Maria Clara Narrando
Nem nos meus piores pesadelos eu imaginaria viver o que vivi durante esses meses. As minhas forças praticamente se esgotaram, eu estava sobrevivendo do jeito que dava, mas já não tinha esperanças de que um dia conseguiria me livrar das mãos desse homem psicopata.
Faz basicamente seis meses que perdi o meu pai, e até hoje não entendo o motivo ao certo. A única coisa que martela todos os dias na minha cabeça é a ideia de que ele possivelmente estava doente e não quis me falar nada. Lembro que ele me pediu para assinar um papel sobre a minha tutela, caso um dia ele faltasse. Recordo como se fosse hoje: ele me chamou para conversar e disse que era necessário fazer isso por precaução, porque ninguém sabe o dia de amanhã. Mas geralmente quem tem pensamentos assim, ou está envolvido com o tráfico ou está doente em fase terminal. Tenho apenas dezessete anos, mas perder a minha mãe no próprio parto e morar em uma comunidade faz a gente amadurecer cedo, criar cicatrizes profundas.
Meu pai me fez assinar e disse que era por segurança. Assinei, mesmo contra a minha vontade, até porque sentia que ao assinar aquilo, eu tinha a total ciência de que ele estava se despedindo aos poucos. A minha mãe me deixou no momento do meu nascimento, e até hoje me culpo por isso. Ela teve pré-eclâmpsia e não houve muito o que fazer; ela escolheu a minha vida. Entre a vida dela e a minha, ela preferiu a minha. Mas sinto que ela não deveria ter feito isso; filhos poderiam vir depois, mas mãe é uma só. É uma dor tão grande que às vezes me sufoca. Desde então, era eu e ele para tudo. O meu pai sempre foi um homem trabalhador, honesto, íntegro e um pai maravilhoso, não tenho nada a reclamar. Ele fez o papel de pai e de mãe direitinho, nunca me deixou faltar nada, mas infelizmente na vida não tem como ocupar um espaço que é do outro, e o lugar da minha mãe só pertence a ela. Ele fez tudo o que podia para suavizar essa dor e evitar traumas, nunca me escondeu a verdade. Sei que Deus sabe de todas as coisas e que os seus planos são superiores aos nossos, mas é impossível não questionar a Deus na minha situação.
Em um dia comum, já no final do meu terceiro ano, mesmo com as dificuldades, meu pai nunca deixou de pagar uma escola para mim, para que eu pudesse ter um futuro promissor. Voltei da aula e comecei a fazer a minha rotina; ele não me mandou mensagem, imaginei que estivesse com muito trabalho. Anoiteceu, fiz o nosso jantar e nada dele. Até que uma mulher que trabalhava com ele me ligou e pediu para eu comparecer ao posto médico da Rocinha. Quando cheguei lá, o meu mundo desabou. Meu pai teve um infarto e não resistiu. Mas como assim, um infarto do nada? Aí vêm os meus questionamentos: ele poderia estar doente e não me contou. Também sei que é difícil viver todos esses anos longe do amor da sua vida, tendo que criar uma filha sozinha.
A empresa onde ele trabalhava custeou todas as partes burocráticas do velório e fez o pagamento da rescisão, enviando o valor para a nossa conta conjunta, onde eu sou dependente. Mas até hoje não consegui colocar as mãos nesse dinheiro. Não tenho familiares próximos, e eu já estava cansada de incomodar as pessoas com a minha dor, então resolvi continuar na nossa casa, vivendo o meu luto pela segunda vez na vida.
Quando completou uma semana após o falecimento, o dono do morro apareceu na minha porta dizendo que o meu pai estava devendo à boca uma quantia altíssima. Fiquei em choque. Mesmo que eu pegasse todo o dinheiro da rescisão, ainda sim faltaria muito. Aí veio o sentimento de ódio e culpa ao mesmo tempo: talvez meu pai estivesse metido com coisas erradas e me fez assinar a tutela sabendo que poderia faltar. O infarto pode ter vindo da preocupação com essa dívida. Mas o meu pai não era usuário de drogas, ele nem bebia direito. A minha mente ficou uma confusão, e o dono do morro me deu vinte e quatro horas para pagar, senão iria me tomar como pagamento da dívida. Fiquei em estado de choque, chorei tanto, mas tanto que acabei apagando no quarto de exaustão. Eu não iria conseguir pagar, pedi até mesmo para que parcelasse, disse que arrumaria um trabalho e pagaria aos poucos, juntando com o dinheiro da rescisão. Mesmo que tivesse que viver uma boa parte da minha vida pagando essa dívida, pelo menos não me entregaria como moeda de troca para uma dívida que nem fazia sentido.