Capítulo 4 A Casa Que Acolhe

1099 Words
Leonor chegou à casa de Iva com as duas malas pesadas e o coração ainda mais. Dona Marlene abriu o portão assustada não esperava vê-la tão cedo, nem com aquele olhar perdido. — A minha filha… o que aconteceu? — perguntou, já estendendo os braços. Leonor hesitou por um segundo, depois se deixou envolver pelo abraço. Um abraço que não vinha de sangue, mas de afeto verdadeiro, o amor de uma mãe. Iva apareceu logo atrás, com os olhos arregalados. — Léo? Você tá bem? Leonor tentou sorrir, mas a voz saiu baixa. — Saí de casa. De vez, e não volto nunca mais morar lá. Dona Marlene a conduziu para dentro, sentou-a no sofá e trouxe um copo de água. — Aqui você tem um lar. Sem perguntas agora, minha filha, vá para o quarto da Iva e descanse, depois a gente arruma tudo. Iva sentou ao lado da amiga, segurando a sua mão. — Você não precisa explicar nada. Só quero que saiba que a gente tá com você. Leonor olhou para as duas e sentiu algo que há muito não sentia na casa com a sua família de sangue: segurança. Mais tarde, depois de um banho quente e um prato de arroz com feijão feito com carinho, Leonor foi até a escola. Marta a recebeu na sala da direção com um abraço apertado. — Eu soube que você saiu de casa. Está segura? — Estou. Na casa da Iva. Dona Marlene me acolheu como uma mãe. Marta assentiu, emocionada. — E seu pai? — Disse que eu devia ter morrido junto com a minha mãe. Me bateu. Disse que sou uma cobra ingrata. Marta fechou os olhos por um instante, como quem tenta conter a indignação. — Você não mereceu ouvir isso. Nunca mereceu. Leonor respirou fundo. — Eu preciso usar parte do dinheiro da conta. Preciso começar a me sustentar. Alugar um quarto, comprar as minhas coisas. E agora que sou maior de idade… — Vamos resolver isso agora — disse Marta, com firmeza. As duas foram até a agência do Banco do Brasil. O gerente Henrique as recebeu com um sorriso contido, mas respeitoso. — Leonor, parabéns pela maioridade. — Henrique viemos ajustas agora a conta da Leonor, não precisa mais ser uma conta conjunta. — Vamos transferir os poderes da conta para você, Leonor. A partir de agora, é tudo seu. Leonor assinou os papéis com mãos firmes. Era como se, ao escrever o seu nome, estivesse reescrevendo a sua história. — Obrigada, Marta. Por tudo que fez por mim. Se não fosse você… — Você teria encontrado outro caminho. Porque você é incrível, minha filha. Eu só fui uma lanterna num momento de escuridão. Depois do banco, foram até a casa de Marta. A professora abriu uma gaveta trancada e entregou a Leonor o seu notebook, alguns documentos, contratos antigos e cartas da editora. — Guardei tudo aqui. Sabia que um dia você precisaria desses documentos. Leonor segurou os objetos como quem segura o próprio futuro. — Agora é só seguir em frente — disse Marta. — E escrever e ser feliz... — completou Leonor, com um sorriso tímido. Naquela noite, deitada no colchão improvisado na casa de Iva, Leonor abriu o notebook e começou a digitar. Não uma história infantil. Mas a sua própria história. A história de uma menina que aprendeu que entre cedros e estrelas, há também espinhos, pessoas que machucam, mas que mesmo assim, escolheu florescer e ser feliz. Na manhã seguinte, Leonor acordou com o cheiro de pão na chapa e café passado na hora. Dona Marlene cantarolava na cozinha, e Iva já estava de pé, organizando a mesa do café com carinho. — Dormiu bem, minha escritora favorita? — perguntou Iva, com um sorriso cúmplice. — Dormi… como se tivesse tirado um peso de cima do peito — respondeu Leonor, ainda com a voz rouca de sono. Antes que pudesse terminar o café, a campainha tocou. Era Júnior, com o violão nas costas e um pacote de pão de queijo da padaria na mão. — Cheguei! E trouxe reforços calóricos e musicais! — anunciou, entrando sem cerimônia. — Júnior! — Leonor se levantou para abraçá-lo. — Você sempre aparece quando mais preciso. — Claro, né? Sou tipo o Batman, só que com violão e sem a fortuna. Logo atrás dele, Cássio apareceu com a sua mochila de lona e uma caixa de frutas do sítio. — Trouxe banana, goiaba e… um queijo. Você precisa comer bem pra continuar escrevendo essas histórias malucas, que as crianças adoram. — Cássio! — Leonor sorriu, emocionada. — Você é um anjo disfarçado de caipira. — Caipira não, por favor. Prefiro “guardião rural” — respondeu ele, sério, arrancando risos de todos. Minutos depois, Gisele chegou esbaforida, com um caderno nas mãos e os cabelos presos de qualquer jeito. — Leonor eu sinto muito todo isso, aquela Isabela não merece respirar e os babacas dos seus irmãos são uns idiotas, e você dona Ivana, porque não me ligou contando tive que saber pelo outros, não sou mais amiga de vocês. — Gisele, você é um espetáculo — disse Leonor, abraçando a amiga com força. — E você é a protagonista da nossa história. E toda protagonista precisa de um elenco de apoio incrível — respondeu ela, fazendo uma reverência exagerada. Todos se acomodaram na sala. Júnior começou a dedilhar uma melodia suave no violão, enquanto Iva servia café e Dona Marlene observava tudo com um sorriso discreto, mas cheio de orgulho. — E o Lucas? — perguntou Leonor, num momento de silêncio. Gisele suspirou. — Foi para São Paulo, fazer novas fotos. Ele anda cada vez mais distante. Acho que ele virou estrela demais pra olhar pra gente. — Ou tá perdido no próprio brilho — completou Júnior, com um tom brincalhão. — Deixa ele. A gente tá aqui. E você tem a gente — disse Iva, firme. Leonor olhou ao redor. Aquela sala simples, cheia de vozes, risos e cheiros familiares, era mais lar do que qualquer casa que já tivera. — Eu não sei o que seria de mim sem vocês. — Seria uma escritora de sucesso, mas com menos memes internos — disse Gisele, fazendo todos rirem. — E sem o amigo que traz pão de queijo — completou Júnior, erguendo o pacote como um troféu. Leonor riu. Riu de verdade. Pela primeira vez em dias, sentiu que podia respirar sem medo. Ali, entre amigos, entre afeto e piadas bobas, ela sabia: os laços que realmente importam são aqueles que permanecem, mesmo quando tudo o resto desmorona.
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