O Eleven estava cheio naquela noite, do jeito que sempre ficava quando Daniel aparecia sem aviso, porque o maître espalhava a notícia em silêncio e de repente todo mundo tinha reserva. Ele não se importava com isso. Comeu, fechou o acordo que precisava fechar com três palavras onde outro homem usaria trinta, e saiu às dez e quarenta sem sobremesa e sem conversa.
Lucas estava encostado no carro do lado de fora com o celular na mão. Ethan ficava dois metros atrás, de costas para a parede, fazendo o que Ethan sempre fazia em lugares públicos que era parecer que não estava prestando atenção em nada enquanto prestava atenção em tudo.
"Limpo," Lucas disse sem levantar os olhos do celular. Era o relatório padrão. Nenhuma ameaça identificada no perímetro, nenhum rosto conhecido do submundo no raio de duas quadras.
Daniel colocou o casaco, deu dois passos em direção ao carro e então ela saiu do beco lateral em velocidade que não combinava com o jeito que o corpo dela estava se movendo.
Ele a viu tarde demais para desviar e cedo demais para não reagir. O instinto foi mais rápido que o pensamento, os braços se fecharam antes que ela chegasse ao asfalto, e por um décimo de segundo o cérebro de Daniel ficou esperando.
Esperando a queimação.
Ela não veio.
Ele ficou parado com ela nos braços tentando entender o que estava acontecendo no próprio corpo, porque não era ausência de dor, não era neutralidade, era outra coisa completamente. O lobo dentro dele, que latia ou roçava ou simplesmente urrava toda vez que uma mulher encosta nele, ficou quieto. Não o quieto de quem está aguardando. O quieto de quem reconheceu alguma coisa e parou de procurar.
Daniel olhou para ela.
Ela estava com a respiração acelerada, os olhos meio fechados, o rosto corado de um jeito que não era febre. Tinha um cheiro diferente nela, embaixo do suor e do medo, algo adocicado e quente que ele identificou em menos de dois segundos. Crimson Dust. Alguém tinha drogado aquela garota.
Ela forçou os olhos a abrirem e olhou para ele. Por um segundo ficou olhando como quem está tentando decidir se o que está vendo é real, e então disse duas palavras com o que parecia ser o último esforço consciente que tinha sobrando.
"Me ajuda."
E desmaiou.
Os flashes começaram antes que ela fechasse os olhos completamente. Três fotógrafos que esperavam na calçada de frente para o restaurante entraram em modo automático, e Daniel sabia exatamente o que aquelas fotos iam parecer: ele, de terno, segurando uma mulher desconhecida nos braços na calçada do Gold Coast às dez da noite. Até amanhã de manhã aquilo ia estar em todo lugar.
"Chefe." A voz de Lucas tinha mudado de tom.
Daniel já tinha visto. Cinco homens saindo do beco pelos quais ela tinha vindo, dois vampiros na frente pelo jeito que se moviam, três lobos atrás. Não eram amadores. Vinham em linha, sem pressa, com a confiança de quem está indo buscar algo que considera seu.
O que chegou na frente era um dos lobos, mais alto que os outros, com uma expressão que tentava ser autoridade e chegava só em arrogância.
"A garota pertence ao senhor Douglas. Entregue ela e não tem problema nenhum."
Daniel não respondeu de imediato. Ficou olhando para o homem com aquela atenção específica que Lucas descreveria depois para Ethan como o momento em que você percebe que fez a pergunta errada para a pessoa errada. Os olhos de Daniel mudaram por meio segundo, o dourado do lobo sobrepondo o cinza, antes de voltarem ao normal.
"Ethan," Daniel disse, com a voz no mesmo volume de sempre.
Ethan já tinha saído da parede.
O que aconteceu nos trinta segundos seguintes não foi uma briga. Foi uma comunicação. Ethan era mais rápido que qualquer um dos cinco esperava, e Lucas cobriu o flanco sem que ninguém tivesse pedido, e quando a poeira baixou os cinco homens de Douglas estavam na calçada com a clareza física de que aquilo não ia continuar.
Daniel abriu a porta traseira do carro, colocou Irina no banco com um cuidado que não combinou com a frieza da expressão, e fechou a porta.
O lobo que tinha feito as perguntas estava de pé ainda, a mandíbula travada, pesando as opções.
"Douglas não vai deixar isso passar."
"Passa o recado," Daniel disse, e entrou no carro.
Lucas ficou na calçada mais cinco segundos, só para garantir, depois entrou no banco do passageiro. Ethan foi para o lugar do motorista. Ninguém falou nada enquanto o carro saía do Gold Coast em direção ao norte.
Três quarteirões depois, Lucas virou no banco e olhou para Daniel, que estava com os olhos na garota desmaiada com uma expressão que Lucas não conseguia classificar.
"O que você vai fazer com ela?"
Daniel não respondeu.