📍Complexo do Alemão, sexta-feira, 23:00
(Emanuelle, narradora personagem)
As coisas aqui em casa ainda parecem um quebra-cabeça. Eu sei que a convivência com o Caio nunca vai ser fácil, mas depois de quatro meses, eu meio que me acostumei com o jeito dele. Ele m*l aparece em casa, e quando aparece, parece que faz questão de não olhar na minha cara. Talvez seja melhor assim. Eu também não faço questão de puxar assunto.
Com a Duda e a Bia é outra história. Apesar de todo o caos, elas são a minha melhor parte aqui. A Duda tem um jeito engraçado de me chamar de “irmãzinha caçula”, mesmo a gente sendo quase da mesma idade. Já a Bia… ela é mais quieta, mas o jeito dela me acalma, como se ela fosse uma âncora em meio a essa bagunça.
E o Pedro (Lobato)… Ele tem sido meu refúgio. Não que ele seja perfeito, porque definitivamente não é, mas ele me distrai, me faz rir. É diferente do Caio, que acha que tem o direito de decidir tudo por mim. Quando comecei a sair com o Pedro, o Caio teve um surto. Disse que eu não sabia quem ele era de verdade, que ele não era “cara pra mim”. Como se ele, o Coringa, fosse o modelo de moralidade.
Mas eu tô bem com o Pedro. Ele não tem pressa, e isso me dá espaço pra respirar. Por mais que ele seja irritante às vezes, ele também sabe ser doce. Eu só espero que, por uma vez na vida, o Caio me deixe em paz.
Enquanto tudo isso acontece, a saudade da minha mãe ainda me aperta. Por mais que eu esteja brava, o vazio que ela deixou é maior que a raiva. Não é a mesma coisa conversar com ela pelo celular. Quando desligo, sempre fico com essa sensação de que algo está faltando.
Aqui, as coisas seguem meio paradas. Talvez seja o silêncio antes de alguma tempestade. E, sinceramente, espero que essa tempestade demore a chegar.
Continuei olhando meu reflexo no espelho, ajeitando uma mecha de cabelo que insistia em cair no rosto. A verdade é que eu estava mais nervosa do que queria admitir. Não era só pela adrenalina de sair escondida, mas também porque o Caio andava muito desconfiado. A última coisa que eu precisava era ele descobrir e transformar a noite em um inferno.
Depois de postar a foto, olhei as notificações subindo rápido. O Pedro foi o primeiro a comentar:
Pedro ❤️: “Linda demais, princesa 🫶”
Ri baixinho, achando graça do excesso de emoji, mas ao mesmo tempo gostei da atenção. Enquanto esperava ele chegar, sentei na cama com o coração disparado. De repente, ouvi um barulho na janela. Levantei de um pulo, já imaginando que era o Pedro.
Abri a cortina com cuidado e lá estava ele, com aquele sorriso de canto que misturava charme e atrevimento.
Lobato: Bora, gata? Tá esperando o quê?
Fiz sinal para ele esperar e saí do quarto de fininho, tentando não fazer barulho. Passei pela sala com o coração na boca, mas o Juca estava lá fora, fumando distraído. Aproveitei o momento e escorreguei pela porta dos fundos, dando a volta na casa até onde o Pedro estava.
Ele me puxou pela mão, rindo baixinho.
Lobato: Tu é ninja, hein? Nem o Coringa te pega assim.
Manu: Se ele souber disso, a gente tá ferrado.
Caminhamos rápido até a moto dele. Pedro me entregou o capacete e esperou eu subir.
Lobato: Segura firme, hein?
Manu: Vai devagar, pelo amor de Deus.
Lobato: Relaxa, confia no pai aqui.
Revirei os olhos, mas não pude deixar de rir. A moto arrancou, e o vento gelado da noite bateu no meu rosto.
Chegamos ao baile em menos de quinze minutos. O lugar estava lotado, com música alta e uma multidão se espalhando pelo espaço. Luzes coloridas piscavam, e o cheiro de churrasco e fumaça de cigarro se misturava no ar.
Pedro me ajudou a descer da moto, e quando ele segurou minha mão, senti um arrepio. Ele me puxou para mais perto.
Lobato: Pronta pra curtir a noite?
Manu: Só se você me prometer que não vai aprontar.
Lobato: Eu? Aprontar? Jamais. — Ele deu um sorriso maroto que me fez duvidar de cada palavra.
Nosso momento foi interrompido por um grupo de amigos dele que nos viu chegando. Eles começaram a cumprimentá-lo com risadas e tapas nas costas, e ele parecia à vontade no meio da bagunça.
Enquanto Pedro conversava com os amigos, comecei a me sentir um pouco deslocada. Era um ambiente muito diferente do que eu estava acostumada, mas tentei relaxar. Não tinha vindo até ali pra ficar tensa.
De repente, quando olho pro camarote, vejo o Caio com outra mulher abraçando ele.
Manu: Pedro… - Ele me olhou. - olha.
Lobato: O que tem?
Manu: É melhor a gente não ficar aqui. Se o Caio ver, ele vai te m***r.
Lobato: Tu que sabe, amor. Se não quiser ficar aqui, a gente vai pra pista, pra um lugar mais calmo e pá.
Manu: Acho que é melhor.
