— Levanta. Agora.
A voz dele cortou o silêncio do quarto com a precisão de uma navalha. Baixa, autoritária, implacável.
Isadora abriu os olhos, ainda sonolenta. O quarto estava mergulhado na penumbra azulada da manhã. O relógio marcava pouco mais de seis. Ela levou um tempo para entender onde estava. E então lembrou: a mansão, o quarto trancado, o casamento. O pesadelo não tinha fim.
— Você perdeu a noção da hora? — resmungou, a voz rouca, o corpo ainda pesado. — Está cedo até para seus padrões de tirano.
Dante estava encostado na porta, impecável. O cabelo escuro ainda úmido, o paletó sobre o ombro. A presença dele preenchia o ambiente de um jeito que doía respirar. Ele parecia tenso, mas controlado, como uma tempestade contida atrás de olhos frios.
— Temos visita. Em menos de uma hora. E você vai estar pronta.
Ela sentou-se na cama, ajustando o robe com raiva.
— Desde quando você dá ordens antes do café?
— Desde que você passou a morar sob o meu teto.
Ela riu, seca.
— Isso aqui não é um lar. É uma prisão de luxo.
— Que sorte a sua — ele respondeu, sarcástico. — Já vi prisões bem piores. Inclusive, algumas das quais tirei sua família.
Ela se calou. Não porque ele estava certo, mas porque odiava o fato de estar presa por um acordo que nunca quis. Isadora o encarou por um segundo longo, e se pudesse transformar ódio em lâminas, ele estaria em pedaços.
— Tente não parecer uma selvagem — ele disse, já virando as costas. — Eu gosto quando meus convidados acreditam que você me ama.
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Ela desceu com exatos trinta minutos de atraso. De propósito.
Cabelos soltos em ondas longas, vestido bege de corte elegante que delineava a cintura. A maquiagem leve escondia a exaustão da noite anterior. E o colar de pérolas que escolhera parecia brilhar com sarcasmo.
Dante estava à espera ao pé da escada, como se já soubesse que ela faria exatamente aquilo. Os olhos dele viajaram lentamente pelo corpo dela, mas sem elogio. Sem prazer. Apenas cálculo.
— Está atrasada — ele disse.
— E você está sempre irritante — ela retrucou, pegando seu braço com desdém.
Ele curvou os lábios num sorriso contido.
— Vamos sorrir, querida. Não queremos que pensem que nos odiamos.
— Imagine o escândalo se soubessem a verdade — ela respondeu entre os dentes, com a voz doce. — Que a senhora Rivas preferiria engolir cacos de vidro a dividir uma cama com o marido.
A campainha tocou.
Os dois se entreolharam como cúmplices de um crime que nunca confessariam.
A porta foi aberta por um dos empregados. Do lado de fora, um homem alto, de terno azul escuro, cabelo grisalho bem penteado, expressão austera. Ao lado dele, uma mulher jovem, belíssima, com olhos verdes e um vestido vermelho que parecia ter sido feito para incomodar.
— Dante! — o homem exclamou, sorrindo. — Meu rapaz, finalmente conheço sua esposa!
— Senhor Velloni — Dante apertou a mão com formalidade. — Esta é Isadora, minha esposa.
Isadora estendeu a mão com elegância, como se tivesse ensaiado aquela cena mil vezes.
— É um prazer recebê-lo — disse, com um sorriso tão falso quanto perfeito.
A jovem ao lado de Velloni observava tudo em silêncio. Então se adiantou.
— Clara — disse, com a voz doce demais para ser sincera. — Já ouvi tanto falar de você, Isadora.
— Só espero que não tenha acreditado em tudo — respondeu Isadora, ainda sorrindo. — Algumas verdades são mais perigosas do que parecem.
Dante apenas observava, em silêncio. Os olhos dele se fixaram por um breve instante em Clara — e naquele segundo, Isadora soube. Havia algo ali. Algo antigo. Algo não resolvido.
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A sala de estar estava impecável. A mesa de centro trazia arranjos florais delicados. O café foi servido em porcelana francesa. Frutas cortadas em bandejas de prata. Era um quadro de uma vida perfeita.
Mas todos ali sabiam que era apenas fachada.
Clara sentou-se ao lado de Dante com naturalidade demais. Ria com frequência. Tocava o braço dele. E cada toque era uma provocação dirigida diretamente a Isadora, que mantinha a compostura com a elegância de uma rainha traída.
— Então vocês se casaram em silêncio? — Velloni perguntou. — Nenhuma grande cerimônia, nenhuma festa?
— Foi uma escolha mútua — Dante disse. — Isadora não gosta de exposições.
— Odeio multidões — completou ela, olhando para o marido. — E hipocrisia.
Clara cruzou as pernas, encostando o queixo na mão.
— Imaginei que você fosse mais... explosiva. Dante sempre teve uma queda por mulheres intensas.
Isadora inclinou a cabeça com um sorriso polido.
— Eu sou. Só escolho quando explodir.
Dante, nesse momento, apoiou a mão sobre a coxa dela. Um gesto que, para qualquer um, pareceria íntimo. Mas Isadora soube: ele estava testando os limites. E ela não o deixaria vencer.
Ela colocou a mão sobre a dele — e apertou com força suficiente para machucar.
— Somos muito próximos — ela disse a Clara, com a voz mais doce do mundo. — Às vezes parece até que queremos nos devorar.
— Com certeza — Dante murmurou, desviando o olhar. — Em todos os sentidos.
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Depois de mais de uma hora de conversas forçadas, risos ensaiados e cortes disfarçados, a visita chegou ao fim.
— Adorei conhecê-la, Isadora — disse Clara, ao se despedir. — Você é exatamente como imaginei.
— Uma mulher de sorte? — Isadora respondeu.
— Uma mulher perigosa.
— Ainda bem que sabe disso — disse, dando um passo à frente, perto demais. — E se algum dia pensar em cruzar a linha, lembre-se: eu mordo.
A moça sorriu. Mas os olhos ardiam.
— E eu gosto de sangrar.
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Assim que a porta se fechou, Isadora soltou o braço de Dante com repulsa.
— Da próxima vez que me usar como vitrine, avise que vai expor uma mulher armada.
Ele virou-se lentamente.
— Você foi perfeita. Quase me convenceu de que gosta de mim.
— E você quase me fez vomitar — ela retrucou.
Ele se aproximou.
— Ciúmes de Clara?
— Clara que se dane. O problema é você.
— Achei que gostasse de jogos.
Ela estreitou os olhos.
— Isso não é um jogo, Dante. É guerra. E você não sabe com quem se casou.
Ele se aproximou mais um passo. A mão dele roçou levemente o queixo dela.
— Me mostre então.
Ela virou o rosto bruscamente, mas não sem deixar que ele visse: aquilo a afetava. O toque dele. A presença dele. O maldito poder que ele exercia mesmo quando ela jurava resistir.
— Você me enoja — sussurrou.
— E você me excita quando tenta me odiar.
Ela recuou. Subiu as escadas sem olhar para trás, cada passo carregado de raiva.
Naquela noite, trancou a porta com força. Puxou a tesoura escondida do criado-mudo e a deixou debaixo do travesseiro. E ficou ali, deitada, com os olhos abertos no escuro.
Porque o que sentia…
Não era mais só ódio.
Era medo.
Desejo.
E uma vontade absurda de feri-lo…
Ou de deixar que ele a ferisse.