Ferrugem Narrando
- O morro já tava diferente. Em dois dias… eu consegui sentir a mudança no ar. Tensão, expectativa e até mesmo medo.
- Do jeito que eu gosto, porque quando o medo começa a andar junto… é sinal que meu nome ainda pesa. Fiquei encostado, observando o movimento lá de cima. Cada vapor no seu canto, cada rádio chiando… mas nada desorganizado. Do jeito que eu quero.
— Redobra essa contenção aí — falei, apontando com a cabeça. — Quero olho em tudo. O moleque só assentiu e já saiu.
- Aqui não vou tolerar espaço pra erro. Ainda mais agora. Eu sei exatamente com quem eu tô mexendo, Terror não é qualquer um.Mas eu também não sou.
- Entrei pra sala da boca, joguei o mapa improvisado na mesa… rabiscado, cheio de marcação. Caminho de subida, ponto cego, saída de emergência, possível rota de invasão. Eu não voltei pra brincar. Voltei pra ganhar.
— Ele vai vir pela pressão — murmurei, passando o dedo por um dos acessos. — Sempre foi assim. Dei um sorriso de canto.
— E é aí que ele se fode.
- Apontei pra dois pontos específicos.
— Quero n**o pesado aqui… e aqui.
— Se subir, a gente fecha igual armadilha.
Levantei o olhar.
— E ninguém atira antes do meu comando. Quero eles entrando confiantes. - Fiz um gesto com a mão, como se fechasse algo.— Pra depois esmagar.
- O silêncio dos meus ali dentro mostrava que todo mundo entendeu. Passei a mão no rosto, sentindo a adrenalina subir.
— E outra… — continuei — espalha que tá tranquilo.
-Alguns me olharam sem entender.
— Deixa correr que eu voltei, que o morro tá de boa… quero ele confortável. -
Inclinei levemente a cabeça.
— Quanto mais ele achar que tá no controle… mais bonito vai ser quando cair.
Peguei a bebida, virei um gole seco. Minha mente já tava lá na frente, segunda madrugada. O momento exato. O encontro!
— Terror… — falei baixo, quase como se ele estivesse ali na minha frente. - Meu olhar endureceu.
— Tu mexeu comigo por tempo demais. -
Apertei o copo na mão. — Agora é minha vez. - Dei um sorriso frio.
— E eu vou arrancar tudo de tu, começando pelo que tu mais ama.O silêncio depois disso ficou pesado, porque todo mundo ali sabia… Aquilo não era só guerra de morro. Era pessoal. E guerra pessoal… Não tem limite.