A casa era grande, antiga, com cheiro de madeira úmida e lembranças que não pertenciam a Leonor. Afonso, seu pai, havia se casado novamente com Isabela, prima da sua falecida esposa. O casamento aconteceu rápido, quase como quem tenta apagar a dor da perda de uma pessoa, com outra. Logo após ao casamento, Isabela engravidou e deu à luz Gabriel, o filho que parecia completar a nova família, uma família da qual Leonor nunca sentiu de fazer parte.
Ela cresceu pelos cantos da casa, como quem aprende a existir sem fazer barulho. Observava tudo em silêncio: os risos que não a incluíam, os abraços que não a alcançavam, carrinhos nunca destinados a ele e os olhares que a atravessavam como se fosse feita de vento. Desde cedo, aprendeu o significado da palavra rejeição, não como conceito, mas como sensação diária.
Se não fossem seus amigos — Iva, Gisele, Lucas, Cássio e Júnior — talvez a adolescência tivesse sido marcada por uma tragédia. Eles eram sua rede invisível de apoio, seu refúgio, sua resistência. Com eles, Leonor ria, sonhava, criava mundos onde era amada e vista.
Na escola, Leonor brilhava. Era inteligente, curiosa, e tinha uma imaginação que encantava professores e colegas. Na quinta série, escreveu uma história tão incrível que venceu um concurso estadual de literatura infantil. Recebeu um prêmio em dinheiro e um certificado com o seu nome em letras douradas. Foi o primeiro momento em que ela sentiu que talvez tivesse valor.
Mas ao chegar em casa, a realidade a esperava como sempre. Isabela pegou o dinheiro do prêmio sem hesitar e o gastou com os filhos dela. Nenhuma palavra de parabéns, nenhum gesto de reconhecimento, e seu pai como sempre foi completamente omisso. Apenas o silêncio habitual, agora com gosto de injustiça.
Naquela noite, o quarto de Leonor parecia menor do que nunca. As paredes, antes silenciosas, agora pareciam sussurrar tudo o que ela tentava esquecer. Sentada na beirada da cama, com o certificado ainda nas mãos, ela chorava em silêncio. O prêmio que conquistara com tanto esforço havia sido arrancado sem cerimônia. Isabela, com seu sorriso impecável e voz doce diante dos outros, havia gastado todo o dinheiro do prêmio com os seus filhos, para a madrasta era como se Leonor fosse apenas uma sombra na casa.
Ela apertou o papel contra o peito, como quem tenta segurar o próprio coração. “Não é justo”, murmurou. “Não é justo.”
Na manhã seguinte, Leonor chegou à escola mais cedo do que o habitual. O pátio ainda estava vazio, e o sol m*l havia tocado os muros. Caminhou com passos firmes até a sala da direção. Sabia que a diretora Marta estaria lá, sua antiga professora do primário, agora diretora da escola. Marta sempre fora uma mulher firme, respeitada por todos, com olhos que enxergavam além das aparências.
Leonor bateu na porta com mãos trêmulas.
— Pode entrar — disse Marta, sem levantar os olhos dos papéis.
Ao ver a menina, porém, a sua expressão mudou.
— Leonor? Está tudo bem?
Leonor hesitou por um segundo, depois respirou fundo.
— Professora… eu preciso conversar com a senhora. É importante.
Marta indicou a cadeira à frente da sua mesa.
— Claro, querida. Sente-se. O que aconteceu?
Leonor olhou para as mãos, depois para os olhos da professora.
— A senhora lembra do concurso de literatura? Eu ganhei. Escrevi aquela história sobre o menino que falava com as estrelas…
— Sim! Claro que sim. Eu fiquei tão orgulhosa quando soube. Você tem um talento raro.
— Eu recebi um prêmio em dinheiro. Mas… a minha madrasta pegou tudo. Gastou com os filhos dela. Eu não vi nem um centavo.
Marta franziu o cenho.
— Isabela? Isso é muito sério. Ela sempre parece tão… dedicada. Sempre fala de você com carinho.
Leonor sorriu com tristeza.
— Ela finge bem. Na frente dos outros, sou a filha perfeita. Em casa… sou só um incômodo, que incomoda até quando respiro.
Marta ficou em silêncio por alguns segundos, observando a menina. Havia algo nos olhos de Leonor, uma dor antiga, profunda, de quem nunca soube o que é amor de verdade.
— Você falou com seus pais ou contou isso pra alguém? Como Isabela a trata.
— Papai faz de conta que não vê, mas ele sabe. — ela respirou fundo e olhou nos olhos da diretora. — Nunca contei a ninguém estranho. Mas eu não aguento mais. Eu não quero que ela roube mais nada de mim.
Leonor então tirou da mochila uma folha impressa. Era o e-mail da editora que havia patrocinado o concurso. Eles queriam conversar com o responsável legal por ela sobre a possibilidade de publicar mais de suas histórias.
Marta leu o e-mail com atenção, depois olhou para Leonor com um misto de surpresa e admiração.
