Capítulo 28. Sucesso

923 Words
Sarah foi embora no dia seguinte, antes mesmo do sol nascer. A mala fechada às pressas, o apartamento silencioso demais para alguém que tinha acabado de falar com cento e cinquenta pessoas em uma única tarde. No carro, caminho para o aeroporto, ela abriu o celular e viu a agenda enviada pelo agente: outras cidades, outras livrarias, outros rostos que ainda não tinham nome, mas já tinham histórias. O mundo não esperava. E ela foi. As semanas passaram rápido demais. Aviões, hotéis, mesas de autógrafos, cafés frios, sorrisos repetidos mas nunca iguais. Em cada cidade, alguém chorava. Em cada fila, alguém dizia baixinho que Beijo com sabor de menta tinha doído… e curado. Os números subiam como se não obedecessem a nenhuma lógica: novas tiragens, traduções sendo negociadas, capas em outras línguas. O nome de Sarah Dunclin começou a circular fora do círculo literário, escapando para lugares onde ela nunca imaginou chegar. E, com isso, veio o convite. — Uma entrevista — disse o agente, por telefone, a voz quase casual demais para o peso da notícia. — Daquelas grandes. TV. Estúdio. Audiência alta. Sarah ficou em silêncio por alguns segundos, sentada na cama de um hotel em Florença, olhando para o próprio reflexo na janela. — Sobre o livro? — perguntou, mesmo sabendo a resposta. — Sobre você — ele corrigiu. — Sobre o que te fez escrever isso. Ela engoliu em seco. No dia da entrevista, o estúdio era claro demais, organizado demais. Maquiagem leve, sardas visíveis agora isso já era quase um manifesto. Vestiram nela algo simples, elegante, sem defesas. Quando a câmera acendeu, o entrevistador sorriu com curiosidade genuína. — Beijo com sabor de menta não é só um sucesso editorial — começou ele. — É um livro que parece ter sido escrito com uma ferida aberta. A pergunta que todo mundo quer fazer é: quanto disso é autobiográfico? Sarah sentiu o coração acelerar. Pensou em diários antigos, em apelidos cruéis, em beijos escondidos, em um gosto de menta que nunca foi embora. Ela sorriu. Pequeno. Contido. — Todo escritor escreve de algum lugar real — disse, com calma. — A diferença é se você tem coragem de admitir isso. — E você teve? Sarah respirou fundo. — Eu demorei — respondeu. — Mas quando parei de fingir que não doía… o livro apareceu. O entrevistador assentiu, tocado. — O livro fala muito sobre silêncio, sobre meninas que aprendem a desaparecer. O que você diria hoje para a Sarah de dezesseis anos? Ela piscou, sentindo os olhos arderem mas não chorou. — Eu diria que ela não era i****a por amar — disse. — E que um dia, alguém ia chamar aquilo de literatura. As câmeras desligaram alguns minutos depois. A equipe aplaudiu. O agente apareceu no canto do estúdio com um sorriso orgulhoso. Mas, mais tarde, sozinha no quarto do hotel, Sarah abriu o celular sem pensar muito. Notificações. Mensagens. Notícias. E, entre tudo aquilo, um nome passou rápido demais pela sua mente. Noah. Ela franziu o cenho, como se tivesse esbarrado em algo antigo dentro de si, e virou o celular com a tela para baixo. Agora, o mundo a via. E ela ainda não sabia o que faria quando alguém do passado resolvesse vê-la também. Noah acordava todos os dias às seis da manhã. Rotina cravada no corpo como músculo treinado: café forte, camiseta preta da academia, relógio esportivo no pulso. O mundo dele era simples, direto, previsível exatamente como gostava. Na academia, era o mesmo de sempre. — Bora, gente, isso aí não é alongamento, é cochilo em pé! — brincava, arrancando risadas enquanto corrigia postura, contava repetições, batia palmas para incentivar. Os alunos gostavam dele. Noah tinha esse jeito fácil, debochado, leve. O tipo de professor que fazia o treino doer menos só por estar ali. Entre uma turma e outra, sentava no balcão, mexia no celular sem muito interesse. Curtia fotos, respondia mensagens curtas. A vida seguia. À noite, saía com a namorada. Ela era bonita, prática, organizada. Gostava de restaurantes novos, de planejar viagens, de falar sobre metas. Noah gostava do jeito como tudo com ela parecia… simples. Sem passado, sem drama, sem silêncios longos. Às vezes, porém, enquanto ela falava, ele se perdia. Não nela. Em nada específico. Era um vazio rápido, quase imperceptível como quando você tenta lembrar de um nome e ele escapa, mas não parece importante o suficiente para insistir. Em um desses jantares, a TV do restaurante mostrava uma entrevista sem som. Uma mulher ruiva aparecia na tela, sardas visíveis, falando com as mãos, segura, elegante. Noah levantou os olhos por reflexo. Achou bonita. Muito. Mas não ligou o rosto ao nome que passava em letras pequenas no canto da tela. Não prestou atenção no livro apoiado na mesa da apresentadora. Não ouviu a palavra menta sendo repetida pela legenda. Virou-se de novo para o prato. — O que foi? — perguntou a namorada. — Nada — respondeu ele, dando de ombros. — Pensei que conhecia aquela mulher ali, mas viagem minha. Acho que não tô enxergando direito. Ele riu de si mesmo. Seguiu a noite. Seguiu a semana. Seguiu a vida. Noah não fazia ideia de que, em livrarias lotadas, meninas seguravam um livro com cheiro imaginário de menta e sublinhavam frases que tinham nascido de algo que ele dissera, anos atrás, sem pensar. Não fazia ideia de que um apelido jogado como piada tinha virado cicatriz, e depois história. Para ele, o passado era só passado. E o nome Ben ainda não significava absolutamente nada
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