Fazia algumas anotações do progresso da saúde de Katie Bryce depois do almoço, quando os pais dela entra de repente no quarto, indo até a filha.
– Katie, amorzinho, mamãe e papai estão aqui – diz a mãe acariciando seu rosto.
– Ela tomou um sedativo para a tomografia, está um pouco grogue – digo atraindo ambos os olhares, me arrependendo no mesmo instante.
– Ela vai ficar boa? – A mãe pergunta rapidamente.
– Nosso médico disse que talvez ela precise ser operada. É verdade? – O pai pergunta.
– Que tipo de operação? – A mãe volta a questionar, os olhos fixos em mim.
– Ela...bem... – balbucio sem saber o que dizer, nem por onde começar a responder – Sabem de uma coisa? Não sou a médica. Sou médica, mas não sou a médica responsável pela Katie, então vou chamar o médico responsável para vocês – Saio o mais depressa que posso, sem saber enfiar minha cara com a minha gafe, quase que trombando em Dra. Sanders no corredor.
– O que foi?
– Os pais da Katie têm perguntas. Você fala com eles?
– O caso da Katie pertence ao Dr. Reed. Ele está ali – diz apontando em direção da recepção, continuando a andar.
Nossos olhares se cruzam a medida que me aproximo, meu coração acelera a medida que encurto o espaço, com minha mente me lembrando do poder daquele homem na cama.
Inspiro profundamente ao me colocar em sua frente.
– Dr. Reed – digo tentando mostrar a naturalidade que, não tinha naquele momento.
Ele sorri malicioso, me olhando de cima a baixo.
Aqueles olhos... p**a merda.
– Dr. Reed? Hoje pela manhã era Sebastian – diz um com leve sorriso nos lábios rosados, que me lembrava dele fazendo outra coisa mais... em baixo.
– Por quê não me disse que era um Reed? – pergunto sem rodeios. Odiando o fato de ter sido pega desprevenida.
– Você não me disse no que trabalhava – lembra – Talvez se tivesse dito, saberíamos que iríamos trabalhar juntos – Ele dá um passo na minha direção – E disse que não nos veríamos mais. Apesar de eu querer repetir aquela noite – Morde levemente o lábio inferior.
– Não vai ter outra noite – digo séria, mantendo uma postura inicial de não se envolver – Os pais da Katie querem ver você – Sustento seu olhar por alguns segundos, até sermos interrompidos.
Meu bip toca na minha cintura, indicando a sala de cirurgia 3.
Me preparo antes de entrar na sala, vestindo roupas cirúrgicas, incluindo bandana, máscara e luvas brancas plásticas.
Toda sala já estava preparada, inclusive o paciente já estava na mesa cirúrgica.
Dra. Sanders já estava ao lado do paciente quando me aproximo hesitante.
– O.k Jones, vamos ver o que sabe fazer – diz me olhando.
– Bisturi – peço, mantendo a voz firme. Não precisava saber do meu nervosismo.
– Bisturi – Uma enfermeira me entrega.
Inicio um corte na área demarcada.
– Mais pressão – Dra. Sanders orienta – A carne humana é uma concha grossa. Vai fundo – Continuo o corte, colocando um pouco mais de força.
– Pinça – peço.
– Pinça.
Minhas mãos procuram no corte, o que tanto queríamos.
– Grampo.
– Grampo.
Consigo abrir o peritônio.
– Bisturi – peço novamente.
– Bisturi.
– Apêndice removido – Retiro o pequeno órgão, colocando em uma tigela de metal.
– Nada m*l – Dra. Sanders elogia, dando um leve sorriso.
– Obrigada – Estava tudo sob controle. Só precisava terminar e estaria livre para minha vida de interna.
– Agora só precisa inverter o toco no ceco – Inicio o procedimento, não conseguindo me concentrar no que estava fazendo. Não com tantos olhares sobre mim – e puxar as alçada simultaneamente, mas tenha cuidado para não... – Puxo com força os fios, os arrebentando – quebrar. Rasgou o ceco. Arrumou um sangramento – O sangue começará a brotar rapidamente – Está enchendo de fezes. O que faz agora? – Meu coração dispara e minha respiração se torna pesada. Não sabia o quê fazer.
Tento voltar para o foco.
– Hã...hã... – balbucio com um branco na mente, os olhos fixos nada luvas sujas de sangue.
– Pense. Inicie a aspiração e procure as alças antes que ela sangre até a morte – Ela olha para a enfermeira ao lado – Dê um grampo para ela.
– Pressão caindo – Outra enfermeira avisa.
– Vamos. O que está esperando? Aspiração – Não conseguia me mexer. O monitor ao lado não parava de apitar, indicando a queda na pressão arterial.
Sabia o que era para fazer. Sabia. Estava na ponta da língua.
– Pressão caindo muito. Dra. Sanders.
– Sai da minha frente – Ela me empurra, tomando meu lugar na cirurgia – Tirem ela daqui.
Observo por alguns instantes se mover com agilidade, antes de uma enfermeira indicar gentilmente a saída.
Pressiono os lábios com força, evitando a vontade de chorar.
Era uma cirurgia simples de apendicite. Não tinha como errar e simplesmente travei.
Travei na primeira oportunidade que tive para mostrar meu possível potencial.
Um potencial criado pela minha mãe.
Seguro a pia de metal do lado de fora da sala, inspirando e expirando algumas vezes, numa tentativa de me manter calma.
Tiro toda a roupa cirúrgica, deixando para lavar as mãos por último.
Decidida em terminar meu plantão de 48 h.
Havia se passado apenas dez horas, o que significava, que precisava poupar energias, para não parecer uma completa s*******o na frente dos residentes.
Entro no elevador, apertando o botão do andar da cirurgia, tendo as portas impossibilitada de fechar por Sebastian.
– Nos encontramos de novo – diz se colocando ao meu lado – Vi a cirurgia. Estava se saindo bem.
– É. Estava – concordo mau humorada.
– Ficou nervosa.
Olho para ele séria.
– Sei que fiquei nervosa. Era minha primeira cirurgia de apendicite.
– Sabe o que pareceu para mim? – Ele se encosta na parede do elevador, se virando para mim – Não era a mulher do bar.
– A mulher do bar não existe aqui.
Ele ergue uma sobrancelha intrigado.
– Então, fora daqui ela existe?
Sabia onde exatamente o rumo em que aquela conversa iria nos levar e a resposta continuava sendo não.
– O que aconteceu... entre nós... não vai mais acontecer – digo forçando um sorriso, tentando ser o mais clara possível.
Ele dá de ombros, virando o corpo para frente.
– Está bem.
– Sério?
– Sério – confirma.
Havia sido mais fácil do que imaginei.
As portas do elevador abrem e posso finalmente sair dali, deixando tudo o que aconteceu para trás.