Terror Narrando
- Sabe quando o desânimo bate e você não sente vontade de nada? Então, esse sou eu. Passei a tarde toda jogado no sofá e fumando, quando escureceu, subi pra fazer minha mala e meter o pé. No final, ficar esses dias fora vai ser bom pra mim também. Fui longe demais com tudo isso, nunca me permiti ter sentimentos por ninguém, na verdade nem é se permiti, nunca rolou e eu sempre me blindei. Quando deixei isso de lado e fiquei tranquilo quanto a isso, porque achei que era vacinado, me fudi. E o pior de tudo, por uma novinha que revirou minha vida toda, literalmente.
- Fiz minha mala no maior desânimo do mundo, tomei um banho rápido, me trajei. Passei perfume, desodorante, meus ouros, minha Glock e meti o pé do quarto, estava me fazendo m*l ficar ali. Tudo lembra ela nessa merda de casa. Desci e fui direto pra garagem tirar meu carro. Mandei a localização pro GB e meti o pé, decidi ir pro meu AP aqui em São Conrado mesmo, desci chinelando e cheio de ódio. Antes de ir pro apartamento dei uma volta pra espairecer, to agoniado. Sabe quando você tem que ir, mas na verdade você queria ficar? É esse sentimento que estou tendo.
- Cheguei no AP, tirei meu tênis e já peguei uma dose de whisky pra acompanhar com um baseado, a mente está a milhão. Fiquei escutando umas músicas, bebendo e fumando. Hoje esse desgraçado podia invadir, ele iria ver o que o Terror com ódio. Já estava meio embrazado, pensamentos a milhão, ela não mandou uma mensagem, então tá certa do que ela quer. Até prefiro assim, minha vida inteira fui sozinho e vou ser pra sempre.
- Já estava na onda quando meu celular toca e era o GB, já estava animado, contando que era o Ferrugem tentando alguma parada. Mas não, era a Maria no posto da Rocinha passando m*l, desmaiou na rua e os c*****o, os seguranças que levou ela e ligaram pro GB. Sai do AP feito um louco pra saber dela, isso tudo tá acabando com o nosso emocional e ela não ver isso. Cheguei lá já xingando na recepção querendo saber da patroa e me falaram que ela estava na sala de ultra, sai correndo pra lá e quando entrei me deparei com ela gritando em um surto psicótico ou sei lá que p***a é essa, dizendo que eu iria matar um bebê, que eu sou r**m e c***l, me olhava com medo e chorando muito.
- Eu não tive reação, fiquei parado e em choque. A enfermeira veio me empurrando para fora e eu continuei sem reação nenhuma. Que c*****o aconteceu aqui, o que ela pensa que eu sou? pera ai, ela tá grávida? Eu ouvi bebês. Minha vista começou a ficar escura, comecei a me tremer, uma falta de ar horrível, puxava o ar e não completava. Fui meio que desfalecendo e o GB veio correndo pra ajudar a enfermeira, depois disso não me lembro mais de nada.
- Acordei na maca em um quarto e sem entender o que aconteceu. Já levantei boladão e a enfermeira veio.
Enfermeira: Boa noite, Terror. Você teve uma crise de ansiedade, precisa se acalmar. Por favor! - Falou tentando me controlar.
Terror: Eu quero saber dela, o que ela tem. Que bebês são esses? São meus filhos? Eu não estou entendendo nada. - Disse confuso pra c*****o.
Enfermeira: Você que tem me dizer se é o pai. Se for, o médico irá conversar com você. Mas você precisa se acalmar, por favor. - Falou consertando o acesso na minha mão.
Terror: Só tira isso de mim que eu vou ficar suave, nunca mais vocês me furam. Se ligou? Essa p***a dói pra c*****o. - Disse puto.
Enfermeira: Foi só um calmante por conta da crise de ansiedade. Mas vou tirar! - Falou tirando o acesso, levantei da cama e fiquei sentado no sofá esperando o bendido médico vir falar comigo.
- Fiquei andando de um lado pro outro, assimilando tudo isso que rolou. A forma que ela me olhou, me cortou o coração. Parecia que ela estava vendo o d***o em forma de gente, e o pior de tudo é que eu nunca demonstrei nenhum lado r**m meu pra ela, muito pelo contrário. Ela só teve o melhor de mim, sempre. O que ninguém teve, ela teve e sem fazer esforço. Nunca mais vou esquecer o dia de hoje, isso doeu muito, foi desesperador ver ela gritando aquelas coisas horríveis pra mim. Tá maluco, queria apagar isso da mente, mas toda hora vem como um flash. O médico entrou pela porta e fiquei mais tenso ainda e querendo saber o que aconteceu.
Dr Fábio: Boa noite, Terror. Está se sentindo melhor? - Perguntou preocupado.
Terror: Estou bem. Pode falar sobre a Maria Clara por favor. - Disse sem rodeios.
Dr Fábio: Maria Clara chegou aqui desmaiada, com a pressão baixa e muito fraca. Fizemos diversos exames nela e descobrimos uma gravidez e uma anemia importante, porém normal para a gestação que é. Quando chegou, estávamos fazendo o exame de ultrassom para acompanhar tudo. E descobrimos serem dois bebês, mas temos um agravante. Um bebê está com o peso e tamanhos ideais para a idade da gestação e o outro nem tanto, está abaixo do peso e tamanho, o coração fraco e bombeando pouco. Ela precisa acompanhar essa gravidez minuciosamente. Digamos que o segundo bebê esteja lutando para viver. - Falou jogando isso tudo de uma só vez em cima de mim.
Terror: Então um deles corre risco de morrer, é isso? Ela já sabe disso? - Perguntei desnorteado.
Dr Fábio: Sim, é exatamente isso. Ela não sabe, não sei se é o momento certo pra ela saber. Porém ela precisa saber, nós médicos não podemos mentir quanto a situação real do paciente. - Falou e eu até concordo.
Terror: Eu vou tentar falar com ela, valeu Dr. - Disse agradecendo.
Dr Fábio: Se ela não quiser te ver, não insista. Aí você volta outra hora, pra não piorar a situação. Qualquer coisa só me chamar! - Falou dando as costas.