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1124 Words
Terror Narrando Estou aqui, do alto do morro, apreciando a vista mais linda da praia de São Conrado, olhando a favela de cima e fumando um para clarear as ideias. Tem dias que tenho tido pesadelos e essas porras não me deixam em paz, nem sei mais o que é dormir direito e, para ser sincero, isso não me faz falta. Vou deixar para dormir quando morrer. Toda vez que fico meio perturbado da mente, venho para cá para ficar suave e apreciar essa paisagem. Fico refletindo sobre vários bagulhos, mas quando começo a pensar muito, meto o pé. Odeio pensar, odeio lembrar e odeio tudo o que me remeta ao meu passado. Na verdade, essa p***a não era nem para me assombrar; o que passou, passou. Não vivo no ontem, vivo no presente, e por mais que a minha realidade às vezes seja árdua, é aqui no agora que tenho que pensar. Já me passaram a informação: o cuzão do Ferrugem quer invadir a Rocinha. Mas antes mesmo que ele dê o bote, eu vou pular lá primeiro e avermelhar aquela p***a. Ele é dono do morro do Jorge Turco, mas criou uma rivalidade comigo fora do comum. Tudo bem que não somos da mesma facção, mas essa confusão toda é por conta de mulher. Um dia, eu estava no baile do Vidigal — o dono de lá é o Joaninha, parceiro de maior confiança, fui lá prestigiar o baile f**a que o mano faz. Apareceu uma loira, daquelas montadas mesmo, cavalona… p***a, me amarro. Mas não sou de dar em cima de mulher nenhuma, ainda mais em baile; não está escrito na cara de ninguém se é fiel ou companhia de alguém, então fico no sapato para não cair na mancada. Andar com qualquer uma na favela é vala certa, e eu sei como funciona o proceder, ainda mais que a lei quem faz é nós. Mas a mina veio com tudo para cima de mim, se oferecendo na cara dura. De cara já perdi o interesse, odeio mulher oferecida. A minha vida sempre foi difícil para conquistar as coisas, então o fácil não me satisfaz, não gosto. Mulher que se joga na cara não tem valor nenhum, e podem falar o que quiser de mim — que sou macho escroto, machista —, que se f**a, essa é a p***a da minha opinião. Fiquei por ali cantando e bebendo, mas ela insistindo muito. Até que, já estava doido para aliviar o meu saco, acabei indo com ela para uma salinha ali mesmo no camarote. Não passaria disso mesmo: uma f**a e fé em Deus. Mas a maldita era mulher do Ferrugem! A desgraçada se ofereceu na cara e ainda era casada, vai entender uma p***a dessa. Fui levado enganado; ela disse que era solteira e eu confiei no papo dela, até porque acho que coisas assim não tem necessidade de mentir. E a postura dela não era de uma mulher casada e fiel de um dono de morro. Esse bagulho chegou aos ouvidos dele, ele meteu a porrada na mulher e botou ela para fora do morro. A safada veio aqui achando que eu iria dar abrigo para ela, mas botei para correr também e que se f**a, nem o nome dessa desgraçada eu sei. Depois disso, ele fala para os quatro cantos da terra que vai arrancar a minha cabeça, e eu fico aqui, tranquilo, esperando o momento certo. Mas como ele é um cuzão e só tem traíra do lado dele, eu vou entrar lá primeiro, nessa madrugada mesmo. Aí eu quero ver ele bancar o herói e o brabo. Tá achando que é assim, ameaçar bandido e ficar por isso mesmo? Odeio bagunça no meu morro. Aqui é um ponto turístico do Rio de Janeiro, deixo todo mundo à vontade para conhecer o meu território, não boto neurose com quase nada, isso aqui é a minha vida, esse povo é a minha família. Então não vai vir ninguém fazer confusão aqui, chamar a atenção da mídia para o meu morro, não vai mesmo. Não sou muito de ficar na rua, os próprios moradores aqui quase não me veem. Sou procurado pela polícia, então fico na disciplina; saio mesmo quando já está todo mundo entocado em suas casas. Quem resolve a maioria das coisas é o GB, o meu sub. Esse é um mano que eu confio para c*****o, nunca entrou na mancada e nunca me fez duvidar da sua índole. Então até que se prove o contrário, ele é leal e merece a minha lealdade, afinal, comanda essa p***a aqui junto comigo. Não sou muito de conversar, quase não falo nada. Muito barulho e muita falação me irritam; sou um cara de pavio curto, para me tirar do sério não precisa nem fazer esforço. Então fico na minha e dou fé para geral. Tem gente que diz que é marra, mas eu digo que é postura: sem risadinha para ninguém. Se eu ficasse nessa de ficar de sorrisinho para todo mundo, não estaria onde estou — ou melhor, estaria morto. Tenho a minha casa aqui no morro, mas fico um tempo em cada lugar. Sou tipo sombra para a polícia; quando eles pensam que estou em um lugar, já estou em outro. É brabo de me pegar, não vão pegar nunca. Só se o Maior lá de cima permitir, e eu nem sei se ele olha para pessoas como eu. E tá tudo bem também. Se ele olhasse, não deixaria eu passar por tudo o que passei. Não me faço de pobre coitado não, longe disso, mas se ele cura, salva e liberta as pessoas, não sei porque me deixou viver durante tantos anos no escuro, sozinho e à própria sorte. Também nunca vou entender essa cambada de desgraçados que fazem filho e deixam largados aí no mundo. Eu não tenho a menor vontade de ser pai. Os infelizes que me colocaram no mundo não foram capazes de cuidar e educar, sumiram e f**a-se eu. Não quero fazer o mesmo com um filho meu, então prefiro não ter. Até porque não existe uma mulher à altura para ser mãe de um filho meu; só tem essas mandadas daqui que querem um patrocínio, fazer um filho com alguém de poder e achar que têm pensão vitalícia a vida inteira. Não caio nesses laços. Amor nem existe, nem o de mãe, quem dirá de mulheres. Nem sei o que é isso, nunca senti na minha vida nenhum sentimento bom. Tudo em mim é ódio ou raiva, vivi no meio disso, então não tem como eu dizer que o amor existe se eu nunca tive carinho de ninguém. Para mim, isso é história para boi dormir, e acredita quem é bobo.
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