GB Narrando
Tava impossível dormir, nunca fiquei tão m*l assim que eu me lembre. Tive que ir pro UPA fazer inalação; lembro que quando era menor, vivia no hospital com o oxigênio pra melhorar. Então só troquei de roupa, botei qualquer uma e meti o pé pro posto. Cheguei e já fui atendido — se é privilégio de sub ou não, que se f**a. Eu só quero respirar direito, tá sinistro pro meu lado. Fiquei ali parado esperando pra entrar na sala de inalação, até que apareceu a mandada com a irmã dela. Por pura coincidência, a menina tem a mesma doença que eu.
Fiquei malzão só de ver. Se pra mim, que sou adulto, é horrível não conseguir respirar, puxar o ar e ele não entrar, imagina pra uma criança? Tá maluco, filho. Peguei ela no colo e assumi a parada toda a partir daí, mesmo que eu também não esteja aguentando nem comigo. A Eloah é linda, parece a Moana, com os olhinhos puxados e tudo; fiquei apaixonado por essa criança e, pelo visto, ela também ficou por mim. A irmã chata querendo tirar a menina do meu colo, puro ciúme. Tá fudida, cheguei agora e já sou o preferido, hahaha.
Comprei todos os remédios dela, junto com os meus. Já não tinha nada em casa, fazia tempo que não ficava com essa p***a. E vai ser f**a, amanhã tem serviço de pó; aquele cheiro forte irrita logo o nariz. Fomos pra casa delas e, mesmo sem querer ser inconveniente, precisei falar a real. O mofo e a umidade pioram tudo, até pra quem não é alérgico não presta, imagine pra quem é. Dei a ideia de virem pra minha casa. De primeira ela negou, toda abusada como sempre, mas depois que falei que não era por ela e sim pela saúde da irmã, ela aceitou.
Chegamos lá em casa e vi que ela reparou bem no lugar, hahaha. Deve ter pensado que ia encontrar um muquifo, se fodeu, hahaha. Deixei ela à vontade no quarto, a pequena já estava dormindo. Tomei um banho morno e fui me deitar, meu corpo só pedia cama. Já estava apagando quando sinto a pequena vir pra cima de mim, deitar do lado, me abraçar e dormir. Fiquei sem reação de primeira, mas depois retribui. É muita fé em Deus, e as crianças da favela sentem tudo. Não tem jeito, parceiro; elas percebem logo se o coração do adulto é bom ou não. Não sou exemplo pra ninguém, mas a gente é de coração puro e pé no chão sempre.
Tava viajando nos pensamentos, de olhos fechados e quase dormindo, quando a abusada apareceu na porta procurando pela irmã.
— Deita aqui também, pelo visto ela gostou mais de mim, hahaha. — Falei rindo, debochado.
— Se manca, ela é minha irmã, não sua. Chega pra lá. — Respondeu, vindo se deitar.
— Se ficar de marra, tu vai dormir é no chão. — Falei, ficando puto.
— Duvido, não saio da minha casa pra dormir no chão. — Desafivou e se acomodou.
— Cala a boca e vamos dormir. — Disse, e ela ficou quieta. Gosto assim, quando obedece.
A Eloah ficou no meio, eu numa ponta e ela na outra. Abracei a pequena e ela também, acabou que nossos braços se encontraram. Talvez não seja tão r**m ter uma família. Pode até parecer loucura, mas aqui, agora, me sinto bem, me sinto em casa. Talvez seja a carência por falta dos meus pais, mas tô me sentindo de boas, mesmo com o corpo fudido e a saúde baleada. Tô leve e em paz. No final das contas, sortudo é o homem que tem motivos pra voltar de uma guerra, sabendo que sempre vai ter alguém te esperando.