Capítulo 41. Ponto final ?

582 Words
Em algum ponto do jogo, aconteceu. Não foi planejado. Não foi dramático. Foi um descuido. Sarah levantou o rosto depois de uma tacada bem-sucedida, procurando Esther para comemorar e encontrou os olhos azuis de Noah. Direto. Sem defesa. Ele já estava olhando. O tempo pareceu tropeçar. O barulho da sala de jogos ficou distante, abafado, como se alguém tivesse fechado uma porta invisível ao redor deles. Nenhum dos dois desviou de imediato. Era diferente de antes. Não tinha nostalgia doce. Não tinha fantasia adolescente. Tinha peso. História. Coisas não ditas ainda. Noah foi o primeiro a reagir fisicamente engoliu em seco, a mandíbula tensionando levemente, o chiclete parado pela primeira vez. Sarah sentiu o próprio coração bater mais forte, odiando o quanto o corpo ainda reconhecia aquele olhar. Ela desviou o rosto primeiro. Mas tarde demais. Ele tinha visto. Visto o microsegundo de hesitação. O olhar que ficou um pouco mais baixo do que deveria. A respiração que mudou. Sarah apoiou o taco na mesa, fingindo naturalidade. — Sua vez — disse, num tom profissional demais. Noah assentiu, se aproximando da mesa. Quando passou por ela, o espaço entre os corpos foi mínimo. Não houve toque. Não houve choque físico. Mesmo assim, foi intenso. O cheiro de menta veio mais forte, misturado ao perfume dela. Noah sentiu algo apertar no peito não desejo imediato, mas uma consciência incômoda do que poderia ter sido… e não foi. Ele fez a jogada errada. — Ih — José riu. — Distraído, primo? — É — Noah respondeu rápido. — Um pouco. Sarah não riu. Não comentou. Mas quando voltou a olhar para a mesa, sentiu algo claro demais para ignorar: Eles não estavam mais invisíveis um para o outro. Não como antes. Não como fingiam. E isso, ali no meio da família, dos parceiros, das risadas alheias… era perigoso demais para ser ignorado e intenso demais para ser simples coincidência. Luca se aproximou sem perceber a tensão invisível. Envolveu Sarah por trás com naturalidade, os braços firmes ao redor da cintura dela, o queixo encostando de leve em seu ombro. — Tá ganhando? — perguntou, sorrindo perto demais da orelha dela. Sarah relaxou instintivamente. O corpo respondeu ao toque conhecido, seguro. Ela apoiou uma das mãos no braço dele. — Tô tentando — respondeu, sincera. Noah viu. E desviou o olhar na mesma hora. Fernanda chegou logo depois, falando alto, animada demais, quebrando o silêncio que nem existia oficialmente. — Amor, você viu a mesa de cartas? Tá uma bagunça! — disse, já puxando Noah pelo braço. — Vem, você precisa salvar aquele jogo. — Já vou — ele respondeu, deixando-se ser puxado. Mas antes de virar completamente, ele olhou de novo. Sarah também olhou. Foi rápido. Um segundo m*l contado. Um entendimento silencioso que não precisava de palavras. Era reconhecimento. Como quem olha para alguém que um dia foi casa e entende que agora é só memória bem guardada. O amor que existiu ali… não era mais deles. Sarah sustentou o olhar apenas o suficiente para fechar aquilo dentro de si. Depois se virou para Lucas, sorrindo de verdade, beijando o canto da boca dele com carinho tranquilo. Noah virou de vez, seguindo Fernanda, sentindo o peso estranho de uma história encerrada sem aplausos, sem briga, sem retorno. Na sala de jogos, a música continuou. As risadas também. Mas algo tinha se encerrado ali, naquele olhar breve, definitivo. E, curiosamente, não doeu como antes. Doía só o bastante para provar que tinha sido real.
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