Capítulo 34. Bodas

815 Words
Quatro meses passaram como um sopro bem vivido. Sarah voltou a Los Angeles em meio a compromissos, entrevistas e encontros editoriais, mas foi o convite de Esther que a fez desacelerar. Um ano de casamento. Uma chácara afastada da cidade, verde por todos os lados, risadas prometidas, família reunida. Era para ser simples. Sarah chegou no fim da tarde, o sol ainda dourando o gramado. Luca estava ao seu lado, mão firme na dela, tranquilo, vestindo uma camisa clara e aquele ar de quem não precisava provar nada. Ele cumprimentou José com facilidade, abraçou Esther com educação e curiosidade genuína. — Então você é o famoso Luca — Esther disse, sorrindo. — Finalmente. Sarah revirou os olhos, rindo. — Ignora — murmurou, mas o sorriso denunciava conforto. Ela apresentou Luca aos poucos, sem ansiedade. Ele se encaixava com naturalidade, conversava com os tios, ajudava com as bebidas, escutava mais do que falava. Sarah observava aquilo com uma calma nova no peito. Do outro lado da chácara, Noah chegava. Fernanda falava animada sobre o lugar, tirava fotos, comentava da decoração. Noah respondia, mas assim que desceu do carro, algo nele se deslocou. Não viu Sarah. Não ouviu a voz dela. Ainda assim, sentiu. Um aperto curto, estranho, quase físico. Como quando se entra num ambiente e o ar muda, mesmo sem saber por quê. Ele parou por um segundo, respirou fundo, tentando ignorar a sensação. — Tá tudo bem? — Fernanda perguntou. — Tá — ele respondeu rápido demais. — Só cansado. Entraram. Noah cumprimentou José, abraçou Esther, elogiou a chácara. Riu quando esperavam que risse. Mas, em algum ponto, seus olhos começaram a percorrer o espaço sem intenção clara. E então viu. Sarah estava sentada perto da mesa de madeira, rindo de algo que Luca dizia. O corpo inclinado levemente na direção dele. A mão apoiada no braço dele com i********e tranquila. O cabelo ruivo preso de forma displicente, sardas visíveis, o rosto aberto. Ela parecia… inteira. Noah sentiu o estômago afundar. Não era ciúme. Não era saudade. Era reconhecimento tardio. Ela não percebeu a presença dele. Nem sequer olhou naquela direção. Estava ocupada vivendo, apresentando Luca a alguém, sorrindo de verdade. Noah desviou o olhar antes que fosse notado. Fernanda continuava falando, alheia. A música começou a tocar mais alto. As pessoas se misturaram. Mas algo tinha mudado. Sem ninguém perceber, Noah entendeu que aquela sensação estranha não era falta. Era fechamento. A história tinha seguido em frente para ela. Em algum momento da tarde, os caminhos inevitavelmente se cruzaram. Sarah vinha da varanda, taça de vinho na mão, quando quase esbarrou em Noah perto da mesa de petiscos. O encontro foi rápido, inevitável, educado demais para o que carregava por baixo. — Oi, Noah — ela disse primeiro, voz firme, neutra. — Oi, Sarah. Ele se inclinou para o beijo no rosto, automático. E então aconteceu. O cheiro. Menta. Não forte. Não exagerado. Só presente o bastante para atravessar o ar entre eles e atingir Sarah como um reflexo antigo, indesejado. O corpo dela reagiu antes da cabeça um microsegundo de tensão nos ombros, uma respiração contida. Mas o rosto não entregou nada. Ela sorriu curto, profissional, como quem cumprimenta um conhecido distante. — Parabéns pro José e pra Esther — completou. — É… estão felizes — ele respondeu. Houve um silêncio mínimo, desconfortável, quase educado demais. Luca apareceu ao lado de Sarah no momento exato, colocando a mão em sua cintura com naturalidade. — Amor, o José está te chamando — disse, sem saber que salvava algo. Sarah assentiu. — A gente se vê por aí — disse a Noah, já se afastando. E foi isso. O resto do dia se passou como um exercício de desvios bem calculados. Sarah conversava, ria, participava. Não procurava Noah, não o evitava ativamente apenas não olhava. Noah fazia o mesmo. Eles orbitavam o mesmo espaço sem se tocar, como dois planetas que já tinham colidido em outra vida. Em algum momento, perto da churrasqueira, um primo comentou alto demais: — Gente, eu li Beijo com sabor de menta. Que livro! Mas, olha… o Ben é um i****a completo. Risos se espalharam. Sarah sentiu o calor subir pelo pescoço. Riu curto, sem saber onde colocar as mãos. — Ele é… humano — respondeu, escolhendo cada sílaba. Noah estava a poucos metros dali, de costas, segurando uma cerveja. Fingiu não ouvir. Riu de algo que Fernanda disse, alto demais, no tempo errado. Por dentro, cada palavra batia. Idiota. Ele não se virou. Não olhou para Sarah. Não deu a ela o constrangimento de saber que ele sabia. Mas sabia. E ela não fazia ideia disso. Quando a noite caiu e as luzes da chácara se acenderam, os dois continuavam ali presentes, educados, distantes. Como se o livro fosse um segredo unilateral. Como se o passado tivesse ficado quieto. Mas o cheiro de menta ainda pairava no ar.
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