A traição que ainda nao veio atona

553 Words
Helena e Luís ainda dividiam o mesmo apartamento. O mesmo teto. A mesma cama. Mas era só isso. Os sorrisos agora eram ensaiados. Curtos. Vazios. Helena sorria por hábito, por educação, por cansaço. Luís sorria por conveniência, tentando fingir que ainda tinha algum controle da situação. À noite, deitavam lado a lado. Corpos próximos. Almas distantes. Luís virava para o lado, tentava puxar conversa, como se nada tivesse acontecido. — Amor… amanhã eu vou sair cedo, procurar emprego. Helena apenas respondia com um “hm”, baixo, sem emoção. Ela não acreditava mais. As promessas tinham perdido o peso. Na cama, ela ficava rígida. Não era medo. Era lucidez. O toque dele já não confortava, incomodava. Cada aproximação parecia invasiva, não íntima. Ela lembrava de tudo. Do dinheiro. Das mentiras. Do sofá. Do videogame. Do carro indo embora. Luís, por outro lado, sentia algo diferente: pânico. Sem o carro. Sem dinheiro. Sem a segurança de antes. Ele percebeu que Helena estava ali… mas não estava mais disponível. Não emocionalmente. Não financeiramente. Não como antes. Durante o dia, ele tentava compensar: lavava um copo, arrumava a cama, fazia um almoço simples. — Tá vendo? Eu tô mudando. Helena observava em silêncio. Mudança não se prova em um dia. Nem em gestos tardios. À noite, deitados de costas um para o outro, o silêncio era mais pesado que qualquer briga. A cama que antes era rotina agora era fronteira. E o sorriso que ela mostrava durante o dia não passava de armadura. Helena já sabia, no fundo: Algumas relações acabam muito antes do adeus. Elas terminam quando o amor vira obrigação… e a presença vira apenas um corpo ocupando espaço ao lado. E ali, entre sorrisos falsos e uma cama compartilhada, o fim já tinha começado. Enquanto Helena trabalhava, Luís mentia. Ele saiu de casa dizendo que ia “resolver umas coisas”. Não explicou quais. Não precisou. Helena já não perguntava. O silêncio entre eles tinha virado regra. Luís foi direto para outro endereço. Outro sofá. Outra cama. Outro corpo. Na casa de Bruna, ele parecia mais leve. Ria alto, reclamava da vida como se fosse vítima, como se o mundo fosse injusto com ele. — Ela tá impossível — disse, jogado na cama dela. — Quer vender tudo, quer mandar em mim… enlouqueceu. Bruna revirou os olhos. — Ela tá certa — respondeu, distraída, mexendo no celular. — Você vivia às custas dela. Ele se irritou. — Você não entende. Ela sempre teve dinheiro. Nunca faltou nada pra ela. Bruna riu, debochada. — E agora falta pra você, né? O silêncio durou poucos segundos. Depois, ele se aproximou. Tocou. Beijou. Como se aquilo fosse solução. Como se o corpo dela fosse fuga. A traição acontecia ali, simples, repetida, sem culpa. Enquanto isso, Helena atendia pacientes. Sorria profissionalmente. Salvava sorrisos alheios sem saber que o dela estava sendo roubado por trás. Luís voltou para casa à noite. Sentou na mesma cama. Deitou ao lado dela. Dividiu o mesmo lençol. Helena virou de lado, cansada demais pra notar o cheiro diferente, o toque apressado, o vazio maior. A traição ainda não tinha vindo à tona. Mas já existia. Porque às vezes o fim não chega com escândalo. Ele acontece em silêncio… enquanto alguém acredita estar tentando salvar o que o outro já destruiu.
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