[NARRADO POR MURILO FERREIRA ] Fechei a porta do quarto devagar, como se qualquer barulho fosse acordar as lembranças junto com o Murilinho. Mas a verdade é que quem tava acordado era eu. A alma. O passado. A promessa. Desci devagar pela escada, os passos mais pesados que os ombros. Ainda escutando a voz do meu pai na cabeça. Ainda sentindo o cheiro do cigarro dele grudado em mim como tatuagem invisível. Cheguei na sala e parei. A cozinha tava acesa. Luz amarelada, morna. Vida. E lá estavam elas. Minha mãe, Jussara, com aquele avental remendado que ela jurava que ia jogar fora há anos, mexendo a panela como quem rege orquestra. E Melissa... Melissa do meu lado esquerdo da alma... cortando legumes na pia, descalça, cabelo preso de qualquer jeito, rindo de alguma piada que eu perdi. A

