A manhã chegou com um céu pesado, coberto de nuvens densas. Isadora olhou pela janela do quarto enquanto segurava uma xícara de chá. A água da chuva começava a tocar o vidro quando ouviu passos do lado de fora.
— Você tem cinco minutos pra estar pronta — Dante disse, parando à porta, com a mesma voz fria de sempre. — Vamos sair.
Ela se virou com lentidão calculada.
— Se quiser me s********r, ao menos seja mais criativo.
— Não é um sequestro. É um convite com aparência de ordem.
— Parece tão romântico vindo de você — ela murmurou, bebendo mais um gole. — Vai me dizer pra onde vamos ou devo levar um casaco, uma arma e um testamento?
Ele não respondeu. Apenas a olhou por um longo segundo, como quem não estava com paciência para o sarcasmo dela — o que, para Isadora, era quase uma vitória.
— Terei o carro pronto em dez minutos. Escolha bem o que vestir. É um lugar público.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Medo de que pensem que me sequestrou?
— Medo de pensarem que estou apaixonado.
Ela quase riu. Quase.
---
Quarenta minutos depois, o carro preto seguia por uma estrada estreita, cercada por árvores molhadas e céu em tons de chumbo. Nenhum dos dois falava. O silêncio era cortado apenas pelo som da chuva no para-brisa.
Isadora cruzava as pernas, impecável num conjunto de blazer branco e calça justa. O salto fino batia no assoalho em ritmo suave. Seu perfume, amadeirado e floral, preenchia o carro como um aviso: ela não estava ali para ser subestimada.
Dante mantinha os olhos na estrada. As mãos firmes no volante. O maxilar cerrado.
Ela o olhou de lado.
— Vai me contar agora ou quando já for tarde demais?
— O evento da fundação dos Rivas. Precisamos posar como um casal funcional.
— Que bonito. Casal de fachada com caridade envolvida. Que comovente.
— Você não vai precisar falar muito. Só sorrir e parecer minha esposa.
— Eu sou sua esposa.
Ele a olhou rapidamente, com um canto de sorriso que não alcançou os olhos.
— Por um preço. Todos têm o seu.
Ela não respondeu. Mas por dentro, cada palavra dele fazia o estômago dela se contorcer — não de tristeza. Mas de raiva. De frustração. De algo que queimava e ela não queria nomear.
---
O evento acontecia num centro cultural moderno, com fachada de vidro e concreto. Dentro, a elite se misturava sob holofotes, música clássica ao fundo e garçons circulando com bandejas de cristal.
Dante entrou com Isadora ao lado, como se a tivesse moldado para caber naquele papel. As mãos entrelaçadas. Os rostos relaxados. Mas cada toque entre eles era ensaiado. Cada olhar, um campo minado.
— Sorria — ele murmurou próximo ao ouvido dela, inclinando-se como se fosse um carinho.
— Finja que sou tudo o que você queria — ela retrucou, com um sorriso impecável nos lábios. — Isso deve ser fácil. Você é bom em mentir.
Eles foram cumprimentados por investidores, políticos e rostos conhecidos da imprensa. Dante apertava mãos. Isadora sorria com perfeição. A mulher ao lado dele parecia a esposa ideal — e apenas ele sabia que aquela mulher era um veneno refinado.
— Está se saindo bem — ele disse, enquanto posavam para uma foto juntos.
— Eu era treinada para isso desde criança — ela sussurrou, os lábios próximos à bochecha dele. — Enganar.
— Parabéns. Engana até a mim.
— Isso é um elogio?
— Isso é uma ameaça.
Eles sorriram para a câmera.
O flash brilhou.
---
Horas depois, quando a chuva apertou lá fora, a notícia chegou com um toque no celular de Dante: a ponte principal da estrada havia desabado. Deslizamento de terra. Não havia como voltar para a mansão. Pelo menos, não naquela noite.
— Ótimo — Isadora disse, sentando-se no sofá de couro da sala de hóspedes onde haviam sido instalados temporariamente. — Presos num centro cultural com cheiro de verniz e vinho barato.
Dante observava pela janela, falando ao telefone com um de seus seguranças.
— Uma equipe está tentando abrir caminho pela parte norte da floresta. Pode levar horas.
— Você planejou isso? — ela perguntou com sarcasmo. — Me isolar pra ver se desisto e aceito sua existência?
— Eu prefiro que lute. Gosto mais de você quando está armada.
Ela cruzou os braços.
— Você não sabe o que eu sou capaz de fazer quando não tenho pra onde correr.
Ele a olhou por cima do ombro, a expressão grave.
— Justamente por isso estou tranquilo. É quando você foge que me preocupo.
---
O tempo passava devagar. Eles dividiam um único ambiente. Um quarto improvisado com sofá, lareira acesa e uma poltrona. Havia uma cama de casal no canto, coberta por lençóis brancos que pareciam mais ameaçadores que qualquer prisão.
Isadora se levantou, impaciente.
— Isso é ridículo. Não temos nada pra fazer além de fingir que existimos bem juntos?
Dante a encarou.
— Podemos conversar.
— Sobre o quê? Sobre como você destruiu meu pai?
— Sobre como ele me destruiu primeiro.
Ela parou.
— Do que está falando?
Ele se aproximou.
— Nada que eu queira explicar agora.
— Então não fale em "conversar", Dante. Você só quer dominar. E eu não sou sua peça.
— Não. Você é o tabuleiro inteiro.
Ela engoliu seco.
— Às vezes eu me pergunto se você sabe que está começando a ceder.
— E às vezes eu me pergunto se você percebe que está começando a sentir.
— Eu não sinto nada por você.
Ele deu mais um passo.
— Mas deseja.
— Não.
— Então por que sua respiração muda quando eu chego perto?
Ela estalou a língua.
— Talvez seja nojo.
— Talvez — ele disse, e passou por ela, indo até a lareira.
Ela ficou ali, no meio do quarto. O peito subindo e descendo devagar. A consciência rodando entre o que queria e o que precisava negar.
---
Mais tarde, quando ambos já haviam tomado banho e trocado de roupa, Dante ocupava a poltrona com um copo de vinho. Isadora estava deitada na cama, longe da beira, o corpo coberto até os ombros. Mas os olhos estavam abertos. Observando.
Ele olhou de volta.
— Está com medo?
— Estou com raiva.
— Do que?
— De mim. Por não conseguir mais te odiar com tanta facilidade.
Ele bebeu mais um gole.
— Ainda bem. Eu odeio o suficiente por nós dois.
— Mentiroso — ela sussurrou, virando o rosto.
---
De madrugada, a luz da lareira ainda dançava pelas paredes. Isadora estava acordada. E sabia que ele também. Não disseram nada.
Mas no silêncio, algo entre eles mudava.
Sem que percebessem.
Sem que pudessem impedir.