09

826 Words
— Prefiro contar tudo de uma vez do que ficar revivendo isso aos poucos — disse ela, enxugando as lágrimas que insistiam em rolar pelo rosto. — Como você preferir. — Quando eles chegaram lá, neguei-me a ir, disse que ele não tinha o direito de me pegar como moeda de troca de uma dívida de quem já não estava mais aqui. Avisaram a ele e ele mesmo veio me buscar. Deu-me uma surra na frente de todos, me expôs ao ridículo, senti uma humilhação que não cabe em palavras. Apanhei tanto ao ponto de não conseguir nem entrar no carro sozinha. Depois disso, vivi naquela casa que fedia a drogas e bebidas.— completou ela, visivelmente abalada. — Então você estava lá contra a sua vontade? Por que não tentou pedir ajuda? — perguntei, já me levantando do sofá, possuído pela raiva. — Não tenho família por perto, e não há como pedir ajuda a pessoas que obedecem cegamente às ordens dele. O medo de apanhar novamente era maior que tudo. Tive que me recuperar sozinha daquela surra, sem ao menos ir ao posto para cuidar dos ferimentos. Foram longos dias com dores na coluna, nem sei se não fraturei alguma coisa. Não queria, e continuo não querendo, apanhar daquele jeito nunca mais. Desde então, não tentei mais nada para fugir; não havia o que ser feito, eu estava apenas sobrevivendo daquele jeito até você aparecer — respondeu ela, me olhando firme nos olhos. — Ele já abusou de você? — Perguntei, sentindo um aperto no peito, com medo da resposta. — Não quero falar sobre isso… me sinto suja, indigna de qualquer coisa. Você vai me olhar com nojo, e eu não quero isso — disse ela, desabando em choro. Via que aquilo realmente a feria profundamente. — Eu preciso saber de todos os detalhes. Não vou te olhar de forma nenhuma, muito menos com pena. Esse sentimento ninguém merece receber de ninguém. Você é uma vítima, não se culpe dessa forma, mano. Não faça isso contigo — falei, segurando o seu olhar com firmeza. — Toda vez que ele tentava algo, o m****o dele não respondia, então ele nunca conseguiu consumar o ato, ir às vias de fato. Mas ele me violentava de outras formas, passava a mão em mim, chupava meus s***s, tocava a minha i********e… e eu só sabia chorar, mas não podia fazer nada porque o medo de apanhar era maior que tudo. Se na rua, com as pessoas vendo, ele fez o que fez, imagine eu sozinha em uma casa com ele; ele me mataria. Mas a verdade é que quanto mais eu chorava e mais ficava com medo, parecia que mais ele sentia prazer — contou ela, completamente abalada. — Eu nem sei o que falar… sinto muito por você ter passado por tudo isso. Fica aqui, bem e em paz. Ele nunca mais vai chegar perto de você, te prometo isso. Agora eu vou ter que ir porque tenho que resolver umas paradas. Qualquer coisa, pede ao segurança que eu vou deixar aqui na porta para me chamar. Fé, mina! — Falei, já saindo pela porta. — Eu sabia que você iria ficar assim, por isso eu não queria falar. Mas fica tranquilo, eu me olho da mesma forma que você, sinto nojo de mim mesma — gritou ela pela porta. — Tá malucona? Não tô te olhando de jeito nenhum e já disse: nessa p***a toda, você é a vítima e o cuzão é ele. Eu só realmente preciso ir mesmo para resolver questões na boca. Fica tranquila. — falei, voltando até a porta onde ela estava. — Tudo bem. — disse ela, com indiferença. — Só me responde uma parada, você é virgem? — Perguntei no impulso, e no mesmo instante já me arrependi da pergunta. — Sim, como eu disse. Ele nunca conseguiu consumir o ato! Mas qual a relevância disso? — Questionou ela, incrédula. — Porque eu iria caçar ele agora até o inferno. Isso é algo que você tem que perder quando se sentir pronta e com alguém que escolher, não um estuprador de merda vir tirar de você à força. Vou lá, qualquer problema você manda me chamar ou anota meu número aí. — falei, soltando o ar que nem sabia que estava prendendo. — Eu não tenho celular. Mas fique tranquilo, vou ficar bem. Quem já morou no inferno, isso aqui é um luxo. — Disse ela, com um tom sarcástico, e entrou fechando a porta. Preferi não responder e saí de lá com a cabeça pegando fogo. Fui para a minha casa, peguei um iPhone que tenho guardado na caixa, vivo trocando de celular, aparelho comigo é como se fosse descartável, não dura muito. Toda hora quebro a tela e os caralhos, é o espírito do destruidor que carrego comigo. Mandei um vapor entregar o aparelho lá, com um chip já ativado e anotei o número para contato dela.
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