Pedro mandou eu entrar no carro enquanto ele falava no celular. Entrei no carro do Pedro e ele parecia mais distante do que nunca. A tensão no ar era palpável, e eu podia sentir seu nervosismo sem que ele precisasse dizer uma palavra. O carro estava ligado, mas ele não partia. Ficamos ali, em silêncio, por alguns segundos, e isso só aumentava minha preocupação.
Manu: Pedro, o que tá acontecendo? - Eu estava tentando entender o que ele estava sentindo, o que ele estava pensando, mas ele não parecia disposto a me dar explicações.
Eu sabia que ele estava desconfortável, mas eu não queria ser insistente. Então, fiz o que podia para não pressionar. Mas, conforme ele começou a sair do morro, algo dentro de mim começou a mudar. O ambiente estava estranho, e Pedro parecia evitar olhar para mim a todo custo. O fato de ele não trocar um olhar sequer me fez sentir que algo estava errado.
O silêncio entre nós era opressor, e eu não conseguia mais me conter. Comecei a me perguntar o que estava acontecendo, porque Pedro nunca foi assim. Eu o encarei mais uma vez, tentando perceber algum sinal, algo que me dissesse o que ele estava pensando, mas ele apenas mantinha os olhos fixos na estrada, como se estivesse fugindo de algo.
Foi aí que minha preocupação se transformou em pânico. Fui subindo a adrenalina, e minha mente começou a correr solta.
Comecei a tirar o cinto de segurança, a sensação de que precisava estar pronta para qualquer coisa tomando conta de mim.
Manu: Pedro, para o carro!
A voz dele estava tremendo quando ele respondeu, acelerando mais, quase como se estivesse tentando fugir de alguma coisa.
Lobato: O seu pai vai me m***r…
As palavras caíram no ar, fazendo meu estômago revirar. Aquilo não fazia sentido. Eu precisava saber mais.
Manu: O que você tá falando? - Eu perguntei, assustada, tentando processar o que ele acabara de dizer.
Pedro começou a diminuir a velocidade do carro, mas não o suficiente para me deixar tranquila. O medo crescia dentro de mim, e a ansiedade me fazia sentir que, a qualquer momento, tudo poderia explodir.
Lobato: Quando nós chegar em um lugar, eu te explico. - Ele parecia mais nervoso do que nunca, o rosto tenso, como se algo o estivesse consumindo por dentro. Ele então colocou o meu cinto de segurança de volta, e eu não pude deixar de notar o quão apressado ele estava. - Joga o teu celular pela janela.
Manu: An? - A confusão tomou conta de mim. Por que ele queria que eu fizesse isso? O que estava acontecendo?
Lobato: Joga o celular. Não discute, Manu, faz o que eu tô pedindo.
Eu fiquei encarando o meu celular por um tempo, sem entender. Mas o tom sério e urgente na voz dele me fez perceber que não tinha escolha. Sem pensar duas vezes, joguei o celular pela janela, sentindo uma sensação estranha de perda e desorientação.
Enquanto o carro seguia seu caminho, a minha mente estava em estado de alerta total. Eu não sabia o que estava acontecendo, mas sentia que não ia ser nada bom. Tudo parecia correr mais rápido do que eu conseguia acompanhar.
Foi quando comecei a perceber que um carro estava nos seguindo, uma luz forte iluminando o retrovisor. E, antes que eu pudesse reagir, Pedro acelerou ainda mais o carro, a pressão nos meus ombros aumentando a cada segundo. O som dos motores se misturava com o som da minha respiração, e tudo dentro de mim gritava de pavor.
Manu: Pedro, a gente vai morrer. - A voz falhou no meu grito, mas as palavras ainda saíram, carregadas de pânico. - Para de acelerar!
Lobato: Não tenho o que fazer… - Ele respondeu com um olhar de desespero, a voz tremendo. Manu, eu não sou o filho do Tubarão…
Manu: O quê?
Eu encarei Pedro, confusa, sem entender nada do que ele estava falando.
Lobato: Foi o Veiga, o Veiga, o filho do Tubarão… - Ele respirou fundo, tentando encontrar forças. - O Veiga disse pro teu pai que eu sou o filho do Tubarão, mas na verdade, ele que é o verdadeiro filho. Não sou. Ele é o filho da p**a, Manu, é ele! Ele fez isso pra tirar o dele da reta e acabar com a minha vida.
Manu: Quem é Tubarão?
Lobato: O cara que tava te ameaçando, o inimigo do teu pai.
Minhas lágrimas começaram a escorrer enquanto eu tentava entender a loucura que estava acontecendo. Eu não sabia mais em quem confiar, e tudo parecia girar fora de controle.
Manu: Me explica direto! - A dor no meu peito me impediu de pensar direito. Eu não conseguia mais processar.
Foi quando Pedro parou o carro bruscamente, fazendo o motor roncar como se estivesse se preparando para o último ato. Ele me olhou com uma intensidade desesperada, e, em um impulso, ele me beijou. Um beijo rápido, mas carregado de uma urgência que não me deixava respirar.
Manu: Pedro… - Eu não conseguia entender. O medo ainda estava em mim, mas a preocupação com ele tomou conta.
E foi nesse instante, no último segundo, que o carro se aproximou, cercando o nosso. A visão ficou turva, a adrenalina tomou conta do meu corpo, e os carros que nos perseguiam agora estavam ao nosso redor. Eu não podia processar o que estava acontecendo quando os tiros começaram. O som deles foi como uma explosão em minha mente, e tudo ficou em câmera lenta.
As balas atingiram o carro, estilhaçando os vidros, e eu só pude sentir a dor.