Bianca Narrando
A gente soube viver esse pagode, ficamos loucas. Não sou acostumada a beber, nem a Maria também, então foi o caos. Mas um caos gostoso. Gente bonita pra caramba, exceto por aquela marmita que não parou de me encarar e ainda tentou fazer graça no banheiro. No dia que eu resolver dar uma surra nela, ela vai parar. Sou tranquila, mas não pise no meu calo que o negócio fica doido. Sou cria daqui, nasci na Rocinha, não abaixo a cabeça para ninguém e com aquela vaca não vai ser diferente. Não entendo até hoje a dela, nem sei o que ela tem com aquele homem, e também não me importo. O que importa é a minha vida e eu não tenho nada com ele, nem pretendo ter — talvez só para fazer essa p*****a passar raiva.
Dançamos muito e curtimos pra c*****o, esqueci de todos os meus problemas e consegui viver intensamente, me entregando ao momento. A Maria tem sido um presente na minha vida; já não me sinto mais sozinha. Ter alguém para conversar e uma companhia para sair é algo divino e também novidade para mim. O meu passado não pode apagar o meu futuro; aqui eu fui feliz também e aquele i*****l do antigo dono não pode, de forma nenhuma, acabar com as minhas boas lembranças desse lugar.
Já estávamos indo embora quando a merda toda aconteceu. Eu não sabia nem o que fazer. O dono do morro apenas mandou a Maria entrar no carro e eu fiquei ali, pensando mil coisas: se ela tinha algo com ele, se ela fez alguma merda e vão cobrar a conta dela. Enchi o celular dela de mensagens, mas estava desligado e eu não conseguia falar com ela. p**a que pariu, que sufoco! Desisti de ficar ali nos amassos; só dei um selinho no cara e fui embora andando. Ele queria me levar de carro, mas não gosto dessas confianças, ainda mais ele sabendo onde eu moro.
O mirante fica lá no alto, ainda bem. A volta é triste, mas é ladeira abaixo. Imagine se fosse subida, estaria fudida. Fui andando pelas ruas e cada canto daqui me remete a uma memória, umas boas e outras nem tanto. Mas me peguei pensando em como consegui ficar tanto tempo longe desse lugar. A Rocinha é a minha vida, a minha história e o meu lugar.
Estava quase chegando em casa, meio que perdida nos meus pensamentos, até que aquele homem enviado do cão passou de moto novamente. Será que o trabalho dele é só fazer ronda? Não é possível.
Parei no portão de casa e o sujeito estacionou a moto, cruzou os braços e ficou me olhando. Fiquei sem reação, mas não me deixei intimidar; até porque não fiz nada de errado para ficar com medo de ninguém, sai pra lá.
— Boa noite. Posso ajudar em algo? — Disse, num tom irônico.
— Você conhece aqueles playboys que vocês estavam se esfregando? — Perguntou na lata, que audácia!
— Não. Mas algum problema? Quando chegamos eles já estavam lá, passaram pela barreira. Então se fizeram algo, a culpa não é nossa. — Falei, firme.
— Se tivessem feito, já estariam mortos. Só queria saber mesmo se vocês tinham i********e. — Respondeu, convicto.
— Bom, se eles não fizeram nada, essa conversa não tem motivos para existir. E não me leve a m*l, mas aqui agora o tráfico costuma se meter na vida das pessoas, sobre quem a gente se envolve ou não? Só para eu saber mesmo, cheguei esses dias, né? Vai que eu preciso me atualizar. — Disse, irônica e sorrindo debochada.
— Tu é abusada pra c*****o, né? Quer ver eu te dar um castigo? Uma semana sem ver a cara da rua? Fica nessa não, mandona. Se liga na tua responsa. Parei pra falar contigo na boa e tá toda aí, qual é? — Falou, puto, e eu me acabei de rir, não me segurei.
— Bofe, que loucura é essa. Só foi uma pergunta. A gente não tem nem i********e e você me perguntando essas coisas. Pensei logo que eram novas normas do tráfico, queria saber para não ser pega desprevenida, né. — Falei, rindo horrores.
— Bofe é o meu p*u! Vou meter o pé que tu tá doidona e eu sou meio estressado. Não vai prestar, fé na tua mandada. — Resmungou, ligando a moto.
— Isso, vai embora. Tem uma mina que tá louca atrás de tu, arrumou até confusão comigo. Então não fala mais comigo não, porque se ela vir de graça por causa de um bofe que eu nem pego, ela vai ter o que merece. Controla essas mina feia e remoçada que tu fica. Aí depois vocês vêm cobrar, tchau, boa noite. — Disse, abrindo o meu portão.
— Que mina? Não tenho mina não, tá maluca? E tu fala direito comigo, em, já falei. — Falou ele, desligando a moto de novo, p**a que pariu.
— Estou falando, amado. Se tu não sabe quem tu come, quem dirá eu, né? Tem como tu ir embora? Porque eu quero entrar. — Falei, já sem muita paciência.
Ele levantou da moto e veio na minha direção; meu coração quase saiu pela boca. Ele me empurrou contra o portão, que se abriu, e me encostou na parede do corredor da minha casa.
— Tu é muito abusada. Na próxima vez que falar assim comigo, vou te dar um tratamento novo. Falei na boa contigo e tu vindo dar uma de santa? Acabo com essa tua marra em dois tempos, tu quer ver? — Disse, me enforcando com uma certa força e falando rente à minha boca.
— Não me enforca assim, porque eu gosto muito. Esse é o meu jeito, se tu não gostou ou melhor, não está acostumado... é simples, só não falar comigo. Agora sai da minha casa. Você manda lá fora, aqui dentro quem manda sou eu. — Rebati, falando na mesma intensidade.
— Ah, tu gosta de ser enforcada, é? Sua safada do c*****o. Fica nessa comigo pra tu ver se não acabo com a tua marra em dois tempos, sua mandada. — Sussurrou, puxando o meu lábio inferior com força, subiu na moto e foi embora.
Fiquei ali, igual uma retardada, com os nervos à flor da pele e tentando entender o que diabos aconteceu aqui. Quem ele pensa que é? Me chamou de safada na minha cara, que ousadia! Será que eu sou mesmo? Nunca nem me envolvi com ninguém, nunca fiz nada, nem beijar tinha beijado. Não, na verdade hoje beijei sim, hahaha. Quase duas vezes. Eita Bianca, se liga menina, tá demais, hahaha.
Ele é muito gato, gostoso e tem uma pegada que me deixou bem mole, não vou mentir. A forma como ele me segurou, me deixou a calcinha encharcada. Agora só falta isso: meu corpo reagir ao que não presta. Com o outro menino eu não senti nada, mas também foi bem rápido e eu estava em pânico com a parada da Maria. Meu Deus, que dia!
Tranquei o portão e fui para dentro de casa tomar um banho. Meus hormônios estão alteradíssimos e não estou sabendo lidar com isso.