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762 Words
Maria Clara Narrando Estava com uma fome danada, então optei por fazer algo rápido e prático. Já coloquei o feijão na pressão — odeio comer sem feijão; parece que não me alimento, fico com fome depois de meia hora, é algo surreal. Fiz um arroz fresquinho e cheio de alho, bife bem temperado, batata frita e uma salada para disfarçar o prato de pedreiro, hahaha. Cozinhar nesta cozinha é um sonho; aqui tem de tudo, até triturador de alho — tomei uma surra para descobrir como usar. Tudo novo, tudo lindo e chique, aff. A dona de casa que habita em mim está totalmente realizada neste momento. O bonito ficou jogando vídeo game na sala, até que o celular dele tocou. Fiz de tudo para não escutar, mas estava meio que impossível. Pelo jeito, provavelmente era alguma mulher, pois ele respondia em monossílabos e meio que cochichando. Terminei a comida, coloquei tudo na mesa. Fui até a sala e avisei que estava pronta, voltei para o meu lugar e comecei a me servir; ele que se vire. Comecei a comer em silêncio, até que ele finalmente chega na cozinha. — Por que é que tu não fez o meu prato, sua mandada? — Falou ele, me olhando com cara de poucos amigos. — Não sabia que essa era a minha função. — Disse, com total indiferença. — Não é não, to só zoando. Tá estressada por quê? — Perguntou, apoiando os braços na mesa e me fitando. — Quando estou com fome, fico assim. Deixa eu comer que é melhor. — Respondi. Ele então se serviu, sem dar um pio sequer. Agora tu ver: que homem folgado. Não tenho obrigação nenhuma de montar o prato dele; depois que questionei, desconversa dizendo que é brincadeira. Fiquei realmente chateada. Não temos nada e nunca vamos ter. Ele tem me ajudado, e o que ele faz por mim, jamais vou conseguir retribuir. Mas estar aqui, fazendo comida para nós, e ele atender uma de suas mulheres... vai encher a barriga com a comida que eu fiz, depois vai pra rua. É f**a, esperava pelo menos um mínimo de respeito. Mas o que esperar desses caras? Não há nada a se esperar. Ele sentou à mesa e eu logo me levantei, já tinha terminado. Lavei tudo o que sujei e subi para o meu quarto; ele não falou nada e eu também não. Resolvi tomar um banho e me arrumar para sair comer um açaí. Posso andar dentro do morro, preciso me sentir bem, me sentir viva, com a autoestima elevada. Tomei um banho maneiro, com direito a tudo. Saí do banho me enxugando e me sentindo melhor; não tem por que me sentir m*l. A casa é dele, a comida é dele, tudo é dele, hahaha. Eu só preparei, ele não me deve nada, não posso criar neurose onde não existe. Vesti uma calcinha de renda branca, um short jeans de cós alto e um cropped azul bebê de alcinha fina. Achei um visual simples, mas que caiu muito bem no meu corpo. Aos poucos estou recuperando o meu peso e a minha forma, ainda bem. Estava definhando em vida, Deus me livre. Penteiei o meu cabelo, que está enorme, mas os cachos do meu ondulado estão deixando ele com bastante volume e estou amando. Fiz uma maquiagem rápida, só para dar uma cor ao rosto: passei hidratante, perfume, coloquei brincos pequenos, um cordão e um relógio do kit que comprei. Olhei no espelho e, pela primeira vez em muito tempo, senti que estava linda. Arrumei a bagunça do quarto antes de sair, peguei o celular e fui descendo as escadas. O Terror já não estava mais na sala. Não seria certo sair sem avisá-lo, seria ridículo da minha parte. Então subi novamente e bati à porta do quarto dele. Demorou um pouco, mas ele atendeu enrolado apenas numa toalha. Vai se f***r, que homem ridículo, ao mesmo tempo nojento, gostoso e lindo. — Qual foi? — Disse ele, secando o cabelo com a outra toalha. — Vou lá na rua comer um açaí, só estou avisando. — Falei, quase gaguejando, mas mantive a postura. — Tá bom. Quando tu chegar... talvez eu não esteja em casa, mas qualquer coisa tu bate o rádio. — Respondeu. — Não tenho rádio, mas qualquer coisa te mando mensagem. Tenha uma excelente noite, aproveita. — Disse, dando um piscar de olhos para ele. Desci as escadas bufando. Parece que ele faz questão de me irritar, ou não sei mais o que pensar. Ou será que estou ficando maluca?
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