Helena estava impaciente. A sala de espera da firma parecia ainda maior do que realmente era, e o eco de seus próprios passos no piso de mármore a irritava. Ela ajustava a postura, mexia no salto alto, olhava para o relógio e suspirava, tentando não revelar o quanto estava ansiosa. Não por medo, jamais. Medo não era uma palavra em seu vocabulário. Mas havia algo diferente naquele dia, algo que ela não conseguia controlar.
O envelope deixado pelo pai ainda queimava em sua memória. As palavras dele, carregadas de peso, reverberavam na cabeça dela. Um desafio. Uma missão final. Um legado que poderia ser perdido se ela falhasse. E ela, Helena Duarte, a mulher que sempre conquistou tudo com charme, inteligência e manipulação, agora se via à espera de um homem que prometia não ceder, não se impressionar e não permitir que ela passasse por cima dele.
Ela cruzou os braços, sentindo o peito apertar.
— Que demora absurda — murmurou para si mesma.
A porta se abriu, mas não era ele. Um assistente entrou, segurando uma prancheta.
— A reunião com Estevão está marcada para daqui a cinco minutos, senhora. Ele já está na sala de reuniões — disse, sem desviar o olhar do bloco de anotações.
Helena assentiu, respirando fundo. Cinco minutos. Era uma eternidade e, ao mesmo tempo, tempo suficiente para que seu orgulho aumentasse, para que se preparasse, para que se fortalecesse emocionalmente contra o que estava por vir.
Ela se sentou, os dedos tamborilando na mesa lateral, os olhos fixos na porta que levava à sala de reuniões. O coração, no entanto, insistia em bater mais rápido. Não era apenas ansiedade. Havia algo nele, algo que a perturbava de uma forma que nenhum homem jamais havia conseguido.
Ela se lembrava das muitas vezes em que dominou qualquer sala, qualquer ambiente. Uma frase, um olhar, um toque — e homens poderosos e impassíveis se curvavam à sua vontade. Mas Estevão… ele era diferente. Ele não se curvava, não se impressionava, não cedia. Ele a fazia sentir que nada do que ela já aprendeu era suficiente.
O relógio parecia zombar dela, marcando segundos que duravam minutos. Cada tique-taque lembrava-lhe que aquele homem poderia mudar tudo. Que ele poderia, com um simples gesto ou palavra, colocar seu império inteiro em xeque.
Finalmente, a porta se abriu novamente. Ele entrou sem bater. Cada passo era firme, cada movimento carregado de confiança. Estevão não precisava se anunciar. A presença dele falava por si só.
Helena se levantou imediatamente, ajustando a postura, mantendo o olhar firme.
— Então, é você.
— Sou eu — respondeu ele, com a voz baixa e firme, cada palavra carregada de propósito. — O homem que vai garantir que você cumpra o último desejo do seu pai.
Ela arqueou uma sobrancelha. — Garantir? — repetiu, tentando soar superior. — Você acha que precisa garantir alguma coisa?
Ele não respondeu imediatamente. Apenas colocou a pasta que carregava sobre a mesa. Um gesto simples, mas carregado de autoridade.
— Não é questão de querer ou não — disse, finalmente. — É questão de obrigação. Seu pai confiou em mim para que você cumprisse aquilo que ele considerava essencial.
O silêncio caiu sobre os dois. Helena queria rir, desafiar, atacar com sarcasmo, mas não conseguia. Ele não cedia. E essa imobilidade era mais desafiadora do que qualquer ataque que ela já enfrentou.
— Então é isso — disse ela, tentando controlar a voz. — Meu pai me preparou para ser vigiada, monitorada, controlada… e você será meu carrasco.
— Não — corrigiu ele, impassível. — Não sou seu carrasco. Sou o guardião do legado dele.
Ela respirou fundo, tentando recobrar o fôlego. A sensação de impotência era nova e desconfortável. Mas havia algo mais. Uma curiosidade que ela não queria admitir: ele não era apenas firme, ele era justo. Ele não manipulava, não se deixava seduzir, não se vendia a truques ou artimanhas. Era sólido. Inabalável.
Helena sentou-se novamente, cruzando as pernas, a postura rígida.
