O telefone tocou no meio da tarde, quando Sarah revisava anotações soltas no caderno frases que não pertenciam a livro nenhum ainda.
— Temos um pedido — o agente disse, depois das formalidades. A voz dele vinha animada demais para ser casual.
Sarah sentou mais ereta.
— Pedido costuma significar pressão — respondeu.
Ele riu.
— Significa aposta alta. Os investidores querem o próximo passo seu.
Ela fechou o caderno devagar.
— Que tipo de passo?
Houve uma pausa breve, como se ele estivesse escolhendo as palavras com cuidado.
— Um romance avassalador. Amor sem condições. Que arde. Uma paixão que não pede permissão, não pensa, só acontece. Um beijo que tira do eixo. Um olhar que desmonta por dentro.
O silêncio se instalou do lado dela.
Sarah sentiu algo apertar no peito não medo, exatamente, mas reconhecimento desconfortável.
— Eles querem… intensidade — ela disse, mais para si mesma.
— Eles querem verdade, Sarah — o agente respondeu. — Mas uma verdade que não seja defensiva. Sem armadura. Sem distância segura.
Ela passou a mão pelos cabelos, levantou e foi até a janela. A cidade seguia viva lá fora, indiferente.
— Eu acabei de sair de um livro que me expôs inteira — disse. — Não sei se tenho outra história dessas.
— Talvez não precise ser sobre dor dessa vez — ele rebateu. — Talvez seja sobre entrega.
A palavra ficou ecoando.
Entrega.
Depois que desligou, Sarah permaneceu ali, parada, olhando o reflexo no vidro. Pensou em tudo que tinha aprendido a controlar. Em como tinha ficado boa em escrever amores intensos… à distância.
Ela sabia descrever o incêndio.
Mas evitava se aproximar do fogo.
Mais tarde, deitada na cama ao lado de Luca, ela observou o rosto dele adormecido. Havia carinho ali. Segurança. Presença. Mas não havia vertigem. Não havia o desequilíbrio que o pedido exigia.
E isso não era um defeito.
Era só… outra coisa.
Na madrugada, Sarah abriu um novo documento no notebook. Não escreveu nomes. Não escreveu enredo. Apenas uma frase, solta, no centro da página:
“Alguns amores não pedem coragem.
Pedem rendição.”
Ela encarou a tela por longos minutos.
Não pensou em Noah.
Não pensou no passado.
Pensou no que ainda não viveu.
E, pela primeira vez desde o sucesso estrondoso, sentiu medo
não de fracassar,
mas de escrever algo que ainda não conhecia.
A madrugada avançou sem piedade.
Sarah ficou sentada na cama, o notebook aberto, a tela branca encarando de volta como um desafio silencioso. Ela tentou começar pelo corpo falhou. Tentou pelo olhar nada. Tentou pelo beijo as palavras morriam antes de virar frase.
Nada ardia.
Nada tirava do eixo.
Fechou o computador às quatro da manhã com a sensação incômoda de estar vazia onde sempre foi abundante.
Nos dias seguintes, tentou de novo.
Acordava cedo, fazia café, sentava à mesa com disciplina quase militar. Abriu documentos novos, escreveu parágrafos inteiros que apagava logo depois. Tudo soava calculado. Bonito demais. Seguro demais.
Não era aquilo.
O pedido dos investidores ecoava como um sussurro irritante: amor sem condições. Mas Sarah só conseguia escrever amores conscientes, escolhidos, protegidos.
Na quarta-feira, passou horas olhando para uma frase:
“Ele a beijou como se…”
Apagou.
Na quinta, tentou mudar de cenário, foi escrever em um café. Observou casais, roubou gestos com o olhar. Nada grudava. Nada atravessava.
O fim da semana chegou sem uma única página aproveitável.
Luca percebeu.
— Você está distante — comentou uma noite, sem acusação.
— Travada — ela corrigiu, sincera.
Ele a puxou para perto, beijou sua testa.
— Então não força.
Sarah fechou os olhos.
O problema era exatamente esse.
Ela nunca tinha forçado antes.
As histórias sempre vinham porque precisavam sair.
Agora, pediam que ela escrevesse algo que ainda não tinha vivido ou que talvez tivesse aprendido a evitar.
No domingo à noite, sentou no chão do quarto, costas na cama, rodeada por cadernos antigos, livros sublinhados, anotações soltas. Tentou lembrar de quando escrever doía e queimava ao mesmo tempo.
Nada.
Só silêncio.
E, dessa vez desde que começou a escrever, Sarah teve medo real de não encontrar a próxima história não por falta de talento, mas por excesso de controle.
O amor que arde não pede permissão.
E ela já tinha aprendido a se proteger demais para alcançá-lo.
Sarah tentou ser honesta consigo mesma.
Sentou no sofá numa noite silenciosa, o notebook fechado ao lado, e passou a revisitar o próprio relacionamento como quem analisa um texto já publicado. Sem julgamento. Só observação.
Luca era bom.
Presente.
Gentil.
Com ele, tudo era previsível no melhor sentido: mensagens respondidas, planos cumpridos, carinho constante. Não havia sobressaltos, nem quedas livres. O amor vinha como um rio largo e tranquilo, sem corredeiras.
E isso a fazia feliz.
Mas não incendiava.
Sarah percebeu aquilo com um misto de culpa e lucidez. Não era falta de amor. Era falta de vertigem. Ela não se perdia em Luca se encontrava. E, naquele momento específico, o que pediam dela não era encontro.
Era descontrole.
Ela tentou escrever uma cena inspirada nos dois: um beijo depois de um jantar, um toque no meio da noite, palavras sussurradas. Tudo saía bonito, correto… e morto. Não ardia. Não desorganizava.
Apagou tudo.
Deitou ao lado dele naquela mesma noite e ficou acordada por um tempo, observando o peito subir e descer com a respiração calma. Pensou que talvez aquela fosse a maturidade que sempre quis. Um amor que não machuca, que não exige prova constante.
Então por que se sentia incapaz de escrever?
A resposta veio incômoda, clara demais para ser ignorada:
Ela não tinha referência viva para a intensidade que pediam.
Não no presente.
A intensidade que conhecia vinha do passado crua, desajeitada, dolorida. Um amor que ardia porque não era seguro. Porque era desequilibrado. Porque vinha acompanhado de medo.
E ela tinha passado anos transformando isso em literatura justamente para não viver de novo.
Sarah fechou os olhos, respirando fundo.
Talvez o problema não fosse a falta de intensidade.
Talvez fosse o receio de encará-la sem o filtro da dor.
Ela virou de lado, se aninhou mais perto de Luca, buscando conforto e encontrou. Sempre encontrava.
Mas, no fundo, uma pergunta começou a martelar, insistente:
Será que dá para escrever um amor avassalador…
sem que ele destrua tudo no caminho?
E, sem perceber, Sarah entendeu que o bloqueio não era criativo.
Era emocional.
Ela tinha aprendido a sobreviver ao fogo.
Agora precisava decidir se teria coragem de se aproximar dele
mesmo sabendo que poderia se queimar.