• Eric •
A noite caiu sem que eu percebesse. Passei o dia todo fora, no prédio da Erudição. Tudo tem que estar perfeito para o último teste avaliativo de amanhã. Todo o conselho estará aqui na Audácia, incluindo Jeanine Matthews, a loura carrancuda capaz de pôr medo em muitos eruditos. Me lembro das vezes que nos esbarramos e eu a tirei do sério. Sempre soube que meu lugar não era lá e ela sempre soube como me castigar pelas minhas travessuras.
Assim que o carro do Conselho me deixa na entrada do Complexo da Audácia, eu caminho para dentro e noto um burburinho na ponte do abismo. Fico sob a escuridão de um dos corredores e apenas observo. Joanne está ali.
Ela está cercada por Timothy, Munick e Thomas.. Franzo o cenho e decido sair da escuridão ao notar que as mãos de Joanne estão sujas de sangue.
— Não interessa! — ela diz firme — Eu exijo saber o que aconteceu.
— E eu também.
Digo assim que tomo meu lugar, ficando entre Joanne e eles, na ponte que passa por cima do abismo, ligando uma extremidade à outra.
Timothy parece assustado e ofegante. Está surpreso em me ver. Os outros recuam dois pequenos passos para trás, deixando evidente que Timothy é o líder de qualquer merda que esse pequeno bando tenha feito.
— O que está acontecendo aqui? — pergunto sério — Respondam!
Minha voz soa firme e autoritária.
Eles parecem pensar no que dizer, mas são interrompidos por vozes vindas do corredor atrás de Joanne e eu.
— Maria, o que você vai fazer?
Uma voz feminina pergunta.
— Maria, pensa bem. Eric pode te descartar.
Diz outra.
E assim, o furacão de cabelos castanhos passa por mim de forma avassaladora. Quando menos espero, ela chuta as juntas dos joelhos de Timothy, fazendo com que ele caia no chão e ela monte em cima dele, segurando-o pelo colarinho e batendo sua cabeça contra a grade do chão da ponte.
Joanne tenta se aproximar, mas eu coloco meu braço em sua frente. Quero ver até onde essa Hippie vai com tanta fúria.
Ela coloca a metade do tronco de Timothy para fora da grade, o segurando de forma pendurada no abismo. Munick e Thomas tentam intervir, mas eu solto um rosnado, que os mantém no mesmo lugar.
— Olha pra mim! — Hippie grita a plenos pulmões, enquanto o sangue pinga da parte de trás da cabeça do garoto — Olha pra mim, seu saco de merda!
— Maria! — uma de suas amigas grita em alerta, mas ela parece não escutar e dá um soco no nariz de Timothy
— Se acontecer alguma coisa com o Drew... Se o Drew morrer... — ela respira fundo e o chacoalha. O frangote apenas mantém os olhos arregalados e pede para que ela não o mate — Se acontecer alguma coisa com o Drew, eu te caço até no inferno. Eu reviro cada pedra, cada p***a de facção dessa cidade até encontrar você. E quando eu te encontrar... — ela cospe em seu rosto banhado por sangue nasal — Eu vou matar você da forma mais lenta e dolorosa possível.
Dito isso, ela bate acabeça dele contra a grade, fazendo-o desmaiar. Se levanta e se vira, só então notando que eu estou ali.
Eu já vi seus olhos com diversos sentimentos. Luxúria, coragem, receio, determinação. Mas confesso que nunca vi tanto ódio em uma íris tão pequena. O castanho esverdeado de seus olhos chega a brilhar intensamente de forma escura.
— O que você fez, sua v***a?
Munick grita e então, com rapidez, a empurra da grade, fazendo com que seu corpo se desequilibre e caia da ponte.
— Maria! — uma de suas amigas diz
— NÃO! — a outra grita
Tudo acontece muito rápido, fazendo com que eu haja por instinto. Com uma mão, seguro a mão esquerda de Maria e, com a outra, sustento nossos corpos na grade atrás de mim.
Maria está pendurada. Seus pés balançam e, a qualquer momento, ela pode cair naquele abismo.
Me pergunto o motivo de eu não querer que ela caia.
— Por favor. — ela sussurra quase sem som
Seus olhos estão arregalados e ela olha para os lados, parecendo não acreditar que está pendurada no abismo.
Você não vai morrer.
Não enquanto eu estiver aqui.
A puxo para cima e envolvo seu corpo com meu braço direito. Ela está trêmula. Não parece acreditar no que acabara de acontecer.
Eu fico estático.
Essa menina é uma fraqueza. Uma fraqueza exposta.
— O que tá acontecendo aqui? — Quatro surge afobado
— Eu quero todo mundo na enfermaria agora mesmo. — digo ríspido
Todos vamos caminhando e eu vou na frente, obrigando que as pernas de Maria se movam e a tirem do lugar. Às vezes ela tropeça. Parece estar em choque.
