Cíntia Narrando
— Eu tô cansada… cansada de fingir que não sei, cansada de tentar enganar meu próprio coração. Porque eu sei quem o Leonardo é. Sei há muito tempo… só fui adiando encarar isso. Me agarrei nas migalhas de momentos bons, como se isso fosse suficiente pra sustentar uma vida inteira… mas não é. Nunca foi.
— E o pior é que não sou só eu… nunca fui só eu. Tem meus filhos. Sempre tem eles. E é isso que me prende, que me quebra, que me faz continuar mesmo quando tudo dentro de mim já pediu pra ir embora. Porque ser mãe é isso… é engolir o choro, é segurar o mundo nas costas e continuar de pé, mesmo desmoronando por dentro.
— Eu cresci sem ter ninguém pra me proteger… vendo minha mãe se acabar de trabalhar, tentando ser forte por nós duas. Eu prometi pra mim mesma que minha vida seria diferente… que meus filhos não iam sentir esse vazio que eu senti.
— Só que olha onde eu vim parar… Eu achei que o Léo era minha chance de mudar tudo. Achei que ele era a minha segurança, meu porto… mas era só ilusão. Uma ilusão bonita no começo, mas que foi se desfazendo aos poucos… até virar isso aqui. Medo. Insegurança. Dor.
— Minha mãe se afastou de vez… e eu não consigo nem culpar ela. Porque, no fundo, eu também não aceito essa vida. Eu só… não sei como sair dela.
— E agora essa guerra… esse clima pesado no Jorge Turco… parece que o ar ficou mais difícil de respirar. Eu olho pros meus filhos e meu coração aperta de um jeito que dói fisicamente. Dá medo de perder… dá medo de não conseguir proteger… dá medo de não dar tempo de mudar tudo.
— Eu só queria paz… só isso. Um lugar longe de tiro, longe de medo, longe dessa vida que eu nunca escolhi de verdade.
— Eu queria poder pegar meus filhos pela mão e ir embora… recomeçar… ser só mãe, só mulher… sem esse peso, sem essa dor constante.
— Mas a realidade é outra. Porque ser mulher de bandido não é só amar alguém complicado… é viver presa numa vida que cobra caro demais. E eu tô pagando… todos os dias.
— Eu lutei pra ser mais do que esse lugar… mais do que essa vida. Me formei, virei enfermeira… cada plantão é uma vitória silenciosa minha. É ali dentro do posto que eu sinto que ainda existe uma parte de mim que não se perdeu.
- Mas nem isso ficou imune… Em um desses plantões, num dia comum como qualquer outro, eu ouvi. Comentários jogados ao vento, risadinhas, detalhes… detalhes demais. Uma das meninas da enfermaria falando dele… do Dado… como se fosse nada. Como se fosse só mais um.
— E eu ali… parada, ouvindo tudo. Cada palavra foi como um soco. Eu senti meu corpo gelar, a garganta travar… mas eu não falei nada. Engoli seco. Fingi que não era comigo. Fingi que não doía. Mas doeu… doeu num lugar que eu nem sei explicar.
— Não foi só traição… foi humilhação. Foi sentir que tudo que eu sou… não é suficiente. Que eu não sou suficiente.
— Desde esse dia, eu nunca mais consegui olhar pra ele da mesma forma. O toque dele me incomoda, a presença dele me sufoca… e eu faço de tudo pra evitar.
— Sempre arrumo uma desculpa, cansaço, dor de cabeça, plantão puxado… qualquer coisa. Porque só de imaginar… já me embrulha o estômago. Aquilo mexeu comigo de um jeito que quebrou algo aqui dentro. Minha autoestima… minha confiança… minha vontade… tudo ficou abalado.
— E o pior é que eu guardo tudo pra mim. Porque quem eu vou contar? Quem vai entender? Então eu sigo… em silêncio. Cuidando de todo mundo… salvando vidas lá fora…Enquanto, aqui dentro… sou eu que tô me perdendo aos poucos.