Terror Narrando
A bandida entrou no meu quarto. Será que ela sabe que não estou em casa? Ela nem me viu sair, mas deve ter escutado o barulho da moto. Foi até o closet, pegou uma camisa minha, levou ao rosto e cheirou. Fiquei meio intrigado com isso. Depois, deitou na minha cama e ficou com a blusa cobrindo o rosto, inalando o meu cheiro. Ah, pronto! Depois de ter me falado aquela merda, agora está aí cheirando minha camisa. Mulher é o d***o, parceiro, não tem como entender essas malucas, de jeito nenhum. Devia vir com um manual de instruções.
Ficou um bom tempo na minha cama e eu, estranhamente, gostando do que estava vendo. Depois de dar uma de desapegada, foi parar no meu quarto sentindo o meu cheiro, hahaha. Quando levantou para sair, ajeitou a cama direitinho para que eu não percebesse que ela estivera ali; não é boba nem nada. Saiu do quarto levando a minha camisa nas mãos e entrou no dela. Aí perdi a visão, porque já é a sua privacidade e não é maneiro invadir assim. Mesmo com muita curiosidade, não vou fazer isso. A minha vontade é de ir para casa agora e comer ela gostoso.
Organizei uns papéis de pagamento dos vapores que recebem amanhã e deixei tudo mastigado para o GB. Agora quero ver ele reclamar que não tiro plantão; ultimamente ele tem falado isso, reclamando igual um viadinho, deve estar com saudade e não sabe admitir.
Voltei a olhar as câmeras e a vi arrumada, com um conjunto da Adidas rosa bebê, curto pra c*****o. Aonde ela pensa que vai a uma hora dessas, mano? Quase três da manhã, que mina maluca. Prestei muita atenção para ver se ela realmente ia sair e a filha da p**a saiu mesmo. Saí da minha sala, tranquei a porta, subi na moto e fui em direção à minha casa; de moto chego nela rápido. Não quero que ela me veja, só preciso saber aonde está indo. Porque se for encontrar o playboy, ela vai levar um castigo e esse filho da p**a vai morrer. Querendo mexer no que é meu? Sim, ela é minha. Essa menina abusada é minha propriedade.
Consegui avistá-la lá no alto da rua da minha casa, seguindo em direção ao Mirante. A impressão que tive era que ia encontrar o arrombado, mano, até as minhas carnes tremeram. Pedi ao Alto que não fosse isso, senão ia dar merda e eu não estou para brincadeira. A filha da p**a fica em casa cheirando minha camisa e agora vem se encontrar com outro? É uma desgraçada mesmo.
Ela passou do Mirante e continuou subindo. Aonde quer chegar? Está quase ao lado de Deus de tanto que sobe. Não subo aqui nem de moto, quem dirá a pé. É lugar para poucos; eu só vinha aqui antes para espairecer, lá no alto tem uma visão incrível do Rio, pega tudo. Bagulho é de verdade, lindo pra c*****o. Mas só quem é cria conhece esse lugar. Será que ela está indo para lá? Não para de subir, passou pelo beco que corta caminho... é para lá mesmo que ela vai. E como ela sabe do caminho? Deixei a moto parada, porque nesse beco não passa veículo, daqui para frente é só a pé. Fui atrás dela, escondido nos cantos. A impressão que tive é que o playboy mandou a localização e ela veio feito a boa safada que é. Estava doida para dar desde cedo. Minha mente está fervendo, mano, que loucura.
Quando cheguei ao ponto mais alto, de frente para a vista, vi que ela estava sentada sozinha. Graças a Deus, cara! Pensei que ia infartar. Fiquei olhando de relance, mantendo distância para não ser notado. Ela ficava ali admirando a paisagem, mas não conseguia ver suas expressões, estava de costas para mim. Fiquei confuso sobre o que fazer: se ia até lá ou se a deixava na dela, ficando só de olho até que ela decidisse ir embora. Até porque é madrugada e ela não pode andar sozinha; por mais que a região seja tranquila, eu não pago para ver riscos.
Ponderei bastante e decidi ir até ela. Cheguei e parei ao seu lado. Ela me olhou e sorriu. Não entendi muito bem, nem tomou um susto, nem nada. Parecia que ela já sabia que eu estava ali.
— Está rindo do quê, mina? — Perguntei, olhando para a vista. E que visão, parceiro! Toda vez que venho aqui, sinto a mesma paz.
— De você, ué. Ficou se escondendo ali atrás. Como se eu não soubesse que estava me seguindo e parou ali. — Falou sorrindo entre os dentes. Como ela sabe? Disfarcei tão m*l assim, c*****o?
— E como tu sabe que era eu, mandada? — Questionei, inconformado.
— O seu cheiro. O seu perfume. — Disse, mas sem me olhar nos olhos. Fiquei até sem palavras.
— Então tu conhece o meu cheiro, né? — Falei, deixando escapar um riso.
— Claro, inconfundível. — Respondeu, rindo também.
— Queria te pedir desculpas por hoje. Peguei pesado com você. Fiquei puto com a cena que vi lá no pagode e quis te castigar de uma certa forma. Não sei muito bem o que está rolando entre nós, mas estamos confundindo os bagulhos, perdendo o respeito um com o outro e esquecendo o propósito principal da nossa aproximação: acabar com o Ferrugem para você ter a sua liberdade. — Disse, olhando firme nos seus olhos, mas mantendo uma certa distância emocional.
— Também te peço desculpas. Estou confusa com tudo, nem sei decifrar o que estou sentindo de verdade. E me perdoe também pela forma como falei; estava com raiva. Eu não queria outro ali, eu queria você. Se não fosse você, aquilo não teria acontecido. Fiz de propósito para que você sentisse a mesma coisa que eu senti, quando preparei comida para nós, depois de termos dormido juntos — mesmo que sem ter nada — e você saiu para ficar com outra mulher. Achei que também não houve respeito. Independente da casa ser sua, se eu tenho que te respeitar, você também precisa me respeitar. Você não é qualquer um e nunca vai ser. Não só pelo que fez por mim e de onde me tirou, mas por ser quem você é. Sei que por você ser bandido, as coisas pesam mais sobre o que vão falar: da mina que mora na sua casa ficando com outro. Mas eu me sinto da mesma forma, não pelo julgamento dos outros, mas porque me incomoda de verdade. Sei que naquele dia a intenção não era dormirmos juntos, foi por causa do meu pesadelo, mas mesmo assim a situação me incomodou e não vou mentir. Ah, e também não te chamei de velho, nem sei a sua idade. Talvez você tenha interpretado m*l, mas não foi isso que eu quis dizer. — Explicou, com os olhos marejados. E eu fiquei sem palavras, mais uma vez.