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2 MESES DEPOIS Bianca Narrando - Desde o dia em que levei aquele tiro… eu não sou mais a mesma. Não foi só a dor, o susto ou o sangue. Foi o que veio depois. - O tiro atingiu minhas trompas de falópio… as tubas uterinas. Tive que retirar a do lado esquerdo, justamente onde a bala entrou. Fiquei desacordada por três dias. O médico disse que não foi pela cirurgia, mas por um choque pós-traumático. - Eu apaguei… como se meu corpo tivesse desistido por um tempo. Quando acordei, a minha vida já não era mais a mesma. Tem sido difícil aceitar tudo isso. Eu não tinha noção da gravidade. Hoje, na prática… é como se eu fosse infértil. Com apenas uma trompa e ainda comprometida, obstruída pelo trauma. As chances de engravidar são mínimas. Quase nulas. - E isso dói mais do que o tiro. Ainda não consegui conversar com o Gabriel sobre isso. Na verdade… nem sei se ele faz ideia do que realmente aconteceu comigo. E isso me deixa desconfortável. Triste. - A gente nunca falou sobre futuro. Nunca sentamos pra planejar filhos, família… nada disso. Mas, dentro de mim, esse sempre foi um sonho. Não agora. Eu tenho minha irmã, minhas responsabilidades. Mas um dia… com certeza. - Ou pelo menos… eu achava que teria. Agora esse sonho parece distante. Quase impossível. Mesmo assim, eu agradeço. Agradeço porque estou viva. Porque a Eloah está bem. Ela é o principal motivo da minha vida… e ver ela segura depois de tudo, é o que me mantém de pé. - Mas o medo não foi embora. Eu penso na Maria… e meu coração aperta. Se comigo e com a Eloah ele já fez esse estrago, imagina se fosse com ela? Eu nem consigo terminar esse pensamento. - Esse homem não pode continuar solto. Todos nós estamos em risco. E eu… eu já perdi uma parte de mim. Uma parte importante demais. - Gabriel tenta ficar mais em casa, eu vejo o esforço dele. Mas sei que a cabeça dele tá na rua, tentando resolver tudo, tentando encontrar o Ferrugem. E, no fundo… eu prefiro assim. - Porque eu não tenho conseguido encarar ele. Desde que tudo aconteceu, eu tenho evitado ao máximo. Eloah sempre dorme com a gente, e eu uso isso como desculpa… como barreira. Como proteção. A gente não se toca. Não se procura. Ele tenta… mas eu sempre arrumo uma desculpa. - A verdade é que eu tô destruída por dentro. Não é só o corpo que foi ferido. É a minha cabeça. Meu coração. Minha identidade como mulher. - Até onde vai o amor dele por mim? Será que ele ficaria com uma mulher que talvez não possa dar filhos? Eu vejo ele com a Eloah… o jeito que ele cuida, que protege… parece que nasceu pra ser pai. E isso só aumenta o peso dentro de mim. Não é justo com ele. - E toda vez que esse pensamento vem… eu choro. Choro até não ter mais força. Me sinto inútil. Menor. Quebrada. Mesmo sabendo que a culpa não foi minha. - Ele percebe que eu tô diferente. Tenta se aproximar, tenta conversar, tenta me puxar de volta… mas eu sempre fujo. Arrumo qualquer coisa pra fazer. Lavo roupa, limpo a casa, organizo o que nem precisa… qualquer coisa que me mantenha ocupada. Qualquer coisa que me mantenha longe dele. Porque ficar perto dói mais. E o pior é que eu amo aquele homem. Amo de um jeito que eu nunca imaginei ser possível. Um amor intenso, pesado… que às vezes sufoca de tanto que é grande. Eu não queria que a gente ficasse assim. Distantes, frios. - Se perdendo aos poucos. Mas tem algo dentro de mim que não deixa eu voltar. Olhar pra cicatriz no meu corpo… é como reviver tudo de novo. É feio. É doloroso. É um lembrete constante de tudo que eu perdi. - Já é noite. Fiz a janta, organizei a casa, segui minha rotina como se nada estivesse acontecendo. Eloah já comeu, tomou banho… tá bem melhor agora. A psicóloga tem ajudado muito. Graças a Deus. - Escovei os dentes dela, deitei ela na nossa cama e fiquei ali, olhando ela dormir. - Às vezes me dói usar minha própria irmã como desculpa… como barreira entre mim e o homem que eu amo. Mas eu não sei fazer diferente. - Fui pro banho. Deixei a água quente cair, tentando relaxar um pouco… tentando, pelo menos por alguns minutos, não pensar em nada. Coloquei um pijama americano, bem comportado. Faço questão de não chamar atenção. Evito qualquer coisa que possa despertar o olhar dele. Porque, hoje… eu me sinto a mulher mais feia do mundo. - Terminei minhas coisas e deitei ao lado da Eloah. Não mando mensagem. Não pergunto onde ele tá. Não cobro. Deixo ele livre. Ou pelo menos… finjo que deixo. Às vezes ele demora… e o ciúme vem forte, querendo tomar conta. Mas eu engulo. Seguro. Abafa. Porque eu não tenho forças nem pra isso, tem sido horrível ser eu.
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