Maria Clara Narrando
- Acordei no meio da madrugada, do nada.
Sem motivo aparente… mas com o coração apertado. Aquela sensação r**m, sabe? Como se alguma coisa estivesse fora do lugar, virei pro lado, ainda meio sonolenta… procurando por ele. Nada. A cama vazia. Na hora, despertei.
— Terror? — chamei, com a voz baixa, rouca de sono. Silêncio.
- Sentei na cama devagar, passando a mão no rosto, tentando afastar aquela angústia que já tava crescendo dentro de mim. Olhei o quarto… banheiro aberto, luz apagada. Ele não tava ali. Meu coração começou a bater mais rápido.
- Peguei o celular na hora e liguei. Chamou, chamou, chamou… e Nada.
— Atende… — murmurei, já sentindo a voz falhar. Desliguei e liguei de novo. E de novo e de novo e mais uma vez, nada.
- Cada chamada não atendida parecia apertar mais meu peito. Levantei da cama, comecei a andar de um lado pro outro no quarto, inquieta. Eu conheço ele. Conheço quando alguma coisa tá errada.
- E depois de tudo… da rua, da confusão, daquele clima pesado… Isso não era coincidência.
- Não faz isso comigo… — falei baixo, já com os olhos marejados.
- Apoiei a mão na barriga, respirando fundo, tentando me acalmar.
— Fica calma… fica calma… Mas como?
Se eu sentia… lá no fundo… Que tinha alguma coisa muito errada acontecendo.
- Liguei mais uma vez e nada.
- O silêncio do outro lado da linha… gritava. Me sentei na cama de novo, perdida, com o celular na mão, esperando. Tentando não pensar no pior. Mas já pensando.
- Eu não aguentei ficar parada. Aquela sensação não passava… só piorava. Peguei um casaco qualquer, calcei um chinelo mesmo e saí. Nem pensei direito… só fui.
- A madrugada tava silenciosa demais… e isso me deixava mais nervosa ainda. Cada passo que eu dava, meu coração batia mais forte.
- Ele tá na boca… — falei pra mim mesma, quase como um instinto.
- Subi o morro rápido, mesmo com o peso da barriga já começando a cobrar. Mas eu não ia ficar em casa, esperando notícia r**m chegar. Quando fui me aproximando… já vi de longe o movimento.
- Muito mais do que o normal pra aquele horário. Homem armado, rádio chiando, gente andando de um lado pro outro com cara fechada. Meu estômago gelou.
— Eu sabia…
- Continuei andando, ignorando os olhares. Ninguém teve coragem de me barrar. Quando ele me viu, travou na hora.
Terror: Que que tu tá fazendo aqui? — ele veio rápido na minha direção, voz baixa, mas carregada.
Maria: E você? — retruquei na mesma hora, já sentindo a irritação subir junto com o alívio de ver que ele tava bem. — Sumiu, não atende telefone… tu acha que eu sou o quê?
- Ele passou a mão no rosto, claramente tenso.
Terror: Tu não era pra ter saído de casa.
Maria: E tu não era pra me deixar lá sem resposta!
- Ficamos um de frente pro outro, o clima pesado. Olhei em volta de novo… e aí caiu a ficha de vez.
Maria: Bernardo, o que tá acontecendo?
- Ele ficou em silêncio por um segundo. Um segundo longo demais. Até que falou:
Terror: Ferrugem voltou. - Meu corpo gelou na hora.
Maria: …o quê?
Terror: Pro Jorge Turco. — ele completou, seco.
- Levei a mão automaticamente pra barriga. Não precisava de mais nada, eu entendi tudo.
Maria: E agora?
- Ele chegou mais perto, abaixando o tom.
Terror: Agora o morro tá em alerta. Ninguém vacila. Eu já alinhei tudo. - Engoli seco.
Maria: Terror…
Terror: Em dois dias. — ele cortou.
Meu coração disparou.
Maria: O quê?
Terror: Segunda madrugada.
- O jeito que ele falou… firme, decidido… me deu um aperto no peito absurdo. E ele continuou:
— A gente vai subir. - Balancei a cabeça, em negação.
Maria: Não… não faz isso… - Ele segurou meu rosto, me obrigando a olhar pra ele.
Terror: Eu não tenho escolha.
Maria: Sempre tem! — minha voz falhou.
Terror: Não dessa vez. - O olhar dele tava diferente, frio, calculado e perigoso.
Terror: Ele mexeu com vocês. — ele falou baixo, mas cheio de peso. — Isso não fica assim.
- Senti meus olhos encherem de água.
Maria: E se alguma coisa acontecer com você? - Ele encostou a testa na minha.
Terror: Não vai.
Maria: Você não pode me prometer isso…
Terror: Mas eu posso garantir uma coisa — ele respondeu, firme. — ninguém encosta em você. Ninguém chega perto dos meus filhos.
- Minha respiração ficou irregular.
Maria: Eu não quero te perder… - Ele me puxou pra um abraço forte, daqueles que quase tira o ar.
Terror: Tu não vai.
- Mas no fundo… A gente sabia. Que guerra… nunca vem sem cobrar um preço.
E dessa vez… Tava perto demais.