Nando narrando
Meu nome é Fernando Alencar.
Mas ninguém me chama assim.
Pra todo mundo eu sou Nando da VG.
Quando meu nome sobe o morro, as pessoas já sabem quem está chegando.
Os moradores me respeitam.
Os inimigos me temem.
E os canas odeiam o fato de eu continuar vivo.
Estou parado na varanda da minha cobertura observando o Vidigal lá embaixo.
A comunidade está tranquila.
O baile acabou cedo.
Os bares continuam cheios.
As crianças ainda brincam na rua.
É por isso que eu faço tudo isso.
Muita gente fala sem conhecer a realidade daqui.
Mas eu conheço.
Conheço cada beco.
Cada viela.
Cada família.
Se um morador passa necessidade, eu fico sabendo.
Se um moleque começa a andar com gente errada, eu fico sabendo.
Se alguém encostar em trabalhador, eu fico sabendo também.
E aí o problema deixa de ser dele.
Passa a ser meu.
Passei a mão na Glock presa à cintura.
Mania antiga.
Aqui ninguém vive relaxado.
Quem relaxa vira saudade.
Tenho vinte e seis anos.
E carrego mais cicatrizes do que muita gente de sessenta.
Algumas foram feitas por faca.
Outras por bala.
As piores não aparecem.
Essas ficam escondidas.
Toda noite eu fecho os olhos e vejo os mesmos rostos.
Os mesmos tiros.
Os mesmos enterros.
Os mesmos amigos caindo na minha frente.
Principalmente ele.
VN.
Até hoje consigo lembrar do estampido.
Do sangue espalhado pelo chão.
Do olhar dele apagando aos poucos.
E eu sem conseguir fazer nada.
Nada.
A mandíbula travou.
Naquela noite eu morri junto com ele.
A diferença é que meu coração continuou batendo.
Abri uma cerveja e tentei expulsar a lembrança da cabeça.
Olhei para a piscina nova.
A reforma da casa estava quase pronta.
Área gourmet.
Suíte ampliada.
Espaço de lazer.
Tudo do jeito que eu queria.
Lutei pra c*****o para conquistar cada tijolo daquela casa.
Ninguém me deu nada.
Comecei como aviãozinho.
Depois soldado.
Depois gerente.
Gerente-geral.
Até chegar ao topo.
E quando cheguei...
Descobri que o topo é o lugar mais solitário do mundo.
Meu celular vibrou.
Ignorei.
Vibrou novamente.
Peguei o aparelho.
Uma notificação do sistema da comunidade.
Venda de imóvel.
Nada fora do normal.
Abri por curiosidade.
Uma mansão tinha sido vendida.
Uma das maiores do Vidigal.
Piscina.
Sauna.
Vista para o mar.
Duzentos e cinquenta milhões.
Assobiei.
Quem comprou tinha dinheiro para jogar fora.
Continuei lendo.
Foi quando vi o nome.
Lorena Amaral.
Meu sorriso desapareceu.
Amaral.
Conhecia aquele sobrenome.
Conhecia muito bem.
Pesquisei imediatamente.
A foto apareceu na tela.
E eu fiquei imóvel.
Caralho...
A mulher era linda.
Loira.
Olhos claros.
Cabelo comprido.
Corpo escultural.
Aquelas curvas pareciam desenhadas por um artista.
Mas não foi isso que me fez travar.
Foi quem estava ao lado dela.
Delegado Amaral.
O filho da p**a que matou o VN.
Meu sangue ferveu na mesma hora.
A lembrança do disparo voltou.
A mesma raiva.
O mesmo ódio.
A mesma vontade de arrancar a alma daquele desgraçado com as próprias mãos.
— Tu tá de sacanagem...
Ampliei a foto.
Lorena sorria para a câmera.
Perfeita.
Inocente.
Completamente diferente do monstro com quem era casada.
Fiquei encarando a imagem por vários segundos.
Mais do que deveria.
Muito mais.
