Na manhã seguinte, Sarah não dormiu até tarde.
Acordou antes do alarme, o corpo ainda cansado, mas a mente alerta demais para voltar a descansar. Pegou o celular quase por reflexo. Nenhuma mensagem nova. Ainda assim, o silêncio parecia carregado.
O agente ligou às dez em ponto.
— Já tomou café? — foi a primeira coisa que ele perguntou.
— Ainda não — Sarah respondeu, sentando na cama. — Isso é bom ou r**m?
— Depende do que você considera bom — ele disse, com um leve sorriso na voz. — Eu mostrei o livro.
Ela ficou imóvel.
— Mostrou… pra quem?
— Para todos que importam.
O coração de Sarah acelerou.
— E…?
— E todos amaram. — Ele fez uma pausa calculada. — Todos, Sarah. Sem exceção.
Ela fechou os olhos.
— Amaram de verdade… ou aquele “amor” educado de mercado?
— Não. — Ele foi firme. — Amor do tipo “isso vai dar o que falar”. Amor do tipo “onde ela esteve escondendo esse livro?”. Amor do tipo “quando a gente posta?”.
Sarah apoiou a testa na palma da mão, sentindo um misto de alívio e vertigem.
— Então… eles querem publicar.
— Querem postar. — Ele corrigiu. — Rápido. Do jeito que está. Esse livro precisa chegar cru ao leitor. Se a gente tentar domar demais, ele perde força.
Ela respirou fundo.
— Eu confesso que tenho medo.
— Óbvio que tem — ele respondeu. — Se não tivesse, eu me preocuparia. Mas escuta: esse não é um livro para agradar. É um livro para reconhecer.
Houve um breve silêncio.
— E o título? Confirma esse ?— ele perguntou.
— Beijo com sabor de menta — Sarah respondeu, sem hesitar.
Ele riu, satisfeito.
— Eles adoraram o título. Disseram que é simples, íntimo e perturbador. Igual ao livro.
Sarah sentiu um arrepio percorrer a espinha.
— Então… a gente faz isso?
— A gente faz juntos — ele disse. — Estratégia clara, posicionamento honesto. Nada de esconder que é emocional. Nada de fingir que é só romance leve.
Ela pensou por um segundo.
Na menina que foi.
Na mulher que se tornou.
Na história que agora não era mais só dela.
— Tá — disse, enfim. — Vamos postar.
Do outro lado da linha, ele sorriu.
— Bem-vinda à fase mais arriscada e mais verdadeira da sua carreira, Sarah.
Quando a ligação terminou, ela ficou sentada por alguns segundos, olhando o vazio.
O medo ainda estava ali.
Mas, pela primeira vez, vinha acompanhado de algo novo.
Expectativa.
Ela se levantou, fez café e abriu o notebook.
O livro estava pronto para o mundo.
E, gostasse ele ou não,
o mundo estava prestes a conhecer a história que Sarah demorou anos para ter coragem de contar.
Sarah passou a tarde inteira reunindo referências.
Abriu pastas, salvou imagens, rabiscou ideias no papel. Capas minimalistas, capas simbólicas, bocas se beijando com folhas de hortelã, ilustrações delicadas, tipografias elegantes demais.
Mandou tudo para o agente.
Uma por uma.
A resposta veio em ondas.
— Bonita, mas genérica.
— Funciona para romance comum.
— Falta profundidade.
— Não conversa com a dor do livro.
Sarah sentiu a frustração crescer.
— Eu não sei mais o que eles querem — ela disse ao telefone, já no fim do dia. — Não é um livro “bonito”.
— Exatamente — o agente respondeu. — E é aí que está o problema.
Do outro lado da chamada, ele ficou em silêncio por alguns segundos. Sarah ouviu o som distante de vozes, como se ele estivesse numa sala com mais gente.
Então ele voltou.
— Surgiu uma ideia.
O tom dele estava diferente. Mais cauteloso.
— Que tipo de ideia? — Sarah perguntou, desconfiada.
— A protagonista é ruiva...tem sardas — Ele fez uma pausa. — Assim como você.
O estômago dela revirou.
— Não.
— Escuta antes de negar.
— Não — ela repetiu, mais firme. — Eu sou escritora, não ilustradora de capa autobiográfica.
Ele soltou um leve riso.
— Justamente por isso funciona. Eles não querem perfeição técnica. Querem identidade.
Sarah se levantou e começou a andar pelo apartamento.
— Isso fica pessoal demais. Já é pessoal demais.
— Sarah… — ele disse, sério agora. — O livro é pessoal. A capa fingir o contrário é que seria desonesto.
Ela parou em frente ao espelho da sala. Observou o próprio reflexo: o cabelo ruivo, as sardas por todo o rosto, os olhos verdes escuros, os traços firmes, o olhar cansado, mas decidido.
— E o que exatamente eles querem? — perguntou, mais baixa.
— Que você ilustre a protagonista. Do seu jeito. Não como você é hoje, mas como a Aruna foi. Vulnerável. Silenciosa. Sem glamour.
O coração dela bateu mais rápido.
— Eu nunca pensei em fazer isso..é sério Carlos.
— Você sempre foi forte para si mesma vida inteira — ele respondeu. — Agora é só não esconder.
Sarah fechou os olhos.
O medo era claro: se expor de novo. Não só em palavras, mas em imagem.
— E se ficar r**m? — ela perguntou.
— Então fica real — ele respondeu. — E real é a palavra-chave desse projeto.
Houve um longo silêncio.
Por fim, Sarah respirou fundo.
— Eu tento — disse, quase em sussurro. — Mas se eu travar…
— Eu estou aqui — ele respondeu. — E dessa vez, você não está sozinha.
Quando desligou, Sarah ficou parada por alguns segundos.
Sarah sabia que aquela capa não seria apenas sobre vender um livro.
Seria sobre se enxergar e permitir que o mundo enxergasse também.