Fael Narrando
- Meu traço mais tóxico é não conseguir me desvincular dessa mulher. E, papo reto… tá f**a pro meu lado. Ela já deixou claro que não quer nada comigo.
- Meu pedido de desculpas não mudou o que eu disse, nem a forma como ela me vê. Pra ela, eu sou machista pra c*****o… e, sendo sincero, eu sei que errei. Falei coisa que não precisava, passei do limite. Errei a mão mesmo.
- Mas também não vou fingir que menti. Tudo que eu falei, pra mim, ainda é verdade. E no fundo eu sei que não teria estrutura pra assumir uma mulher que "trabalhasse" com o que achei que era. Sou sujeito homem… e assumo minhas próprias limitações.
- O problema é que, mesmo assim, eu não consigo ir embora. Naquele dia, na casa dela, ela simplesmente virou as costas pra mim. Saiu da cozinha, foi pro quarto e me deixou plantado na sala, esperando uma conversa que nunca aconteceu. Não insisti. Deixei ela na dela, deitei no sofá e apaguei ali mesmo.
- Ela achou que eu ia embora fácil.
Se enganou.
- No dia seguinte, quando ela acordou e me viu ainda ali, ficou incrédula. Nem falou comigo. Seguiu a rotina dela como se eu fosse invisível, e eu permaneci no sofá, quieto, parecendo até um o****o.
- Até que, do nada, ela começou a chorar.
A casa dela é pequena, mas ajeitada. Tudo organizado, limpo, no lugar. A cozinha é americana, então dava pra ver tudo dali do sofá. E foi ali que eu vi ela desmoronar… olhando pro celular, chorando sem conseguir segurar.
- Levantei e fui até ela. Perguntei o que tinha acontecido. Ela disse que tiraram ela do grupo do trabalho. Que o chefe mandou ir lá no dia seguinte pra assinar a demissão.
- Na hora, ela ficou perdida. E eu… eu fiquei triste, mas ao mesmo tempo com uma raiva absurda.
- Eu não ia deixar ela passar por aquilo sozinha. Já tinha sido escroto uma vez — não ia repetir o erro. Deixei o morro com o Dado e fiquei com ela, mesmo ela deixando claro que não queria minha presença. Falei o que dava pra falar, tentei acalmar. Ela descontou um monte em mim, falou coisa pra c*****o… e eu fiquei na minha. Engoli seco. Não era hora de piorar.
- No dia seguinte, fui com ela assinar a demissão. Não confio nesses caras. Sei bem como gostam de humilhar, de crescer pra cima dos outros. Não ia deixar ela sozinha, mesmo sabendo do risco de estar ali, no asfalto.
- Tinha quase certeza de que aquele lugar era do Terror. Só não falei nada porque, no fundo, eu não queria que ela voltasse pra lá nunca mais.
- Desde então, eu não desgrudo dela.
Durmo no sofá mesmo. Não faço questão de conforto. Só de estar ali, perto, já basta pra mim. Ela fala que não vai ter nada comigo, que eu tô me iludindo sozinho… mas, na minha cabeça, isso já é questão de tempo. Ela ainda não percebeu… mas, pra mim, ela já é minha.
- Com o dinheiro da rescisão, ela decidiu que queria sair do Jorge Turco. Disse que nunca gostou de lá, que foram os piores anos da vida dela. E eu entendo. O lugar mudou, virou outra realidade. Hoje é área de CV, e essas mudanças nunca são simples. Não é só território… são pessoas, histórias, riscos.
- Pensei rápido e sugeri a Rocinha. Falei que a gente podia ir pra lá. Que eu voltaria junto com ela. Ela não gostou muito da ideia de eu ir junto… mas quando ouviu “Rocinha”, os olhos até mudaram. Gostou. E como gostou.
- Avisei o Terror que ia voltar. Dado ficou no meu lugar, de frente, e entendeu numa boa. Nunca dei mancada, então minha palavra ainda tem peso.
- Só que tem uma coisa que ela não sabe.
A casa pra onde ela vai… é minha. E, querendo ou não, a gente vai acabar morando junto.
- Agora é só questão de tempo. Eu espero. O tempo que for. Porque, no final… Ela vai ser minha. De um jeito ou de outro.