Alguma coisa nela me chamou atenção.
Talvez o sorriso.
Talvez o olhar.
Talvez o fato de ser proibida.
Quando percebi, ainda estava olhando para a foto.
— Esquece isso, Nando.
Murmurei para mim mesmo.
Mas continuei olhando.
Porque pela primeira vez em muito tempo...
Uma mulher tinha conseguido prender minha atenção.
E isso era um problema.
Um problema enorme.
Porque Lorena Amaral não era apenas uma mulher bonita.
Ela era a esposa do homem que eu mais odiava no mundo.
E alguma coisa me dizia que a chegada dela ao Vidigal estava prestes a virar minha vida de cabeça para baixo.
Peguei o rádio imediatamente.
— Atenção geral.
A resposta veio em segundos.
— Fala, chefe.
— Quero todo mundo na base agora.
Meu olhar voltou para a foto de Lorena.
O coração estava calmo.
Mas alguma coisa dentro de mim não estava.
E eu odiava quando meus instintos começavam a gritar.
Porque eles quase sempre estavam certos.
Todos os meus principais homens estavam reunidos.
O silêncio dominava o salão.
Joguei a foto na televisão.
Assim que a imagem apareceu, vários assobios ecoaram.
— c*****o, chefe... — murmurou o Doca. — O delegado escolheu bem.
Alguns riram.
Eu não.
Continuei encarando a tela.
— Tá vendo essa mulher aqui?
— Difícil não ver — respondeu Triplo X.
Mais algumas risadas.
Bati a mão na mesa.
O barulho ecoou pelo salão.
Na mesma hora o ambiente ficou em silêncio.
— Tô parecendo comediante pra vocês?
Ninguém respondeu.
— Então presta atenção.
Cruzei os braços.
— Essa mulher é a Lorena Amaral.
Alguns rostos mudaram imediatamente.
— Amaral? — perguntou o PC.
— Isso mesmo.
— Mulher daquele delegado filho da p**a?
— Mulher dele.
O silêncio voltou.
Pesado.
Sufocante.
Foi o WR quem falou primeiro.
— Chefe... isso tá com cara de armadilha.
— Também acho.
— Ninguém compra uma mansão aqui sem motivo.
— Principalmente mulher de delegado — completou o DG.
Assenti lentamente.
— É exatamente por isso que vocês vão manter os olhos abertos.
— Quer que a gente siga ela? — perguntou o JP.
Meu olhar encontrou o dele.
— Não.
— Não?
— Ainda não.
— E se ela estiver passando informação?
Caminhei devagar pelo salão.
— Escuta uma coisa e grava na cabeça.
Parei bem no centro.
— Erro de inimigo eu aceito.
— Erro de polícia eu aceito.
— Erro de informante eu aceito.
Meu tom ficou mais frio.
— Agora erro de homem emocionado por causa de mulher...
Balancei a cabeça negativamente.
— Esse eu não perdoo.
O salão inteiro ficou quieto.
— Porque uma b***a bonita já derrubou mais império que muito fuzil.
Alguns abaixaram a cabeça.
Sabiam que eu estava falando sério.
Apontei para a tela.
— Ela é casada com o homem que matou o VN.
Ninguém ousou interromper.
— Então não quero gracinha.
— Não quero conversa.
— Não quero foto.
— Não quero ninguém tentando aparecer.
O BC levantou a mão.
— E se ela puxar assunto?
— Educação.
— Só isso?
— Só isso.
— E se ela insistir?
Sorri sem humor.
— Aí vocês mandam ela falar comigo.
Os homens trocaram olhares.
O Doca soltou uma risada.
— Coitado do delegado.
Alguns riram.
Eu permaneci sério.
— Não estou brincando.
O sorriso desapareceu do rosto deles.
Voltei a olhar a foto.
Lorena Amaral.
Bonita demais.
Perigosa demais.
E alguma coisa dentro de mim estava avisando que aquela mulher ainda ia dar uma dor de cabeça do c*****o.