a despedida que doi

887 Words
O dia ainda estava nascendo quando Helena desceu as escadas com as malas. A luz suave da manhã entrava pelas janelas, deixando a casa num silêncio bonito, quase solene. Klaus estava na sala. Em pé. Como se não tivesse dormido. Ele a olhou por alguns segundos antes de falar: — Você vai pra onde? Ela pousou as malas perto da porta e respirou fundo. — Eu comprei uma casa… perto daqui. — sorriu de leve. — Uma casinha pequena, com um jardim. Transmite paz, sabe? Klaus sorriu, sincero. — Parece com você. Ela riu baixo. — É… Ele ficou sério por um instante. — Você não vai se afastar, né? Helena levantou os olhos pra ele. — Eu nem conseguiria. Eles se aproximaram ao mesmo tempo e se abraçaram. Não foi rápido. Não foi contido. Foi um abraço longo, silencioso, daqueles que dizem tudo o que a boca não consegue. Quando ela levantou o rosto, os olhos encontraram os dele. — Eu só quero te ver bem — Klaus disse, com a voz baixa. — Mesmo que doa te ver indo embora daqui. Eu já me acostumei com você. E você sabe que essa casa nunca vai deixar de ser sua. Helena sorriu, emocionada. — Eu também me acostumei com você. — Fez uma pausa. — Mas eu preciso de um espaço… de um tempo pra ficar comigo. Você também. E depois… a gente vê como fica. Ele assentiu. Não havia frustração ali. Só maturidade. Klaus se inclinou e deu um beijo leve na testa dela. Helena encostou a cabeça de novo no peito dele e ficou ali por alguns segundos, gravando aquele momento. Depois, ele pegou as malas e levou até o carro dela. Colocou tudo no porta-malas com cuidado. Ela se virou pra ele. — A gente não vai perder contato, tá? — Nem pensar — ele respondeu. Ela sorriu, brincando: — Eu juro que nem vou achar r**m se você aparecer de surpresa lá pra me visitar. Klaus abriu um sorriso maior. — Então pode deixar. — inclinou a cabeça. — Já que você falou que tem jardim… eu apareço com uma cesta de piquenique. A gente senta, conversa e vê o pôr do sol. Os olhos dela brilharam. — Vai ser perfeito. — Como tudo ainda pode ser, Helena. Ela entrou no carro, mas antes de fechar a porta, olhou pra ele mais uma vez. — Vai com cuidado, tá? — Você também. — Ele sorriu. — Se cuida. — Pode deixar. Eu vou me cuidar. Eles trocaram um beijo carinhoso no rosto. Sem promessa exagerada. Sem medo. Só verdade. Helena ligou o carro e partiu. Klaus ficou parado, observando até o carro sumir na rua. Ele não sentiu perda. Sentiu começo. Klaus continuou ali, parado na calçada, mesmo depois do carro de Helena desaparecer completamente da rua. Só quando o silêncio ficou pesado demais ele voltou pra dentro. A casa parecia… grande demais agora. Ele fechou a porta devagar e encostou as costas nela por alguns segundos, respirando fundo. O cheiro dela ainda estava ali. Não era perfume — era presença. Era o jeito como ela ocupava os espaços sem fazer barulho. Vinte dias. Vinte dias que tinham mudado a rotina dele sem pedir licença. Ele caminhou pela sala, os passos lentos, e sentou no sofá onde tantas vezes eles conversaram até tarde. Lembrou dela ali, encolhida, segurando uma xícara de café com as duas mãos, falando baixo quando o cansaço batia. Lembrou das risadas inesperadas, das conversas sérias, dos silêncios confortáveis. Subiu as escadas quase sem perceber. Parou em frente ao quarto de hóspedes. Abriu a porta. A cama estava arrumada, impecável, mas vazia. O travesseiro ainda guardava o formato da cabeça dela. Klaus passou a mão pelo lençol devagar, como se aquele gesto pudesse manter algo vivo ali. — Você ficou… — murmurou pra si mesmo. — E isso foi o suficiente. Ele lembrou da despedida. Do abraço longo. Do jeito que ela tinha levantado o rosto pra ele. Da força que precisou pra não pedir que ela ficasse mais um pouco. Não porque fosse fraca — mas porque era forte demais pra ir embora no momento certo. Klaus sentou na beira da cama e deixou o olhar vagar. Ela não saiu por falta de sentimento. Saiu por respeito a si mesma. E isso, de alguma forma, fez ele admirar ainda mais. Desceu de novo, passando pela cozinha. Duas xícaras ainda estavam no escorredor. Ele sorriu de canto. Helena sempre esquecia de guardar. Dizia que depois resolvia. E resolvia mesmo, só no tempo dela. Ele se apoiou na bancada. — Você trouxe paz pra minha casa… — disse em voz baixa. — Agora ela vai ter que aprender a ficar em silêncio de novo. Mas não era um silêncio vazio. Era um silêncio cheio de possibilidade. Klaus pegou o celular, abriu a conversa com o nome dela, digitou algumas palavras… e apagou. Não precisava dizer nada agora. Eles tinham prometido tempo. E ele respeitaria. Olhou pela janela. Imaginou a casinha. O jardim. O pôr do sol que ainda veriam juntos. Ele sorriu, firme. — Vai ser do seu jeito, Helena. — respirou fundo. — E quando você quiser… eu vou estar aqui. E pela primeira vez desde que ela chegou ali machucada, Klaus entendeu: proteger também era saber deixar ir.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD