Maria Clara Narrando
Passei pelos seguranças, que me olharam com cara de poucos amigos, até que um deles passou o rádio para o Terror e o infeliz respondeu que eu estava liberada. Não sabia que era sua prisioneira, né? Fui descendo a Rocinha; um calor de Deus me livre. Os bares estavam todos cheios, o povo tomando uma cerveja bem gelada e, pela primeira vez, a minha boca salivou por uma. Mas não vou parar em bar sozinha, seria o cúmulo da carência, hahahaha.
Achei um trailer de açaí em uma praça, fiz o meu pedido e a atendente montou tudo com capricho. Paguei e sentei naquelas mesas e bancos de concreto que têm por ali; fiquei comendo e observando ao meu redor, a praça cheia de crianças. Não sei como tem gente que critica as comunidades e nos anula o tempo inteiro. Ninguém tem mais sede de vencer do que esse povo. Mesmo com tão pouco, somos felizes com o que temos e seguimos firmes, apesar dos problemas e diversidades que aparecem constantemente. Eu amo isso aqui! Para mim, a Rocinha sempre vai ter o meu coração e significar recomeço, algo que eu mereço.
Estava me deliciando com o meu açaí, que gostoso, cara! É meio caro, mas vale a pena, bem saboroso mesmo. É batido na hora, não é industrializado, e isso já ganha o meu coração. Uma mulher e uma criança se aproximaram da mesa, me tirando dos meus pensamentos.
— Oi! A praça está muito cheia, tudo bem se eu sentar aqui com ela? Só até ela terminar o lanche.
— Claro, fique à vontade. — Respondi prontamente.
Elas se sentaram e a menininha ficou me olhando fixamente, fiquei até sem graça.
— Qual é o seu nome, tia? — Perguntou a pequena.
— Meu nome é Maria Clara, amor. E o seu?
— O meu é Eloah, e o da minha irmã é Bianca, tia. — Disse ela, dando uma mordida no lanche.
— Criança, para de falar e vai comer. — Pediu a irmã, meio sem graça.
— Nossa, que lindo o nome de vocês. Relaxa, Bianca, é coisa de criança, hahaha.
As horas foram passando e ficamos ali conversando enquanto a pequena brincava pela praça. Que conversa gostosa! Falamos sobre diversas coisas e me identifiquei de cara com a Bianca. Não entramos em assuntos íntimos, mas dá para ver que a vida dela também não foi fácil. Perderam a mãe há pouco tempo e ela tendo que assumir a responsabilidade pela irmã; ela é de uma força imensurável e isso é admirável.
Trocamos os números do w******p para manter contato e nos despedimos. Ela mora a duas ruas abaixo da casa do Terror, já gostei da localização.
— Tchau, n**a. Fica com Deus. Foi um prazer conhecer você e essa pequena linda. — Disse, pegando a Eloah no colo por um instante.
— O prazer foi todo meu. Foi muito bom conversar com você, me senti leve e pronta para encarar mais uns problemas, hahahaha. — Falou Bianca, pegando a irmã do meu colo e me dando um abraço apertado.
Elas seguiram seu caminho e eu continuei subindo. Não canso de admirar esse lugar; tá explicado o porquê todo mundo quer morar aqui, agora sim entendo. Cheguei ao portão de casa — ou melhor, da casa do Terror — e os seguranças estavam no mesmo lugar, feitos estátuas. Esse "emprego" não serviria para mim nem aqui e nem na China. Ficar parada num plantão de 12 horas sem poder fazer nada, m*l podendo mexer no celular, é loucura. Sem contar que tem que ficar segurando esses fuzis pesadíssimos, é o fim.
Entrei em casa e estava um silêncio, para variar. Tudo escuro; logo fui acendendo as luzes da sala, odeio escuro. Fui para o meu quarto e nenhum sinal do "gato"; deve ter saído para se aventurar, ele que está certo. Tem que aproveitar a vida, até porque a vida dele é bem incerta, né? Hoje tá vivo e amanhã pode não estar. Nossa, que pensamento pesado esse que tive, Deus me livre. Que ele ainda viva por muitos e muitos anos.
No meu quarto tem uma varanda que dá para o lado da varanda do quarto do Terror, eu nunca tinha ido até lá. Dali consigo ver a área gourmet na parte de baixo da sua residência e uma piscina enorme. Essa casa é surreal de linda, ele tem bom gosto. Fora a vista de toda a favela, com um pedaço da praia de São Conrado; imagine o pôr do sol daqui, deve ser a coisa mais linda, ficando como aqueles quadros perfeitos.
Aquela piscina estava me chamando. Acho que nunca entrei em nenhuma como aquela. f**a é que não tenho biquíni, ainda não comprei. Até porque não teria lugar para usar, mas acho que se eu colocar uma calcinha e um sutiã, não vai ficar r**m. Aproveito que ele não está aqui e os seguranças parecem não entrar na parte interna da casa.
Troquei de roupa rapidamente, peguei uma toalha e desci, cheia de ansiedade para entrar na água. Cheguei na área da piscina e é ainda mais linda de perto, sinceramente. Espero que ele não leve a m*l eu entrar sem antes falar com ele. Mas não quero incomodar, ele não está em casa, não vou ficar enchendo o saco, também não vejo nada de mais nisso.
Tirei a toalha e fui entrando devagar; a água estava gelada, mas extremamente gostosa. Com esse calor horrível que fazia, dei o meu primeiro mergulho e senti que metade da tensão e do peso nas minhas costas desapareceram. Fiquei nadando por toda a piscina, que sensação maravilhosa. Estava me sentindo viva, feliz e leve. Graças a Deus.
Estava distraída nadando, até que senti como se estivesse sendo observada. Olhei ao redor e não vi ninguém; também estava meio escuro, só com as luzes de led da própria piscina. Não quis acender as luzes gerais para não chamar a atenção dos seguranças, vai que eles me impeçam, Deus me livre, hahaha.
Olhei mais uma vez e não havia ninguém, mas como sou medrosa pra c*****o, saí da piscina, peguei a toalha, me enxuguei rápido e meti o pé para o meu quarto, hahaha. O que fazer? A vida me ensinou a ter medo de tudo.
Tomei um banho relaxante, vesti uma roupa leve e fiquei na cama mexendo no celular.