GB Narrando
Mano, eu nunca vi um morro tão fraco como o do Ferrugem. O que esse cara estava fazendo com o dinheiro do crime? Surreal, parceiro! Nunca foi tão fácil invadir um lugar assim. Uma invasão geralmente tem seu peso, mas essa durou pouco, os soldados dele estavam totalmente despreparados, sem nenhuma sincronia. Fico pensando: se tivéssemos deixado ele tentar invadir a Rocinha, eles não iriam passar da primeira barreira de jeito nenhum. Mas essa facilidade toda abre brechas para questionamentos. Pode ser sim que ele tenha alguém por trás disso, alguma parceria suja; até porque ele não é tão burro ao ponto de não saber que o seu morro, sozinho, não faria estrago nenhum na nossa estrutura e muito menos tomaria o território de nós.
Só sei que ele se acha audacioso e corajoso. O Jorge Turco não chega a ser um complexo, não é gigante, mas é um espaço maneiro que daria para fazer o crime rolar da melhor forma. Mas não sei onde ele estava com a cabeça, porque a estrutura lá estava pior que as quebradas de São Paulo, surreal. Várias casas sem saneamento básico, valas a céu aberto com esgoto beirando as ruas, um cheiro insuportável. Nem a casa do cara era mais ou menos, parecia morada de cracudo: tudo sujo, esculhambado. Cara porco do c*****o! Não é porque tu é bandido que tem que ser sujo e desapegado com tudo. Brabão, para mim a casa é o meu lar, o meu ponto de paz, odeio sujeira e coisas fora de ordem. Aqueles esgotos a céu aberto são uma nojeira, ao ponto de as crianças pegarem doenças à toa, e os ratos andando na rua como se fossem cachorros… que loucura. Eu tenho um medo horrível de rato, acho um bicho nojento. Pode botar um exército na minha frente que eu enfrento nos peito, mas se botar um rato, o pai corre mais rápido que atleta nas Olimpíadas.
O que realmente me assustou foi encontrar a mina presa dentro do quarto. Não sei exatamente o que ela é dele, possivelmente seria a sua mulher, mas o estado em que ela estava, os olhos e as expressões faciais denunciavam que sofreu muita violência. Quando arrombei a porta, ela gritava desesperada, achando que era ele voltando para bater mais uma vez, até entender que éramos nós. O que ele fez com ela nós ainda não sabemos, mas coisa boa não foi.
Isso só faz o meu ódio crescer ainda mais. Se um cara não respeita a mulher que está ao seu lado, não cuida e não zela pela integridade física e psicológica dela, ele não tá nem aí pra ninguém. Se ele faz o que faz com a própria companheira, quem dirá com um parceiro do movimento, com um morador ou até com um inimigo. Na real mesmo, esse cara é um rato de esgoto e merece o pior que a vida tem para dar.
Os fuzis que encontramos estavam tudo enferrujado, pareciam armas de coleção, não davam para confiar um tiro sequer, o perigo era até de contrair tétano. Eu mesmo não sustentaria uma guerra com esses armamentos, é colocar a própria vida em risco. Mas como ele é um péssimo gestor, os vapores ficam até com medo de dar qualquer opinião; n**o precisa se sujeita a qualquer tipo de coisa só por necessidade mesmo.
Deixamos o Fael na contenção do morro, organizando a segurança, e partimos de volta para o nosso. O Terror já não costuma ser de muitas falas, mas hoje ele está ainda mais fechado, pior que o costume. A mina veio no carro com nós, e eu não sei nem o que ele vai decidir fazer com ela. É f**a. Dependendo do que ela falar, isso pode puxar um desenrolado alto com as facções. Porque, independente de sermos de organizações diferentes, manter alguém em cárcere privado não é aceito em nenhum dos lados. Então quem responde pela facção desse cuzão vai ter que tomar alguma medida, se não o caldo vai engrossar de vez e vai ser guerra das grandes.