— Então vamos direto ao ponto — disse, tentando soar fria. — O que você quer de mim?
Estevão abriu a pasta, tirou alguns documentos e os empurrou na direção dela.
— Leia. Tudo está aqui. Cada condição, cada regra. Seu pai foi claro. Se você não cumprir, a empresa não será mais sua.
Ela pegou os papéis, sentindo o peso do destino em cada folha. Cada linha parecia cortar seu orgulho como faca. Sempre que alguém questionou sua autoridade, Helena encontrou uma forma de dominar. Mas essas palavras não eram apenas ordens. Eram desafios que atingiam o âmago de sua essência, forçando-a a confrontar suas falhas e seu comportamento.
— Então é assim — disse, finalmente. — Ou eu sigo suas regras, ou perco tudo.
— Exatamente — respondeu ele, sem hesitar. — Não há atalhos. Não há truques. Não há exceções.
Helena fechou os olhos. Sentiu uma mistura de raiva e medo. Nunca se sentira tão pequena diante de alguém. Nunca ninguém havia resistido tanto a ela. E ao mesmo tempo, algo dentro dela começou a mudar. Um respeito silencioso, uma admiração que não queria admitir, começou a se formar.
— E se eu não quiser jogar conforme suas regras? — perguntou, com a voz mais baixa, quase um sussurro.
— Então não há volta — disse Estevão, firme. — Mas você ainda terá uma chance. Uma chance de provar que é capaz de honrar não apenas seu nome, mas também o legado do seu pai.
Ela respirou fundo, absorvendo cada palavra. Pela primeira vez, Helena percebeu que o poder sozinha não era suficiente. Que a arrogância não bastava. Que havia alguém capaz de confrontá-la, de desafiá-la, de fazê-la repensar cada ação e cada decisão.
O silêncio se prolongou, pesado, até que ela finalmente falou:
— Então é você. O homem da sala de espera que meu pai deixou para me testar.
Ele não sorriu, mas seu olhar permaneceu firme, imutável.
— Exatamente. E é melhor que se acostume com isso, porque não há outra saída.
Ela sentiu um frio na espinha. Pela primeira vez em anos, o mundo parecia maior do que ela. Pela primeira vez, sentiu que poderia perder. Não apenas a empresa, mas também sua própria imagem, seu próprio orgulho.
— Então vamos começar — disse ela, finalmente, tentando recuperar alguma autoridade. — Mostre-me as regras.
Estevão abriu os documentos e começou a explicar cada detalhe, cada condição, cada ação necessária. Helena ouviu atentamente, tentando absorver cada palavra, cada instrução, mas também tentando avaliar cada oportunidade de manipular, de contornar, de virar o jogo.
Mas enquanto ele falava, algo estranho começou a acontecer. Cada regra parecia mais justa do que imaginava. Cada instrução parecia desafiadora, mas não impossível. E a frieza dele, a firmeza implacável, começou a derreter uma parte do orgulho que ela sempre considerou invencível.
Ela percebeu que estava sendo confrontada não apenas com regras, mas consigo mesma. Pela primeira vez, Helena Duarte sentiu que tinha que mudar. E isso a aterrorizava.
— Então é isso — disse ela, fechando a pasta e olhando para ele. — O homem da sala de espera é você. O único que pode realmente me desafiar.
— Sim — disse Estevão, sem se mover, sem se impressionar. — E é melhor que se acostume.
Helena respirou fundo, tentando organizar seus pensamentos. O medo e a admiração se misturavam com raiva e orgulho ferido. Pela primeira vez, ela percebeu que talvez não estivesse apenas diante de um contrato ou de regras. Estava diante de alguém que podia mudá-la. E, apesar de tudo, uma pequena parte de si começou a ansiar por isso.
O homem da sala de espera não era apenas um guardião do legado do pai. Ele era a primeira barreira real que Helena Duarte enfrentava em anos. E ela sabia, profundamente, que enfrentá-lo seria o desafio mais difícil de sua vida.
Porque aquele homem não cedia. E ela ainda não sabia se queria apenas derrotá-lo ou se, secretamente, queria finalmente se render.