— Isso é sério. Eles realmente querem você.
— Sim foi o que eu entendi, mas se eu contar isso lá casa, ela vai tomar tudo de novo.
se levantou, caminhou até a janela, pensativa. Depois se virou com decisão.
— Então não vamos contar. Vamos fazer isso juntas. Você merece receber o fruto do seu trabalho. E ninguém vai tirar isso de você, voamos ver juridicamente o que possamos fazer.
Na terça-feira daquela semana, o céu amanheceu nublado, como se o mundo estivesse em compasso com o coração de Leonor. Marta chegou pontualmente à escola, vestida com seu blazer azul-marinho e um olhar decidido. Leonor a esperava no portão, com a mochila nas costas e o e-mail da editora dobrado em quatro dentro do estojo.
— Pronta? — perguntou Marta, com um sorriso discreto.
— Pronta — respondeu Leonor, tentando esconder a ansiedade.
As duas caminharam até a agência do Banco do Brasil, localizada a poucas quadras da escola. A fachada era antiga, com janelas altas e um letreiro que já perdera o brilho. Ao entrarem, foram recebidas por um segurança gentil e pelo cheiro característico de papel, café e burocracia.
O gerente, Sr. Henrique, veio ao encontro delas com um sorriso nostálgico.
— Professora Marta! Que honra. A senhora foi minha professora de História no ensino médio. Nunca esqueci a suas aulas sobre a Revolução Francesa.
— E eu nunca esqueci o seu trabalho sobre o Iluminismo — respondeu Marta, apertando a sua mão. — Hoje estou aqui por uma causa especial. Esta é Leonor Faccin, minha aluna e uma jovem escritora promissora. Precisamos abrir uma conta poupança em nome dela, com minha supervisão. E gostaria que tudo fosse feito com sigilo absoluto.
Henrique olhou para Leonor, que mantinha os olhos baixos, e depois para Marta. O seu semblante ficou sério.
— Claro, professora. Confiança é a base de tudo. Juridicamente falando.
— Compreendo Henrique, mas você poderia dar o seu jeitinho.
— Vamos cuidar disso com discrição.
Enquanto preenchiam os formulários, Marta explicava que Leonor que a editora iria fazer os depósitos das vendas dos livros naquela conta, que os cartões ficariam com ela, e quando ela precisasse era só pedir que elas viriam juntas ao banco. Henrique assentia, digitando com precisão e cuidado.
— Pronto. Conta aberta. Leonor, este é o seu cartão. E este é o começo de algo grande. Fico orgulhoso em fazer parte da sua história.
Leonor segurou o cartão como quem segura uma chave para um mundo novo.
Na sexta-feira, Sr. Afonso, pai dela, autorizou Leonor a participar de uma “viagem escolar”. A escola organizava passeios culturais com frequência, e ele não desconfiou de nada. Leonor vestiu a sua melhor roupa, uma blusa branca com bordados discretos e uma calça jeans nova com os mesmos bordados da blusa, ela queria ter usado um dos seus vestidos mais aí Isabela poderia desconfiar. Marta a buscou em casa, e juntas seguiram para a cidade vizinha, em um hotel onde estava hospedado o editor da editora.
O advogado Miguel, amigo de Marta e defensor de causas educacionais, já os aguardava na recepção. Era um homem calmo, de fala pausada e olhar gentil.
— Leonor, é um prazer conhecê-la. Li a sua história. Você tem uma imaginação rara — disse ele, apertando a sua mão com respeito.
Subiram até o terceiro andar, onde ficava uma sala de conferência do hotel e lá foram recebidos por Clara, editora-chefe da coleção infanto-juvenil.
— Leonor! Que alegria finalmente conhecê-la. A sua história sobre o menino que falava com as estrelas nos encantou. Queremos publicar. E não apenas essa queremos que você escreva muito mais história como essa.
Leonor olhou para Marta, depois para Miguel, e então para Clara.
— Eu quero. Mas preciso que tudo seja feito com cuidado. Não posso contar para minha família. Ainda não.
Clara estranhou, legalmente Leonor era menor, e somente um responsável legal poderia assinar o contrato, foi então que o Dr. Miguel puxou um contrato detalhado e explicou a Clara sobre a situação da garota, e que tudo o que ele colocou no contrato estava de acordo. Clara encaminhou o documento a equipe jurídica de editora e ficou algum tempo falando com os mesmos ao telefone, quando deligou e assentiu, compreendendo a situação delicada da menina.
— Vamos cuidar de você. O seu talento merece espaço, e a sua história merece ser contada.
Naquele dia, Leonor assinou o seu primeiro contrato editorial. Marta segurava as lágrimas, Miguel sorria com orgulho, e Clara já falava sobre capas, ilustrações e prazos, sendo questionada por Marta, pois a garota precisava ter uma vida tranquila.
Leonor, aos doze anos, saía do anonimato para se tornar autora publicada. E tudo começou com uma mentira piedosa — uma viagem escolar que, na verdade, era o primeiro passo rumo às estrelas.