— Deixa ela, cara. Para com essa maluquice, eu vou levar vocês. — Falou ele, pegando a menina e arrancando a receita da minha mão.
Eu falo que ele é abusado, cara! Sai andando na frente, atravessou a rua direto pra farmácia e comprou os remédios dela e os seus. Não sei nem a que horas ele foi na sala da médica dele, porque até receita ele já tinha. Privilégios de ser sub, hahaha. Ele voltou até mim com as sacolas cheias de remédios e me entregou tudo junto com a receita.
— Ela tem que usar a bombinha de Aerolin de seis em seis horas e a de Clenil de doze em doze. Me fala os horários que eu vou lá sempre aplicar nela, já que você não sabe. — Avisou, caminhando com a Eloah até o seu carro.
— Desde quando você sabe fazer isso, bofe? — Perguntei, incrédula.
— Tenho bronquite desde moleque e a minha está atacada, inclusive. Já falei que "bofe" é o meu p*u. — Respondeu, tampando os ouvidos da Eloah com carinho, hahaha.
— Me respeita, olha o abuso! — Falei, entrando no carro.
— Quando tu ficar careca, vai parar com esses abusos. Se liga na tua responsa. — Disse ele, dando a partida. A Eloah continuou o tempo todo grudada no colo dele.
Não sei se ele é pai, mas pelo pouco que estou vendo, com certeza seria um ótimo pai — ou vai ser um dia. Ele acomodou ela numa de suas pernas, tendo todo o cuidado do mundo, pensando na segurança da minha irmã. Sei que a presença de um pai faz toda a diferença na vida de uma criança, e talvez seja por isso que ela tá tão grudada nele: uma figura masculina da qual ela quase nunca teve.
Chegamos ao portão da minha casa e o que mais me espantou foi ele saber exatamente onde eu moro. Fiquei chocada, não vou mentir. Desci do carro e, mais uma vez, foi uma luta pra conseguir trazer a menina pro meu colo. Ele desceu também e disse que entraria com a gente até que ela ficasse mais tranquila. Segundo ele, ela não pode fazer esforço, até chorar deixa ela cansada. Nunca vi uma coisa dessas na minha vida, mas também não ia ficar discutindo, já era madrugada e eu tô só o pó. Passamos pelo corredor, abri a porta de casa e dei passagem pra eles.
— Vou te falar, sem querer ser inconveniente. Mas aqui tá com cheiro de mofo, as paredes tão úmidas. Deve ser porque a casa ficou muito tempo fechada. Mas isso não faz bem pra menina, talvez seja exatamente por isso que a bronquite dela atacou, assim ela nunca vai melhorar de verdade. — Comentou ele, um pouco sem jeito.
— Nessa casa sempre teve problema de umidade e mofo. O sol quase não bate aqui. Nem sei o que fazer, acho que o ideal seria uma reforma. Mas por agora não tenho condições, vou cuidar dela da melhor forma pra que melhore, não tenho outra saída. — Disse, sentando no sofá, totalmente frustrada.
— Eu moro sozinho e não ligo se vocês ficarem lá comigo até a gente arrumar uma solução pra essa casa ou até encontrar um lugar novo pra vocês. — Propôs ele, dando uma alternativa.
— Não posso aceitar, m*l conheço você. Na verdade, não conheço nada sobre ti, nem sei por que tá nos ajudando. Agradeço pela boa vontade, mas essa luta é minha e eu tenho que dar um jeito. — Falei, com a cabeça baixa.
— Não precisa conhecer, só aceita. Não é por você, é pela sua irmã e a saúde dela. Cuido de todo mundo do morro na medida do possível. Aqui a gente leva tudo na paz e sem confusão, pode ficar de boas quanto a isso. Vamos pra minha casa, pega as coisas de vocês e amanhã já arrumo uma casa pra alugar até você consertar a sua. Vamos logo, ela tá caindo de sono e eu também. — Falou ele, sem muita paciência pra enrolação.
Não falei mais nada. Fui pro quarto pegar umas roupas, fiz uma mala pequena. Peguei o nebulizador e os remédios e voltei pra sala.
— Vamos? — Chamei ele.
— Vamos. — Respondeu, levantando logo com a Eloah ainda no colo.
Desde o UPA, ele não tirou ela do colo nem um segundo, e ela também não solta de jeito nenhum. Até que me dá uma agonia. Entramos no carro e fomos pra casa dele. Quando chegamos, tinha uns seguranças na porta; passamos por eles e vi uma casa linda, daquelas de sonho. Não é preconceito, mas é difícil imaginar que exista uma casa assim dentro da comunidade, parece até mentira. Ele mostrou o quarto onde íamos ficar. Arrumei a Eloah na cama, troquei a roupa dela pra tirar o cheiro de hospital e depois fui tomar um banho. Quando saí do banheiro, vi que ela não estava mais lá. Fiquei logo nervosa, tô na casa de um desconhecido e ainda perdi a minha irmã. Saí procurando em tudo: sala, corredor, nada. Voltei pro quarto e vi que uma porta do lado estava aberta, parecia ser o quarto dele. Dei uma olhadinha e lá estavam os dois: ela dormindo na cama dele, agarrada como se fosse o lugar mais seguro do mundo. Que absurdo, cara!