Capítulo 6

842 Words
Larissa Na manhã seguinte, dia do sepultamento, veio uma chuva fina como se o céu estivesse chorando assim como nós. Seria o dia do adeus definitivo ao meu pai. Tomamos um pequeno café da manhã apesar de já ser tarde, não dormimos muito, deitamos um pouco para descansar o corpo. No início da tarde, saímos de casa para irmos para o cemitério, minha mãe foi com tia Lúcia, meus primos e o marido e eu fui no carro com Diogo e seus pais. Chegando lá foi difícil o momento em que iriam fechar o caixão. Então eu pedi à minha tia Lúcia que falasse com o pessoal que queria ter o último momento sozinha com meu pai. Ela prontamente fez o pedido a todos os presentes, inclusive minha mãe, que não aceitava essa situação, mas como sempre ouvia tia Lúcia e eram mais que irmãs, tinham uma cumplicidade enorme, cedeu e se afastou. Olhando para seu rosto pela última vez falei as palavras que estavam presas em minha garganta desde a tarde ontem. – Paizinho, vá com Deus! Descanse em paz. Eu não tenho do que te perdoar, pois a mim e a minha mãe o senhor não fez nada, já que na época, eu não existia e minha mãe você não conhecia. Infelizmente quem deveria receber esse pedido de desculpas não está perto de nós, e sabe Deus onde podemos encontrá-lo, já que não pôde, assim como eu, compartilhar momentos felizes ao seu lado. Uma lágrima rolou de meus olhos. Sabe pai, eu adoraria ter um irmão, mesmo que fosse um meio irmão, mas nem posso te prometer encontrá-lo, pois já fazem muitos anos, que separam o dia em que aquela mulher bateu à sua porta com seu filho nos braços. Mas pode ter certeza que não te julgarei e muito menos te condeno por isso, só desejo que Deus lhe receba em seus braços e te perdoe por seus erros e que assim você tenha seu descanso eterno e tranquilo. Nós vamos estar bem, eu e mamãe, pode deixar. E quanto ao meu irmão infelizmente não o tenho aqui ao meu lado pra compartilhar essa dor que me corrói o peito, mas tenho certeza que Deus também está cuidando dele e acho que o senhor agora tem a oportunidade de olhar por seus dois filhos. Descanse, pai! Amo você! — Beijei seu rosto pela última vez sentindo que em sua pele já faltava o calor que sempre procurei quando precisei de conforto. Chorei contida, sem escândalos e tentei pensar que o que aconteceu foi o melhor que Deus fez por ele, apesar da pouca idade sua hora havia chegado e quanto a isso ninguém poderia fazer nada. Logo chamei a minha mãe e o restante da família para podermos fazer as últimas despedidas do meu amado pai e assim que o caixão desceu no túmulo fomos embora para casa, amparados por nossos amigos. Agradeço a Deus por Diogo estar ao meu lado nesse momento quando deveria estar na faculdade, realmente ele escreve certo por linhas tortas. Depois que todos se despediram naquele fim de tarde e foram para suas casas, voltando às suas rotinas de cada dia, o vazio se instalou de vez em meu peito, agora não tinha mais volta éramos minha mãe e eu sozinhas naquela casa que perdeu a sua alegria no momento em que a porta se fechou e papai não estava lá dentro conosco. Mamãe seguiu para seu quarto e se trancou lá. Fiquei parada na sala observando aquela cena dela entrando sem me dirigir nenhuma palavra e a porta se fechou. Respeitei aquele momento dela, tantos anos ao lado do homem que amava e de repente não o ter mais ao seu lado, não só como marido, mas companheiro e amigo devia ser bem difícil. Olhei ao redor da sala as nossas fotos, momentos de alegria registrados e peguei um porta retrato que estava na estante onde na foto estávamos nós três papai, mamãe e eu em um dia de sol que fomos ao sítio de um amigo dele. Passei a ponta dos dedos acariciando aquele rosto que jamais veria novamente. Fui para o meu quarto e me sentei na cama tentando acalmar o meu coração, eu estava exausta, sim, mas o sono não aparecia, foi então que me lembrei da caixa guardada no fundo do meu armário. Peguei-a e tranquei a porta do quarto para não correr o risco da minha mãe abrir e se deparar com o segredo do meu pai, que agora era meu também. Abri com cuidado a caixa, peguei a cópia da certidão de nascimento do meu irmão, ele faria aniversário logo. Gostaria tanto que tivesse sido diferente, sempre quis ter irmãos, mas infelizmente não foi possível para minha mãe e hoje que descubro que tenho um meio irmão não sei onde está. Pai, por que o senhor fez isso? — Pensei lendo o seu nome simples, sem ter o nome do pai constando na certidão nem em seu nome o sobrenome do papai que deveria estar lá também.
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