- Casei cedo… cedo pra c*****o. Quando eu vi, a Cíntia já tava grávida e eu com o mundo nas costas. Já tava no crime, mas não tinha metade da condição que tenho hoje. Era luta todo dia… bancar casa, sustentar mulher, criar filho… sem saber nem cuidar de mim direito.
- E mesmo no meio desse caos todo… eu sempre fui louco na minha mulher. Sempre fui. Só que a vida foi batendo, a rotina foi engolindo, e quando eu percebi… a gente já não era mais o mesmo. Virou automático, virou costume.
- Hoje são dois filhos. O caçula? Veio depois de uma briga feia… nós dois se odiando, transando na raiva, no veneno. E mesmo assim… é amor. Porque filho é isso, né? Vem até no meio da guerra.
- Eu amo meus filhos… amo mesmo. Mas eu sei que não sou exemplo de nada. Nunca fui. E ser fiel à Cíntia… isso aí já é uma luta que eu nem consigo sustentar, vai além de mim.
- O crime mexe com a mente… e eu não tenho cabeça pra isso, não. É muita mulher, muita tentação. Hoje tem um monte querendo colar, querendo dar atenção, disputar espaço… coisa que lá atrás, quando eu não era ninguém, não tinha. E isso sobe pra cabeça, dá uma sensação de poder… de mandar, de escolher, de ter quem eu quiser.
É errado? É. Eu sei que é. Mas eu não consigo ser diferente.
- A Cíntia… trabalha no posto, enfermeira. Mulher certa, postura, respeito. E ninguém é maluco de abrir a boca pra falar esse meu lado pra ela. Até porque eu não sou de ter amante fixa, não fico criando laço com ninguém. Não beijo p**a, não misturo as coisas. Tem coisa em mim que é só dela, mas mesmo assim… eu erro com ela todo dia.
- Meus filhos… quase não trocam ideia comigo. Eu sou ausente pra c*****o. Um pai que não tá, que não participa, que não soma. Às vezes eu tento me aproximar, puxar assunto… mas parece que já não tem espaço pra mim ali. Eles se acostumaram sem mim. E isso dói… mas ao mesmo tempo parece que já virou normal.
- Agora a mãe deles… esquece. É outro nível. É Deus no céu e ela na terra. Eles olham pra ela com um amor que chega dá um aperto, um carinho que eu nunca tive deles. E eu fico no meio disso…
- Com inveja… e feliz ao mesmo tempo.
Inveja porque eu queria esse amor pra mim. Mas feliz porque, pelo menos, eles têm nela tudo que eu nunca consegui ser.
Nunca deixei faltar nada. Eles têm tudo… videogame caro, PC bom, celular novo, casa boa, comida sempre na mesa.
Mas sempre faltou eu.
- E talvez… talvez seja melhor assim.
Porque, sendo sincero? Eu não sei se tenho algo de bom pra dar pra eles além disso. Só peço ao maior lá de cima… não tira eles de mim, não. Porque sem eles, eu não sou nada. E é até feio eu falar isso… hipócrita pra c*****o. Porque eu tenho… e não dou valor.
- Precisou eu sentir que podia perder… pra começar a perceber o tamanho do erro que eu sou.