Maria Clara Narrando
Depois de almoçar, o folgado foi embora e eu fiquei no meu canto, curtindo o meu celular. Me sentindo viva e livre novamente, mesmo que não saiba até quando isso vai durar. A gente só dá valor às coisas quando as perde, e essa verdade é nítida: ter o direito de ir e vir, fazer o que quiser, quando quiser e na hora que bem entender, não tem preço. Pensei que nunca fosse conseguir me livrar do Ferrugem, mas Deus me deu uma segunda chance e eu vou fazer valer a pena. Vou me resguardar de tudo para que ele não me pegue; nem que para isso eu tenha que entrar para o crime para me proteger, não tenho medo de mais nada e não tenho nada a perder além da minha própria vida. Ele pode até tentar, mas eu vou morrer tentando manter a minha liberdade longe desse lixo.
Mesmo querendo não pensar nisso, é impossível apagar o passado. Perdi seis meses da minha vida convivendo com um homem psicopata, sem dormir, sem comer direito e sem ter o mínimo de dignidade. Agora que me sinto livre, não vou cair nas garras dele de novo. Só de lembrar, o meu corpo treme de ódio; nunca senti esse tipo de sentimento antes, sempre me carreguei de coisas boas e energias positivas, mas a vida nos prega cada peça que fica impossível manter apenas sentimentos leves dentro de si. Eu já não sou a mesma há muito tempo; carrego uma mágoa e uma raiva tão grandes no peito que, se pudesse, matava aquele cara sem nem pensar duas vezes e viveria presa, mas em paz com a minha consciência.
Essa casa é enorme, fico até perdida dentro dela. Mas não sei explicar por que, aqui eu me sinto verdadeiramente em casa. Exatamente como eu me sentia no meu lar, ao lado do meu pai; essa sensação de acolhimento é maravilhosa. Não sei quanto tempo vai durar, mas vou curtir cada momento da melhor forma possível. Estou cambaleando de sono, mas não me entrego a ele. Queria pedir pelo menos uma pistola ao Terror; me sentiria muito mais segura e conseguiria descansar, pois não tem como ficar dias em claro. Se eu acabar caindo doente, vai ser horrível. Também queria dar uma volta pelo morro para conhecer os caminhos e espantar essa sonolência, mas nem uma roupa decente tenho para vestir. Vou esperar a minha secar e ir até alguma loja comprar o que preciso; tá difícil sobreviver com apenas uma peça de roupa, só Jesus na causa.
Queria tanto sonhar com o meu paizinho. Às vezes a saudade dele é esmagadora; fico matutando em tantas coisas, imaginando como tudo poderia ter sido diferente se ele tivesse me dito que estava doente.
Fui verificar a minha roupa no varal e já estava seca. Vesti e me arrumei na medida do possível, já que não tenho pertences aqui. Então desci as escadas em direção à porta. Tomara que encontre algumas roupas que eu goste, ainda mais que não posso escolher muito, visto que cheguei sem nada nas mãos.
Fechei o portão e fui caminhando pelas ruas. A Rocinha é linda, sem exagero nenhum. Esse morro tem a essência do carioca, tá explicado por que é ponto turístico. Tudo é muito bonito e as pessoas são extremamente simpáticas; algumas senhoras passaram por mim e me deram bom dia, algo que não estou acostumada a receber com tanta naturalidade. O sol está escaldante. Imagine só morar em uma favela linda dessa e de cara com a praia de São Conrado, é algo surreal. Uma pena não poder viver da forma que gostaria aqui, mas de qualquer forma, poder ficar dentro do morro com a minha liberdade já está de bom tamanho.
Entrei em uma loja e a atendente foi super atenciosa, me mostrou diversas peças e tudo por preços bem acessíveis, do jeito que eu gosto. Comprei bastante coisa; ele me deu uma quantia absurda de dinheiro, não sei para que tudo isso, mas vi logo que esse homem é um tanto exagerado. Fui em outras lojas e fiz mais algumas compras: adquiri um perfume e um hidratante, preciso recuperar a minha autoestima. Comprei um chinelo e uma sandália, pelo menos um calçado de guerra eu vou ter que ter. Depois fui à farmácia, peguei material para as unhas e produtos para o cabelo. Em frente à farmácia tinha uma loja de maquiagens, comprei apenas o básico já que não sou muito de usar, e fui voltando para casa cheia de sacolas, quase me perdendo nesse labirinto chamado Rocinha.
Eu estava na calçada, subindo a rua, quando o barulho de uma moto passou por mim e me assustou. Um rapaz do movimento encostou ao meu lado.
— Qual foi, mina? Quer ajuda?
— Não precisa, obrigada.
— Bora, deixa que eu te ajudo. Tá cheia de sacolas aí.
— Vou aceitar sim, porque estou realmente precisando, hahaha.
Ele pegou algumas das minhas coisas e eu subi na garupa da moto. Subimos a rua e algumas pessoas ficaram observando, mas não ligo para isso; afinal, sou moradora nova, é super normal causar curiosidade. Chegamos ao portão de casa e ele me ajudou a levar tudo para dentro. Tentei ser gentil e grata por ter me auxiliado.
— Quer um copo de coca?
— Vou aceitar sim.
Fui até a cozinha, peguei o copo e servi para ele. Voltei à sala, entreguei a bebida e logo em seguida ele se despediu e foi embora. Aquele sentimento de ansiedade me acertou em cheio ao ver as minhas coisas arrumadas na sala, tantas sacolas. Estou feliz demais, mesmo sem saber por quanto tempo essa felicidade vai durar. Organizei todas as minhas peças, depois fiz as unhas, pintando de vermelho as mãos e os pés. Fiz uma hidratação capilar, limpei as sobrancelhas. Fui me cuidando e vendo a nova mulher que estava surgindo diante dos meus olhos; essa sensação de renascimento não tem preço. Durante muito tempo ficava olhando no espelho e não me reconhecia, mas parece que agora a verdadeira Maria Clara está voltando e eu estou amando cada segundo disso. Meu pai, com toda certeza, está feliz me vendo de onde quer que ele esteja.