Sua mão esquerda segura meu colete de forma firme, deixando evidente que não quer que eu me afaste.
Lá no fundo, eu realmente não quero me afastar.
Chegamos na enfermaria e Munick e Thomas colocam Timothy em uma das macas. Drew está ali, sem camisa e com um curativo enorme no abdômen.
Pego Maria pela cintura e a sento na outra maca. Drew se levanta e vem até ela, mas eu me coloco entre eles, ficando de costas para ele.
— Alice, verifica a pressão dela, primeiro. — digo quando a ruiva vai na direção de Timothy
— Eric, a cabeça dele está aberta. — ela me encara
— Verifica a pressão dela. — digo mais firme e Quatro me encara
— Eu faço. — Quatro pega o aparelho e se aproxima de nós
Alice trata de estancar o sangue de Timothy e, Quatro, ao verificar a pressão de Maria, diz que está um pouco alta, mas nada de anormal.
Sinto um leve empurrão e Drew me dribla, a abraçando. Ela apenas apóia o queixo no ombro nu dele e diz que está bem.
— Certo, eu quero uma explicação. — coloco as mãos para trás — Agora!
— Estávamos no Fosso, com alguns iniciandos da Audácia. — Jessie diz
— Aí chegaram os três patetas aí e começaram a provocar o Drew. — Ali explica — Drew não entrou na pilha deles, mas Timothy pegou uma faca e enfiou na barriga do Drew.
— Ok. — digo analisando
— Quando eu cheguei, ajudei Maria a trazê-lo para a enfermaria. — Joanne diz — Não vi nada, só ouvi os gritos.
— Tem mais testemunhas? — olho para as amigas de Maria
— O grupo que estava conosco viu tudo. — uma delas afirma
— Ok, acordem a bela adormecida e a coloquem pra fora. — digo sério — Não criamos rebeldes, criamos soldados.
— Certo. — Joanne confirma
— Quatro, você e Joanne vão assegurar que ele saia sem causar mais nenhum transtorno. — ordeno
— Ok. — Quatro murmura
— E você... — me viro, encarando Drew, que solta Maria e me olha — Aprenda a se defender.
— Eu sei me defender! — ele rebate
— Sabe mesmo? — sorrio cínico e me aproximo, o encarando — Então me diga, Drew, por que Maria desmaiou o cara?
Um silêncio se faz e ele permanece me encarando.
— A ordem está dada. — digo para todos ouvirem e me viro para Munick e Thomas — Menos cinquenta pontos para vocês.
— Cinquenta? — Munick se mostra indignada
— Não temos cinquenta pontos. — Thomas murmura
— Ficam devendo, então. Vocês já não iam passar mesmo. — dou de ombros — Eu quero falar com você.
Dito isso, seguro no cotovelo de Maria e a arrasto pra fora dali de maneira apressada. Às vezes ela tropeça ao tentar me acompanhar.
Quando estamos nos corredores escuros dos apartamentos, a jogo contra a parede de um beco e seguro seu rosto com as duas mãos.
— Nunca mais. — a olho nos olhos — Nunca. Mais. — deixo bem claro — Defenda aquele cara na minha frente.
A tomo para mim, beijando-a arduamente. Suas mãos agarram meus cabelos e eu pressiono meu corpo no dela.
Puta que pariu! Uma fraqueza.
***
— Tá legal, qual é o lance entre você e a Maria? — Joanne pergunta ao se jogar no sofá do meu apartamento, com um copo cheio de destilado nas mãos
— Eu não... — franzo o cenho e respiro fundo — Tá tão óbvio assim?
— Você se desestabiliza perto dela, Eric. O que tá pegando?
— Não sei o que temos. Transamos, eu a agarro pelos corredores escuros, mas não passamos disso. — coço a cabeça — Ela não me n**a, mas parece tão perdida quanto eu quando acabamos e nos encaramos.
— Vocês estão apaixonados.
— Isso não existe. — franzo o cenho e a olho — Eu só a quero por perto.
— Tá vendo só? — me encara — Existe sim. Você fica abalado quando a vê com Drew ou outro cara. Os outros talvez não percebam, mas eu sou sua amiga, Eric. A única, devo lembrá-lo. Eu percebo.
— Odeio o Drew.
— Só porque ele é o melhor amigo dela.
— O jeito que ele olha pra ela, o jeito como está sempre ao redor dela, feito uma fera protegendo a caça. — murmuro — Ele não quer só ser amigo dela.
— E isso te incomoda.
— É, feliz não deixa. — bebo um gole do meu destilado
— Você tá apaixonado, amigo. E que bom que é por alguém como a Maria.
— Não existe espaço pra paixão em mim. — a olho
— Você sempre disse que tinha um vazio por dentro. — ela pondera — E se esse vazio acaba de ser preenchido?