Bianca Narrando
Esses dias tem sido um verdadeiro caos. A Eloah não aceita o fato de termos que voltar pra nossa casa e o GB também não me ajuda. Maldita hora que aceitei vir pra cá, sinceramente. Ela já tá ótima, ele também. Depois de dias turbulentos, cuidando de duas crianças praticamente, eu tô me sentindo exausta. Só queria a minha casa, mas isso tá parecendo impossível: ela não quer ir e ele não quer deixar ela ir. Toda vez que tento conversar como gente adulta, ele foge. Parece uma criança, faz todas as vontades dela, estraga ela todinha, e quando voltarmos pra nossa realidade, quem vai se f***r sou eu.
Sem contar que desde o primeiro dia, dormimos os três juntos. Parece que me apeguei a isso, mas não posso, é só um momento, não é real. E querendo ou não, quem muito se apega, muito se fode. Nós nunca ficamos, trocamos olhares intensos, algumas vezes ele surta quando tô no celular, mas não temos nada. Ele não toma iniciativa e, sinceramente, nem quero que tome, ia me confundir ainda mais a mente. Às vezes fico meio bolada: ele sai pra boca e eu já penso um monte de coisa, sendo que nem devia pensar. Nunca nem nos beijamos, isso é loucura. Aí quando ele volta, fico tratando ele com indiferença, depois lembro que não temos nada, é tudo muito estranho. Quando a Maria me mandou mensagem, quase soltei fogos, precisava muito conversar, colocar esse peso pra fora que tá me esmagando. Ela sabe que a Eloah esteve doente e tal, mas preferi evitar o contato. Ela não sabe que estou aqui e confesso que não falei por medo de julgamentos. Nunca me envolvi com bandido — não que eu esteja me envolvendo — mas jamais imaginaria que um dia estaria na situação que tô.
Ele foi muito bom com a Eloah nessas duas semanas que estamos aqui, confesso que comigo também. Ele mesmo dava os remédios, me ensinou mas ele gostava de fazer. Nos dois primeiros dias de antibiótico ela teve febre, ele dava banho nela com todo o cuidado, vendo que era menina. Resumindo: ela tá tendo um pai que nunca teve, mas infelizmente ele não é o pai dela e não posso deixar confundir a mente da minha irmã. Ela se apegou, mas preciso colocar um limite, ela tem que ver ele como um tio, amigo ou sei lá o quê. Mas como pai, não. Não é justo com ele e nem com ela. Depois ele enjoa disso, quem sofre é a minha irmã e a maior culpada da história vai ser eu, por não ter evitado tudo.
Tomei um banho rápido — de manhã já tinha tomado um mais calmo e feito minhas coisas. Aproveitei que deixei a Eloah com a tia Solange e quando voltei me arrumei, precisava organizar a minha mente. Ele saiu de casa bem cedo e não voltou, a gente não se fala por celular nem nada, acho que nem temos o número um do outro. Me arrumei rápido, tava doida pra sair de casa. Coloquei um short jeans de cós alto, um cropped da Adidas, uma maquiagem leve, passei hidratante, desodorante e perfume. Meu cabelo tava lavado e seco, glória a Deus. Fechei tudo e saí de casa. Mesmo ele não estando, ficam dois seguranças na porta, passei por eles e meti o pé linda.
Encontrei a Maria e dei aquele abraço apertado, que saudade eu tava dela. Descemos o morro dispostas a ficar louconas e botar o papo em dia. Achamos um bar a nossa cara e amei, aqui vai ser meu novo point. Sentamos numa mesa mais afastada, acho que essa é a que eles reservam pros bandidos, bem distante, hahaha. Pedimos um chope da Brahma e começamos os trabalhos, o calor tá pedindo aquela cerveja estupidamente gelada que desce refrescando até a alma.
— Amiga, tenho tanta coisa pra falar e não sei nem por onde começar, hahaha. — Falou ela toda animada.
— De preferência do começo, amiga, hahaha. Anda logo que eu também tenho muito pra contar. — Disse rindo.
— Não sou mais virgem e perdi com o dono do morro, vulgo Terror. — Ela falou e eu me engasguei com a p***a da cerveja.
— Gerente, por quanto tempo eu dormi? Que choque! Por isso ele fez aquela graça lá no pagode, vocês já tavam se esfregando né, sua safada? — Falei rindo.
— Não amiga, mas foi nesse dia que tudo começou. É uma longa história, ele me tirou de um cativeiro. Quando estiver pronta te conto tudo, mas aí ele me deu uma casa pra morar. A mesma pessoa que me mantinha presa enviou fotos comprometedoras de câmeras de onde eu ficava, então ele decidiu que eu tinha que morar na casa dele e deu nisso tudo. — Resumiu ela.
— Que babado, tô chocada. Mas e aí, foi bom? Foi gostoso? É o que importa. — Falei rindo.
Ficamos trocando uma ideia gostosa e acabei falando sobre mim. Ela me deu vários conselhos, me deixando mais tranquila. Disse que se o GB não estivesse afim de nada sério, ele não brincaria com uma criança, não confundiria a mente da minha irmã. Talvez ela tenha razão, mas eu não o conheço, não sei nada sobre ele. O tanto de homem escroto que existe não tá escrito, ele pode sim ser um desses. Quando ela falou que perdeu a virgindade, correu um frio na espinha: eu nunca vou poder falar isso. Porque eu não perdi, me tiraram ela. Nem sei como vai ser se um dia eu t*****r, não vai ser com quem tirou, mas sim com quem me tocar com o meu consentimento. Muito estranho pensar sobre isso, c*****o. Mas deixei esses pensamentos de lado e aproveitei o clima.