Capítulo 37. Luca

1131 Words
Sarah ajustou o casaco enquanto caminhava ao lado de Luca pela rua iluminada. Era uma noite fria, dessas que pedem vinho tinto e conversas longas. Ele tinha escolhido um bistrô pequeno, charmoso, longe do barulho um lugar que combinava com o momento dela. Luca era atento de um jeito diferente. Não invasivo. Não performático. Ele a ouvia como quem realmente queria entender, não como quem esperava a própria vez de falar. Tinha mãos grandes, voz calma, um sorriso fácil que não pedia nada em troca. — Você fica diferente quando fala dos seus livros — ele comentou, enquanto o garçom servia o vinho. — Parece que entra em outro lugar. Sarah sorriu de canto. — É o único lugar onde sempre sou totalmente honesta — respondeu, sem pensar muito. E percebeu a verdade daquilo assim que as palavras saíram. Conversaram sobre viagens, sobre a Itália que ela chamava de casa agora, sobre cinema antigo. Lucas contou com o que trabalhava , que lia muito por vício, não por obrigação. Quando mencionou Beijo com sabor de menta, foi cuidadoso. — Li — disse, simples. — É… intenso. Mas bonito. Cru. Dá vontade de proteger a autora. Sarah sentiu um aperto estranho no peito, mas não de dor. De reconhecimento. — Não precisa me proteger — respondeu, com suavidade. — Eu escrevi para não precisar mais disso. Luca assentiu, respeitando o limite invisível. Depois do jantar, caminharam mais um pouco. Ele não tentou beijá-la de imediato. Não a puxou. Não a surpreendeu. Quando pararam em frente ao prédio dela, houve um silêncio confortável. — Posso te ver de novo? — ele perguntou. Sarah pensou por um segundo. Não em Noah. Não no passado. Pensou nela mesma, ali, de vestido simples, sardas à mostra, segura o bastante para escolher. — Pode — respondeu. Luca sorriu, se aproximou apenas o suficiente para beijar sua bochecha. Um gesto contido, quase antigo. Cheirava a madeira e algo cítrico leve , não menta. Quando ele se afastou e caminhou pela calçada, Sarah subiu para o apartamento com o coração tranquilo, não acelerado. Acendeu a luz, deixou a bolsa sobre a mesa e foi até a janela. Lá embaixo, Luca ainda olhou para cima antes de ir embora. Ela sorriu. E só então percebeu: pela primeira vez em muito tempo, aquele sorriso não doía. O passado ainda existia. Mas não comandava mais a história. O segundo encontro não teve cerimônia. Não teve vestido escolhido com cuidado demais, nem roteiro mental. Sarah chegou ao café alguns minutos atrasada, o cabelo solto, sardas livres, o rosto cansado de quem passou a madrugada revisando entrevistas. Luca já a esperava, mexendo no celular, e sorriu como se o atraso fizesse parte do combinado. — Pensei que você não viria — brincou. — Pensei em não vir — ela respondeu, sentando-se. — Mas vim mesmo assim. Riram. Conversaram menos daquela vez. Não porque faltasse assunto, mas porque havia algo suspenso no ar, uma curiosidade mútua que dispensava palavras longas. Luca falava com o olhar, com pequenos gestos. Sarah percebia e não fugia. Quando saíram, a noite estava morna. Caminharam sem destino até um pequeno jardim quase vazio. As luzes eram baixas, a cidade distante. Pararam sem combinar. Luca a olhou por um instante a mais do que o necessário. — Posso? — perguntou, baixo, sem tocar nela. Sarah assentiu. O beijo veio devagar, respeitoso, como se estivesse sendo construído e não tomado. Nada de urgência. Nada de domínio. Apenas bocas se encontrando com curiosidade e cuidado. Ela sentiu o gosto do vinho, um leve cítrico, nada que puxasse memórias antigas. Ainda assim, algo dentro dela se contraiu não de dor, mas de comparação. E, pela primeira vez, ela percebeu a diferença. O beijo de Luca não fazia promessas silenciosas. Não vinha carregado de insegurança, nem da necessidade de ser escolhida. Era simples. Presente. Real. Quando se afastaram, Sarah sorriu, respirando fundo. — Você pensa demais — ele disse, tocando de leve a lateral do rosto dela. — Eu escrevo demais — corrigiu. — Então escreve isso como quiser. Ela riu, encostando a testa na dele por um segundo. Naquela noite, ao se despedirem, Sarah não voltou para casa com o coração apertado. Voltou com uma sensação estranha e boa: a de estar começando algo sem precisar se diminuir para caber. E, em algum lugar distante, sem que ela soubesse, alguém ainda mastigava menta tentando engolir o passado. Os encontros com Lucas passaram a acontecer com naturalidade, como se tivessem encontrado um ritmo que não precisava ser negociado. Às vezes era um jantar simples no apartamento dele, música baixa, livros espalhados pela mesa, os dois cozinhando juntos e errando a receita sem drama. Outras vezes era Sarah chegando cansada de um evento, largando os sapatos na porta e sendo recebida com um abraço silencioso daqueles que não perguntam nada, só acolhem. Eles foram ficando. Sem rótulos apressados. Sem promessas grandes demais. Luca aparecia nos dias importantes e também nos comuns. Levava café quando ela esquecia de comer, lia trechos do que ela escrevia quando ela pedia, respeitava quando ela dizia “não hoje”. Ele não tentava decifrá-la como um mistério a ser vencido aceitava Sarah como alguém em constante construção. E isso fazia toda a diferença. Em um sábado qualquer, caminharam por uma feira de rua. Luca parou para observar Sarah conversando com uma leitora que a reconheceu, tímida. Ele ficou um passo atrás, orgulhoso sem precisar ser visto. Quando a garota foi embora, ele segurou a mão de Sarah com naturalidade, como se aquele gesto sempre tivesse existido. Ela percebeu. Não comparou. Não lembrou. O passado não se intrometeu. À noite, deitados no sofá, Sarah com a cabeça no peito dele, ouviu Luca comentar algo sobre um livro que estava lendo. Ela fechou os olhos, distraída, sentindo apenas o presente. Nenhum gosto de menta apareceu na memória. Nenhum nome antigo tentou atravessar. Era um alívio novo. Em outro dia, Luca a acompanhou a uma sessão menor de autógrafos, longe das grandes filas. Observou como ela tratava cada pessoa com cuidado, como se cada história importasse. Depois, no carro, disse apenas: — Você é maior do que imagina. Sarah não se encolheu ao ouvir aquilo. Não duvidou. Apenas acreditou. Com o tempo, as noites passaram a terminar no mesmo lugar. As roupas se misturaram no armário. As escovas de dente dividiram espaço. Os silêncios ficaram confortáveis, cheios de entendimento. Sarah escrevia de novo não sobre dor, nem sobre lembrança. Escrevia sobre escolhas. Sobre mulheres que não precisavam sofrer para amar. Sobre histórias que não implodiam para serem intensas. E, sem perceber quando aconteceu, Noah deixou de ser um nome. Virou apenas um capítulo fechado, bem escrito, publicado e arquivado. Sarah estava viva no agora. E, dessa vez, não precisava se provar para ninguém
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