um segundo. Só um. — Eu escrevo sobre amor com responsabilidade — disse, por fim. — Sem romantizar o que machuca. Noah sentiu algo apertar no peito. Ele se lembrou da garota que analisava mensagens dele como se fossem códigos secretos. Que esperava mais do que ele estava disposto a oferecer. Que acreditou quando ele não pediu que acreditasse. A mulher sentada ao lado dele agora não parecia alguém que se permitiria isso outra vez. — Interessante — ele comentou, quebrando o silêncio. — Então você não escreve sobre amores idiotas? Sarah virou o rosto lentamente para encará-lo. — Não — respondeu, tranquila demais. — Eu deixo esse tipo de história para as memórias. A mesa riu, achando que era brincadeira. Noah engoliu em seco, mas sorriu, fingindo não sentir o golpe. Enquanto o almoço continuava, ele percebeu uma verdade incômoda se formando, clara demais para ignorar: Ele não estava reencontrando a garota que deixou para trás. Estava conhecendo a mulher que ela se tornou apesar dele. E, pela primeira vez, isso não o divertiu nem um pouco
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