Leonor chegou à casa de Iva com as duas malas pesadas e o coração ainda mais. Dona Marlene abriu o portão assustada não esperava vê-la tão cedo, nem com aquele olhar perdido.
— A minha filha… o que aconteceu? — perguntou, já estendendo os braços.
Leonor hesitou por um segundo, depois se deixou envolver pelo abraço. Um abraço que não vinha de sangue, mas de afeto verdadeiro, o amor de uma mãe.
Iva apareceu logo atrás, com os olhos arregalados.
— Léo? Você tá bem?
Leonor tentou sorrir, mas a voz saiu baixa.
— Saí de casa. De vez, e não volto nunca mais morar lá.
Dona Marlene a conduziu para dentro, sentou-a no sofá e trouxe um copo de água.
— Aqui você tem um lar. Sem perguntas agora, minha filha, vá para o quarto da Iva e descanse, depois a gente arruma tudo.
Iva sentou ao lado da amiga, segurando a sua mão.
— Você não precisa explicar nada. Só quero que saiba que a gente tá com você.
Leonor olhou para as duas e sentiu algo que há muito não sentia na casa com a sua família de sangue: segurança.
Mais tarde, depois de um banho quente e um prato de arroz com feijão feito com carinho, Leonor foi até a escola. Marta a recebeu na sala da direção com um abraço apertado.
— Eu soube que você saiu de casa. Está segura?
— Estou. Na casa da Iva. Dona Marlene me acolheu como uma mãe.
Marta assentiu, emocionada.
— E seu pai?
— Disse que eu devia ter morrido junto com a minha mãe. Me bateu. Disse que sou uma cobra ingrata.
Marta fechou os olhos por um instante, como quem tenta conter a indignação.
— Você não mereceu ouvir isso. Nunca mereceu.
Leonor respirou fundo.
— Eu preciso usar parte do dinheiro da conta. Preciso começar a me sustentar. Alugar um quarto, comprar as minhas coisas. E agora que sou maior de idade…
— Vamos resolver isso agora — disse Marta, com firmeza.
As duas foram até a agência do Banco do Brasil. O gerente Henrique as recebeu com um sorriso contido, mas respeitoso.
— Leonor, parabéns pela maioridade.
— Henrique viemos ajustas agora a conta da Leonor, não precisa mais ser uma conta conjunta.
— Vamos transferir os poderes da conta para você, Leonor. A partir de agora, é tudo seu.
Leonor assinou os papéis com mãos firmes. Era como se, ao escrever o seu nome, estivesse reescrevendo a sua história.
— Obrigada, Marta. Por tudo que fez por mim. Se não fosse você…
— Você teria encontrado outro caminho. Porque você é incrível, minha filha. Eu só fui uma lanterna num momento de escuridão.
Depois do banco, foram até a casa de Marta. A professora abriu uma gaveta trancada e entregou a Leonor o seu notebook, alguns documentos, contratos antigos e cartas da editora.
— Guardei tudo aqui. Sabia que um dia você precisaria desses documentos.
Leonor segurou os objetos como quem segura o próprio futuro.
— Agora é só seguir em frente — disse Marta.
— E escrever e ser feliz... — completou Leonor, com um sorriso tímido.
Naquela noite, deitada no colchão improvisado na casa de Iva, Leonor abriu o notebook e começou a digitar. Não uma história infantil. Mas a sua própria história. A história de uma menina que aprendeu que entre cedros e estrelas, há também espinhos, pessoas que machucam, mas que mesmo assim, escolheu florescer e ser feliz.
Na manhã seguinte, Leonor acordou com o cheiro de pão na chapa e café passado na hora. Dona Marlene cantarolava na cozinha, e Iva já estava de pé, organizando a mesa do café com carinho.
— Dormiu bem, minha escritora favorita? — perguntou Iva, com um sorriso cúmplice.
— Dormi… como se tivesse tirado um peso de cima do peito — respondeu Leonor, ainda com a voz rouca de sono.
Antes que pudesse terminar o café, a campainha tocou. Era Júnior, com o violão nas costas e um pacote de pão de queijo da padaria na mão.
— Cheguei! E trouxe reforços calóricos e musicais! — anunciou, entrando sem cerimônia.
— Júnior! — Leonor se levantou para abraçá-lo. — Você sempre aparece quando mais preciso.
— Claro, né? Sou tipo o Batman, só que com violão e sem a fortuna.
Logo atrás dele, Cássio apareceu com a sua mochila de lona e uma caixa de frutas do sítio.
— Trouxe banana, goiaba e… um queijo. Você precisa comer bem pra continuar escrevendo essas histórias malucas, que as crianças adoram.
— Cássio! — Leonor sorriu, emocionada. — Você é um anjo disfarçado de caipira.
— Caipira não, por favor. Prefiro “guardião rural” — respondeu ele, sério, arrancando risos de todos.
Minutos depois, Gisele chegou esbaforida, com um caderno nas mãos e os cabelos presos de qualquer jeito.
— Leonor eu sinto muito todo isso, aquela Isabela não merece respirar e os babacas dos seus irmãos são uns idiotas, e você dona Ivana, porque não me ligou contando tive que saber pelo outros, não sou mais amiga de vocês.
— Gisele, você é um espetáculo — disse Leonor, abraçando a amiga com força.
— E você é a protagonista da nossa história. E toda protagonista precisa de um elenco de apoio incrível — respondeu ela, fazendo uma reverência exagerada.
Todos se acomodaram na sala. Júnior começou a dedilhar uma melodia suave no violão, enquanto Iva servia café e Dona Marlene observava tudo com um sorriso discreto, mas cheio de orgulho.
— E o Lucas? — perguntou Leonor, num momento de silêncio.
Gisele suspirou.
— Foi para São Paulo, fazer novas fotos. Ele anda cada vez mais distante. Acho que ele virou estrela demais pra olhar pra gente.
— Ou tá perdido no próprio brilho — completou Júnior, com um tom brincalhão.
— Deixa ele. A gente tá aqui. E você tem a gente — disse Iva, firme.
Leonor olhou ao redor. Aquela sala simples, cheia de vozes, risos e cheiros familiares, era mais lar do que qualquer casa que já tivera.
— Eu não sei o que seria de mim sem vocês.
— Seria uma escritora de sucesso, mas com menos memes internos — disse Gisele, fazendo todos rirem.
— E sem o amigo que traz pão de queijo — completou Júnior, erguendo o pacote como um troféu.
Leonor riu. Riu de verdade. Pela primeira vez em dias, sentiu que podia respirar sem medo. Ali, entre amigos, entre afeto e piadas bobas, ela sabia: os laços que realmente importam são aqueles que permanecem, mesmo quando tudo o resto desmorona.