Acordei no meio da madrugada e não havia ninguém no quarto; pensei que ele tivesse ido embora, afinal, não é obrigação dele ficar aqui. Fiquei olhando para o teto, pensando em como eu era uma menina doce, mais leve, cheia de esperança e de amor pela vida. Mas fui testada, empurrada até o meu limite. Confundiram a minha calma com fraqueza. Pisaram, cobraram, machucaram. Agora é a minha vez de reagir a todos esses ataques; não vou mais sofrer, não vou mais chorar.
Não sei explicar o que estou sentindo, mas não quero mais viver nessa de "coitadinha". Preciso me reerguer e tomar as rédeas da situação. Sei que envolver a polícia nesse meio só vai me prejudicar mais; mesmo o Ferrugem sendo bandido, sei que por de trás dos bastidores, polícia e bandido são da mesma laia, uma briga feia para ver quem é pior. Talvez o melhor seja eu sair do Brasil, recomeçar a vida lá fora. Não sei até quando o Terror vai me proteger, ou até onde ele está disposto a ir por mim. Na verdade, não quero que ele assuma esse fardo; essa história é a p***a da minha vida, são os meus problemas, ele não precisa lidar com eles. A última ajuda que vou pedir é que ele me mande para o outro lado do mundo, sem deixar rastros. Para um lugar onde ninguém me encontre e eu possa recomeçar tudo de novo, longe dessa bagunça toda.
Fiquei matutando em tantas coisas. Mesmo tão ferida e machucada, ainda tenho sonhos, muita vontade de viver, inúmeras coisas para conquistar e, principalmente, evoluir como pessoa. Não posso me deixar contaminar por tudo isso; não posso me tornar uma pessoa r**m só porque fizeram m*l a mim. Cada um dá aquilo que tem dentro de si. E o meu pai me criou da melhor forma possível para que só existissem sentimentos bons dentro do meu peito, e é isso que vou honrar. Quero fazer a minha faculdade, crescer profissionalmente, ter uma carreira de excelência, uma vida estabilizada e estruturada. Quem sabe, no futuro, conhecer alguém legal, com os mesmos princípios e ideais que os meus, disposto a construir uma família ao meu lado: ter filhos lindos, uma relação saudável e viver de bem com a vida.
Ouvi o barulho da porta se abrindo e fui tirada dos meus pensamentos. Era ele; ele não tinha ido embora. Aproximou-se com o seu olhar sério, aqueles olhos castanhos escuros e cheios de solidão. Arriscaria dizer que, agora, nesse momento, parece que consigo ler um pouco de quem ele é. Não sei o que ele já passou na vida, mas coisa boa não foi. E de certa forma, talvez por isso se solidarizou com a minha história e se dispôs a me ajudar.
— Eai, tá melhor? Dormiu pra c*****o, em. — Disse ele, sentando na beira da cama.
— Dormi tudo o que não dormia há tempos, hahaha. Sinto-me nova em folha. — Falei, sorrindo de verdade.
— É assim que se fala, cabeça feita. — Respondeu ele, retribuindo o sorriso.
— Quero te pedir uma única e última coisa. Se você puder me ajudar, serei eternamente grata — na verdade, já sou muito grata por tudo — Falei, tentando segurar o choro.
— Fala aí. Tudo o que eu puder fazer para você se sentir bem, eu vou fazer. — Disse ele, e essas palavras acertaram o meu peito em cheio.
— Queria ir embora do Brasil, recomeçar a minha vida longe dessa confusão e desse psicopata. Lá acho que seria difícil ele ir atrás de mim, e eu poderia viver em paz. — Falei, mas sem conseguir olhar diretamente nos seus olhos.
— Tá malucona? Tu não sai mais do meu lado, não filha. Agora tu é minha responsabilidade. Até esse cara estar morto, e depois tu pode ir para onde quiser, mas eu sabendo onde você está, claro. — Disse ele, com firmeza, mas com um tom de brincadeira no final.
— Você não acha que já estou te dando trabalho demais? — Perguntei, olhando profundamente nos seus olhos.
— Você é um trabalho que eu gosto de ter. Agora vamos para casa, desenrolei tudo lá e você está de alta. — Disse ele, estendendo a mão para mim.
— Você é quem manda, chefe. — Falei, rindo.
— Gostei desse "chefe". A melhor forma mesmo é tu trabalhar pra mim. — Disse ele, brincando.
— Não sei trocar tiro e nem entendo de drogas, desculpa, mas vou ficar te devendo essa. — Falei rindo; que cara engraçado.
— E a esposa troféu? Esse seria um ótimo emprego. Vai tirar onda, sendo minha esposa troféu ao lado de um moreno desse tamanho aqui, qualquer uma queria. — Disse ele, se sentindo o máximo.
— Duvido muito. Se manca! Não tenho vocação para isso, muito obrigada mas dispenso. — Falei, incrédula com a sua fala.
— Ah, para. Não seria tão r**m assim! — Falou ele, fazendo uma cara de ofendido.
— Você se acha, né? Acho que já tem mulheres demais, não precisa disso. — Falei, começando a me irritar com esse rumo da conversa.
— Que mulheres são essas que eu não conheço? Hahahaha. — Disse ele, dando risada.
— Não faz o sonso. Vamos logo, antes que eu mude de ideia e prefira ficar aqui. — Disse, querendo acabar logo com esse assunto.
A médica apareceu para me passar as últimas recomendações. Antes de ir embora, conversei por meia hora com o psicólogo do plantão; marquei nova consulta para essa semana e também com o psiquiatra. Pareço a verdadeira doida do CAPS, mas é o que é. Entramos no carro e ele voltou à sua "skin" séria, posturada de sempre. Fiquei em silêncio e ele deu partida. Ao chegar ao destino, ele entrou direto na garagem da sua casa, o que me deixou sem entender nada.
— Por que está me levando para cá? A minha casa é lá, não aqui. — Falei, séria.
— A partir de hoje, a sua casa é aqui. E não tem estresse! — Disse ele, com firmeza total, sem dar espaço para discussão.
Calada eu estava e calada continuei. Mesmo achando tudo muito estranho, de fato me sinto mais segura com ele por perto. O que vai ser realmente difícil é conviver com esse homem vinte e quatro horas por dia. Não sei fingir costume. Ele é tão lindo e eu não estou acostumada com esse tipo de homem. De onde eu vim, os bandidos são podres de feios, o psicopata do Ferrugem que o diga. Esse aqui é um pedaço de m*l caminho. Não quero confundir as coisas, mas com tudo o que aconteceu hoje, fiquei realmente mexida. Todo esse cuidado comigo... não esperava por isso.